O Encontro com o Olhar da Fúria Assassina
A história que vou lhes contar se passa em um dia atípico, em um dia que a ordem natural das coisas foi subvertida, e em um instante eu já estava em uma situação totalmente fora de meu controle. Eu fiquei à mercê da sorte, e correndo o maior perigo de minha vida. Contando assim, talvez seja difícil você se localizar, sem mais enrolação, vou lhes contar o encontro mais sinistro da minha vida.
Neste tempo eu era staff de
campeonatos de Jiu-Jitsu, e volta e meia estava ajudando meu professor a
organizar as competições. Vocês já ajudaram a organizar um campeonato? Se não,
vou lhes dizer que é intenso, cansativo e por vezes estressantes. Nesta
competição em si, as coisas não pareciam que iam ser tão difíceis, pois era um
torneio somente contando com faixas pretas, logo, não haveria uma maratona de
lutas de quando os campeonatos são abertos a todos os competidores. Geralmente
nestas competições profissionais, as coisas eram mais tranquilas.
O evento começaria as dezenove horas, mas começar atrasado é uma tradição do Jiu-Jitsu. Neste fatídico dia o
evento, por incrível que pareça, o evento começou pontualmente. Os atletas já estavam prontos e preparados para
dar inicio ao torneio. Minha função era
coordenar as chaves e chamar os lutadores para as lutas, o que me fazia estar
atento em quem é quem e contra quem iria lutar.
Em uma rápida olhada todos estavam
ali, pelo menos aqueles que eu conhecia do circuito local. Mas haviam lutadores
vindos de fora de cidade, que de fisionomia eu não os conhecia. Comecei a
organizar as chaves e direciona-los para a pesagem. Todos os nomes que eu
chamei foram aparecendo e se pesando, mas um nome não atendeu ao chamado. Chamei
ele três vezes, e nada, até que pedi ao meu professor para anuncia-lo no
microfone. Mesmo com seu nome anunciado no microfone, este lutador não apareceu.
O lutador ausente fazia parte da categoria de mais de com quilos, então não
havia necessidade de ele se pesar para lutar, talvez ele tinha planejado chegar
na hora da sua luta. Mesmo com um lutador faltando na pesagem, decidiram iniciar
as lutas com quem estava lá.
O lutador ausente era vindo de fora
da cidade, e estava hospedado em um hotel em frente ao ginásio, o que tornara
impossível ele se perder indo para o local de competição. Minha escolha foi
deixar a luta dele por último, dando tempo para que se caso ele chegasse
atrasado, ainda pudesse lutar, afinal, em um torneio deste nível, uma luta a
menos deixa com menos brilho a vitória do campeão, além do mais, haviam me
falado que ele era um dos favoritos.
Preocupado com a prancheta e em avisar no microfone o nome dos lutadores, me esqueci do lutador ausente. Só me dei conta da existência dele novamente ao ser surpreendido com alguém entrando rapidamente na área dos Staffs.
Só o que pude perceber é que era alguém muito
grande, muito grande mesmo! Ao avista-lo de primeira, somente consegui o ver de
costas, ele estava andando rápido em direção do vestiário. Mesmo eu conseguindo
perceber que ele estava só de short e sem camisa, minha função de staff me
levou a segui-lo com objetivo de avisa-lo sobre sua luta.
Ao chegar no banheiro, me deparei com a cena mais inusitada possível. Lá estava o lutador que faltava, ele estava de cabeça baixa e resmungando coisas que não entendia. ele lavava compulsivamente suas mãos, que ao prestar atenção estavam todas sujas de sangue. Sem pensar, me aproximei dele e perguntei o obvio: “E ai irmão! Você cortou sua mão?”.
Até aquele momento, o que consegui entender foi que ele estava lavando uma
das mãos, que possivelmente tinha um corte. Mas aos poucos percebi que o sangue
estava por todo corpo dele, inclusive no seu rosto. No momento que percebi que
o sangue não vinha dele, outro amigo meu adentrou o vestiário, e ficou ao meu
lado assistindo minha conversa com aquele sujeito enorme, que lavava
compulsivamente suas mãos e jogava água no seu rosto. O gigante ensanguentado
desligou a torneira, e de cabeça baixa me deu sua resposta: “Vim aqui com
minha esposa e meu filho e estou voltando sem os dois”.
