Gritos do silêncio



        A história que vou lhes contar não foi vivida por mim, tampouco vivida por alguém que conheço. Ela foi contada em terceira pessoa. Alguém próximo àqueles que passaram por esta. Logo, não posso lhes dizer que aconteceu exatamente como vou lhes contar, mas quem contou, descreveu com tamanha riqueza de detalhes, que ficou compreensivo a natureza do que me relatava.

         Talvez vocês estejam ansiosos para que eu inicie logo a porra da história, mas devo-lhes adverti-los antes, que quando escutei esta história, fiquei perturbado uns dias com a imagem que se formou em minha mente.

         Em uma conversa descontraída entre amigos, em que um fica brincando com outro, contando histórias engraçadas, um amigo começou com esta história. Todos da roda esperavam um teor de comédia ao final da prosa, o que provou não acontecer.

        O amigo que contou a história tinha um casal de tios. Ambos, surdos. Guarde bem esta informação, ela será de suma importância. Eles moravam em uma rua onde conheciam muito bem a vizinhança. Uma das vizinhas do casal, era uma senhora de meia idade e recém-divorciada. Se você nunca se divorciou, talvez não saiba que nestes momentos as pessoas tendem a extravasar seus anos de alegria contida em uma relação fechada, se jogando em festas e eventos diversos, sempre vivendo como se a noite ou dia não tivesse fim. Esta vizinha estava explorando seus limites de diversão.

        A amiga do casal começou a fazer muitas festas em sua grande casa. Estas festas eram organizadas por ela, em conjunto com um grupo de amigos gays que moravam na região. As festas do casarão em que morava a amiga eram sempre regadas a muita cerveja, churrasco e música. Uma combinação muito atrativa para qualquer um que gosta destes elementos, principalmente em conjunto e ainda por cima com dois bônus, que dava ainda mais pontos para a festa: Tudo à vontade, de graça, tornando o convite irrecusável.

            O atrativo da gratuidade da farra foi algo que atraiu o casal, que já estava pra lá da meia idade, e acabou ficando menos rigoroso com os convites que recebiam. Mesmo não fazendo parte daquele grupo, afinal, o que ligaria um casal de coroas, surdos, com uma festa de pessoas com objetivo de curtir ao máximo? Quase nada, não é? Mas a gratuidade foi o chamariz que os levou àquela casa, com o objetivo de aproveitar as benesses da festa.

Era uma casa muito grande, praticamente nenhuma regra pré-estabelecida, lá estava o senhor surdo sentado em uma sala mais isolada, degustando sua cerveja e beliscando o churrasco, enquanto sua esposa se divertia com a amiga em uma grande área nos fundos da casa, onde ficavam localizadas a churrasqueira e a piscina. Ao seu lado na sala, o senhor tinha uma companhia que não era das melhores, um notório dependente químico da região, conhecido popularmente como “Cabeção”. Mas a cerveja e o churrasco gratuitos, faziam até mesmo a companhia de qualidade duvidosa ser mero detalhe. O que parecia um dia de pura apreciação deste senhor, começa a tomar rumos sombrios.

De uma hora para a outra, os sentidos do senhor começam a falhar. Neste momento seu controle corporal fica limitado, tornando qualquer ação impossível de ser executada. Aos poucos, ele sente seu corpo todo dormente, e não mais conseguia se mexer. O único sentido restante foi a visão, uma vez que sua voz não existia mesmo, assim o tornando mero expectador das ações ao seu redor.

Um grupo de homens adentra a sala, e o antes companheiro de bebida, já desmaiado ao seu lado, começa a ser despido, e nas palavras de quem me contou “O Cabeção já entrou no espeto”. O termo utilizado é uma alusão ao estupro de alguém vulnerável. Compreensão dos fatos: estupraram o Cabeção!

. Enquanto está cena de horror acontecia, o senhor somente assistia os atos ao seu redor, imóvel, sem qualquer possibilidade de ação, para não ser o próximo, gritando em silêncio por socorro, enquanto fatalmente sua hora chegaria.

Os homens se aproximam rapidamente do senhor, que eles acreditam estar dopado e desacordado. Na verdade, o senhor esta apenas imóvel, porém consciente de tudo que ocorre a sua volta. Ele é virado de lado, agora sua visão é de apenas o couro do sofá, esta informação eu imaginei, pois o contador do fato não especificou, mas uma coisa tenho certeza, o desespero tomou conta de sua alma.

Enquanto não chegava sua fatídica hora, o senhor apenas se desesperava com seu corpo inerte, fazendo parecer que para ele não havia mais salvação. Sem a possibilidade de gritar por ajuda, em uma casa enorme, com o som nas alturas, talvez até mesmo um grito não fosse o bastante.

Como em tom de comédia, a qual eu já escutava com a cara de quem escuta uma história de terror, o rapaz contou que em sua família brincavam que mesmo seu tio nunca tendo falado, neste momento que era virado de lado conseguiu dizer: “fudeuuuu”. Chegada a hora derradeira, ele sente que sua calça começa a descer, e percebe que seu destino seria o mesmo que o de Cabeção.

Quando tudo parecia perdido, aparecia o herói do dia, no caso a heroína do dia. A esposa do senhor prestes a ser abusado sexualmente, deu por falta de seu amado, e voltou à sala a sua procura. Ao chegar na sala, se deparou com a cena de seu marido em vias de ser estuprado por aquele grupo de homens. O alivio que nós sentimos ao saber desta intervenção de última hora, pode ser multiplicada a milésima potencia na vida daquele pobre senhor, que já não tinha esperanças de salvação por si só.

            O final da história é pouco conclusivo, pelo menos para mim. Enchi o contador de perguntas a respeito do que aconteceu depois, porém ele só disse que a esposa do senhor fez um escândalo, totalmente justificado, não é?! Salvando assim a integridade anal de seu marido. Mas parecia que o contador tinha poucas informações sobre o pós  do evento traumático.

Mesmo assim, havia mais detalhes que gostaria de saber. O destino dos personagens também não era sabido pelo contador, fazendo ficarem muitas pontas soltas em minha mente: Os homens foram presos? E o pobre Cabeção?

A única informação que o contador me deu, foi de que aquele fora, somente mais um dia na vida de Cabeção, tal era o nível de sua dependência química.

Mas as perguntas ainda pairavam em minha mente em ritmo frenético: E a amiga que os convidou? Ela estava em conluio com estupradores? Para mim a atitude dela soou bem suspeita, mesmo assim, não era sabido se estava envolvida.

Todos estes questionamentos permaneceram sem respostas... Espera! Antes de terminar tem uma informação extra deste acontecimento.

 O casal protagonista deste conto, depois de uns anos do ocorrido se separou. Esta informação acabou deixando a história ainda pior do que já era, pois nem mesmo um ato de salvamento, no momento mais tenebroso da vida daquele senhor, foi capaz de salvar aquele casamento.

Enquanto o contador ria, pensando contar algo de pura comédia, eu permanecia parado, atônito, sem acreditar no absurdo que havia escutado. Confesso que por vários dias me peguei pensando nesta história, horrorizado com a capacidade da maldade humana, imaginando como que teria sido a agonia daquele senhor ensurdecido nos gritos do silêncio.

 

 

            

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O Encontro com o Olhar da Fúria Assassina

Riachin- A Dimensão do Infinito