Riachin- A Dimensão do Infinito
Capítulo
1. Missão Projeto Dimensional
13/07/2012
Homem: Bom dia!
Mulher: Oba! É o Carlos lá de São
Paulo?
Carlos: Isso mesmo, Helena, não é?
Mulher: Não, eu sou a Antônia,
Helena é a minha esposa.
Carlos:
Prazer Antônia, eu falei com ela pra reservar os dias que vou fazer minha
pesquisa.
Antônia:
Pode entrar, a Helena está fazendo um monitoramento, mas daqui a pouco retorna.
Carlos:
Ela explicou o que eu vim fazer?
Antônia:
Entrando você me explica certinho.
Sede
Ong Serrado Vivo
Carlos:
O que é isso?
Antônia:
Tereré. Nunca ouviu falar?
Carlos:
Não, mas parece com chimarrão.
Antônia:
Parece, a diferença é que se toma gelado.
Carlos:
Nossa, amargo que só...
Antônia: hahahah você se acostuma
Antônia:
Me diz, qual seu interesse pelos maluquinhos lá dos Ets?
Carlos:
Olha, não faço parte desta tribo, que fique bem claro.
Antônia:
Bom, assim só de olhar, não dá para perceber, esse povo dos Ets não tem cara,
qualquer um pode ser um crente nessas baboseiras.
Carlos:
Meu interesse não é nada relacionado com alienígenas, isso para mim é mero
detalhe na história que estou buscando...
.
Antônio: Segura um pouco, que Helena acabou de chegar!
Carlos:
Hum?
(Barulho
de carro)
Carlos:
Nossa, que ouvido!
Antônia:
Muito tempo vivendo no silencio faz aguçar nossos sentidos.
Helena:
Oi amor, ah, você deve ser é o Carlos, não é?
Carlos:
O próprio! E você é a Helena que eu tinha conversado, não é?
Helena:
Isso mesmo.
Antônia:
Carlos estava me contando sobre a reportagem que ele está fazendo.
Helena:
Ele me contou um pouco pelo email de reserva, mas ainda não entendi direito seu
interesse lá nos vizinhos.
Carlos:
Pois bem, é difícil mesmo de descrever em por menores só por mensagem, ao vivo
consigo situar vocês com o meu projeto. Vamos lá...Bom, eu sou jornalista e
escritor, sou especializado em reportagens sobre as seitas perigosas. Meu
projeto é catalogar o máximo de seitas brasileiras que puder, e assim, publicar
o livro mais completo já feito sobre o assunto.
Helena:
Hummm... Aquele pessoal pode até ser uma seita mesmo, mas perigosos...
Antônia:
Eles estão mais para gente doidinha mesmo, sabe?
Carlos:
Aí que vocês se enganam. Quase todas as seitas começam assim, com uma galera
buscando um contato com o além, que aos poucos vão trazendo mais e mais
pessoas, todas parecendo estarem entrando direto para o paraíso. Nisso eles vão
se afastando cada vez mais da sociedade. E é neste ponto de total afastamento,
que uma comunidade isolada começa a emitir sinais de que algo muito errado
acontece em seu interior.
Helena:
Sim, algo muito errado acontece lá...
Antônia:
Um monte de gente hipnotizada pelo Saturnir.
Carlos:
Saturnir? Ah lembrei, líder deles, certo?
Helena:
Sim, foi ele que começou com esta maluquice.
Carlos:
Entendo... ele é o líder carismático e messiânico deles.
Antonia:
Sim, messianismo tem muito. Eles dizem que estamos no: “fim dos tempos”!
Carlos:
Todos esses elementos me dizem que pode haver muito perigo neste lugar. A
cidade de Riachin pode estar à mercê de ser dominada pelo poder que esta
comunidade pode se tornar.
Antônia:
Tecnicamente estamos no distrito chamado Tinoco, mas o Projeto está registrado
como que na cidade de Riachin.
Carlos:
Caramba, se aquilo que é cidade é daquele tamanho, o distrito de Tinoco é um...
Desculpem, fala de gente esnobe da cidade grande.
Antônia:
Não precisa se desculpar não, sabemos bem que estamos muito longe da “civilização”.
Helena:
E agradecemos todos os dias por isto, não troco este lugar por nenhuma cidade
grande no mundo.
Antônia:
Se essa nave que eles tanto esperam, realmente aparecer, eu sou a primeira a
entrar para ficar ainda mais longe disso que vocês lá das grandes cidades
classificam como “civilização”.