Tive pouco tempo para ligar os pontos do que estava se passando com aquele sujeito, minha mente só conseguiu realizar uma possibilidade, o sangue que manchava o corpo do gigante era de sua esposa e seu filho. Meu coração parou por um segundo, só de imaginar esta possibilidade hedionda.
O medo me paralisou , e como naqueles pesadelos que suas
pernas ficam pesadas e não se consegue correr, estava acontecendo o mesmo, só
que na realidade. Minhas pernas tremiam, não respondendo ao comando de correr
para longe, a diferença é que tinha absoluta certeza que não era um pesadelo,
era um com toda a certeza uma realidade inimaginável.
Agora ele se postava em minha
frente. Acho que batia na altura na metade do corpo dele, sendo um homem de
baixa estatura, pude somente vislumbrar o que havia acima de minha cabeça. Lá
no alto tive a visão daquele homem, que deveria ter uma base de uns quase cento e cinquenta quilos, distribuídos em e dois metros de altura, pelo menos foi o que me disseram depois. O
que estava a minha frente era montanha ensanguentada, olhando para minha
pequeneza abaixo dele.
Me
fitando com olhos, olhos estes que giravam lancinados, o Gigante Assassino proferia frases
desconexas: “Eu só fiz a ponte”, “Ninguém se mete na minha vida” e algumas que
pareciam uma língua de algum lugar desconhecido. Por fim ele bateu com as
palmas da mão no peito, um tapa que ressoou por todo aquele vestiário, só podia
sentira força gerada pelo o som de sua imensa mão atingindo seu próprio peito. Ele
batia e gritava: “Aqui é o Cavalo Branco!”. Minha mente só conseguia confabular
que aquele homem havia perdido qualquer sanidade, e agora simplesmente estava
possuído por uma fúria assassina desenfreada.
Enquanto tentava me mover, ao meu
lado surgiu alguém que reconheci quase que na sensibilidade, pois não conseguia olhar para os lados. Quem chegou era um amigo meu, que conhecia o Gigante
Assassino, mas que em segundos realizou que havia algo de errado com ele. Lá
estávamos naquele vestiário, eu, meu amigo, e a nossa frente um gigante
ensanguentado, que se auto intitulava o “Cavalo Branco”.
Não sei quanto tempo se passou, talvez tenha sido cerca de menos de um minuto, mas cada palavra, e cada gesto dele, pareciam se passar em câmera lenta para mim, pois não sabia o que aquele homem havia feito, menos ainda o que planejava fazer. Neste momento de indecisão que estava, atrás de mim entram mais homens, consigo com minha visão periférica perceber a farda da polícia.
Em segundos estão eles atrás de
mim, apontando escopetas na direção do “Cavalo Branco”. Neste momento me encontrava no meio de
três homens de escopeta apontadas para um gigante ensanguentado e em surto. Os
dois lados gritavam, enquanto eu procurava forças para tomar uma atitude e sair
dali.
Com toda aquela cena digna de filmes
policiais violentos, meu amigo conseguiu sumir tão rapidamente como apareceu, e
pior, me abandonando naquela negociação violenta.. Tudo que podia perceber, era que eu estava somente por mim naquele vestiário,
tendo a minha frente o “Cavalo Branco Ensanguentado” e atrás de mim três
polícias apontando escopetas na direção dele, parecendo não se importarem de ter
em sua linha de tiro a minha pessoa.
A
gritaria começou, de um lado os policiais gritando mandando-o colocar as mãos
na cabeça, e o Gigante gritando do outro lado, se recusando a obedecer. Conseguia
perceber o misto de adrenalina e medo dos policiais gritando, e mesmo com a
possibilidade do ataque do gigante, o que poderia ser o principio das escopetas
dispararem na direção dele, algo que iria me pegar no meio do caminho, eu
parecia invisível para todos naquela negociação. Só conseguia pensar que queria
sair dali e sobreviver.
Tudo que vos conto não passou mais
que alguns minutos, nem consigo precisar quanto tempo foi, mas são cenas que
marcam minha memória, e por vezes voltam a minha mente quando estou deitado no
escuro tentando dormir. Não sei se o que mais me assustou foi olhar daquele
homem perdido em sua loucura assassina, ou os gritos nervosos dos policiais
armados, que estavam calculando em sua mente o cumprir do dever, mas exalavam o
cheiro do medo ser morto por aquele gigante.
Todas aquelas imagens e sons ainda me assombram.
Apesar
de quando conto esta história algumas pessoas conseguierem enxergar uma cena até
cômica, por imaginar eu pequeno do jeito que sou, totalmente desavisado parado na frente de um gigante assassino. Não consigo
enxergar o teor cômico da situação, mesmo que a conte as vezes desta maneira. Tudo
que ocorreu naquele vestiário foi marcante, acho que é o quão próximo uma
pessoa pode ficar de uma genuína fúria assassina, e mesmo assim viver para
contar.
Insano, bizarro, grotesco,
assustador, etc... são adjetivos que me fazem descrever aquela situação. E lá estava
eu, em um dia que poderia imaginar qualquer situação, menos aquela ali. Agi de
forma rápida, e em um espaço aberto pelos policiais, me esgueirei por dentre
eles e suas escopetas. Saí quase que de forma automática, não me lembro de
consciente comandar meu corpo na fuga. Quando me dei conta, havia conseguido
sair daquele vestiário, sem nem mesmo olhar para trás para ver o que estava
acontecendo. O alivio de estar fora daquele pequeno espaço, não tendo mais a
minha frente aquele homem e a policia nervosa armada á minhas costas, foi uma
das maiores, se não, o maior alívio de toda a minha vida.
Fora daquele espaço, pude acompanhar
a situação melhor, escutando todo o burburinho de um ginásio que ansiava pela
resolução daquela história absurda, uma história surgida no último momento. Fiquei
um tempo parado do lado de fora, paralisado com a prancheta na mão, com olhos
vidrados, coração acelerado, sentindo a adrenalina de alguém que quase fora
atropelado, mas que sairá vivo e a salvo de qualquer dano ou morte violenta.
Depois o “Cavalo Branco” saiu em
disparada pelo ginásio, tendo a policia em seu encalço, mas para sorte dos
presentes, ele apenas se evadiu do ginásio. Depois ficamos sabendo que foi
preso na frente do hotel em que estava hospedado. Demorei um tempo para
processar toda aquela informação, nem se quer me fazendo curioso para o destino
daquele homem, que minutos antes me assombrara.
O crime cometido pelo “Cavalo Branco” viria a ser conhecido por todos no ginásio naquela noite e todo país nos próximos dias. Com as notícias, pude montar o quebra cabeça que levou ele do seu assassinato até nosso encontro. O sangue que manchava todo seu corpo quando o abordei, era de sua vítima, alguém hospedado no mesmo hotel que ele, e que foi morto a golpes de cadeiradas vindas de um lutador de mais de cento e cinquenta quilos.
Quando penso no
quão perigoso foi a situação, me recordo da vítima, que simplesmente teve sua
noite de sábado em um hotel, interrompida por um assassino a sua porta. Penso
muito na vitima dele, fico até mal em pensar que o terror de quem encontrou-o
antes de mim. Me espanta pensar o quão próximo fiquei de ser a segunda
vítima do Gigante Assassino.
Os motivos que levaram ele a cometer
tal atrocidade não são totalmente compreendidos, afinal, o que faz um homem
matar alguém que nem conhecia, invadindo seu quarto e quebrando uma cadeira em
sua cabeça até ela se esfacelar? Acredito que não exista resposta no mundo que
satisfaça esta dúvida.
Depois daquele dia, procurei ao máximo me afastar daquelas lembranças, mas é impossível não se recordar do profundo que enxerguei nos olhos de quem já havia perdido a sanidade, de quem não mais tinha limites entre o certo e o errado, sem distinção entre bondade e maldade.
Por vezes
aqueles momentos são me recordados em pesadelos, quando eles ocorrem, eu acordo
em um grito abafado, sento na cama, e quando me dou por mim, me alegro em de ter conseguido fugir daquele vestiário mais uma vez.

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