Carlos:
Eu sou um homem da cidade, meu interesse é nas histórias que esse lugar
distante pode me contar. Sinto que pode haver uma história interessante a se
contar sobre esse...? É tipo um projeto, não é? Projeto...
Helena:
Projeto Dimensão.
Carlos:
Isso! Projeto Dimensão... nominho que combina com charlatanismo. Vocês
conseguem me descrever este “projeto”?
Antônia:
Olha, eles estão aí já tem quase uns dez anos. Começou pequeno, com uma
turminha que vinha acampar fim de semana pra ver “discos voadores”. Aí foi
juntando mais gente, virando um grupo de camping regular na área próxima do
Morro Maior. Depois disso eles se juntaram com uma galera de grana, e começaram
a comprar umas terrinhas pra cá. Cresceu bem rápido os negócios, atualmente
eles já são donos de toda uma grande área na região.
Helena:
Eles já estão independentes em quase tudo. A “cidade” deles tem uma rede de
abastecimento regular. A pessoa não precisa sair de lá para quase nada, só em
casos de saúde mais graves que faz com que quem more lá tenha obrigatoriamente
ter de sair. Parece que nem tudo os Ets curam...
Antônia:
O Projeto Dimensão já estava famosinho aqui na região, foi quando teve a
reportagem lá para o programa de comédia.
Carlos: Eu assisti uma parte só, por acaso, nem
assisto esses programas de comédia. Mas do pouco que eu vi me chamou demais a
atenção..., mas diz aí, vocês não acharam tosco demais aquilo?
Helena:
Muita gente viu aquilo além de nós. Eu, você, a Antônia, é claro...achamos que
aquilo foi uma tremenda idiotice. Mas além da gente, milhões de pessoas podem
ter assistido também. Imagina se uma pequena parte delas acreditar naquele
teatro, que seja cinco por cento daqueles milhões que viram e deram risada... O Saturnir só tem a lucrar às custas do
ridículo.
Helena:
Pode até ser estranho, mas eles tem sido bons vizinhos, algo raro na região. A
maioria dos funcionários é composto por gente aqui da região mesmo. Muitos
foram alunos nossos na Escola Rural de Riachin. Volta e meia um grupo de
Queixadas nosso caí para lá, e eles nos chamam para reconduzi-las para a área
de proteção.
Carlos:
Vocês têm ideia de quantas pessoas estão vivendo lá atualmente?
Helena:
Não posso te passar uma estatística exata, mas te digo que cada vez tem vindo
mais gente. Eu chuto que devem ter por lá pelo menos umas duzentas pessoas com
residência fixa no Projeto.
Antônia:
Fora os visitantes, que enchem o Projeto nos fins de semana. Sei lá, tem final
de semana que tem pelo menos umas quinhentas pessoas.
Carlos:
Caramba, é gente mesmo, hein!?
Helena:
E cada dia aumenta mais...
Carlos:
Vocês acham que podem me levar lá?
Antônia:
Até dá, difícil é conseguir o acesso, eles são muito restritos. Nós nesses anos
todos, devemos ter ido lá umas três vezes no máximo.
Carlos:
Confiem em mim, eu tenho experiência em entrar em lugares assim. Temos que
oferecer algo em troca que seja vantajoso a eles fazerem contato conosco.
Helena:
Se você tiver um artefato alienígena para trocar com eles, quem sabe...
Carlos:
Tenho algo bem atrativo para quem gosta de divulgação gratuita.
Antônia:
O rapaz da cidade é confiante... Vamos tentar, não posso te garantir nada, a
não ser que vamos chegar até a porta, dali pra frente você dá um jeito de
adentrar esta: “Dimensão”!
14/07/2012
A Ong Serrado Vivo se localiza em um local
ermo, incrustado no meio do cerrado central, com mata nativa por quase toda a
extensão de seu território. A sede é um local agradável, charmoso, com uma vibe
natureza total, possuindo bioconstruções em seus chalés, com quase tudo feito a
base de recursos naturais achados na região.
Fiquei surpreso com a informação de que não
estamos em Riachin, conforme o mapa me indicava, mas sim no distrito de Tinoco,
algo que me soou muito estranho, pois a “cidade” de Riachin, nada mais é que um
pequeno povoado habitado por talvez mil almas vivas.
Me dando a liberdade de usar um
clichê, diria que estamos no meio do nada. Nos comunicando através de um sinal
precário de internet da sede da Ong, sem área em quase todo o território que
adentramos. A falta de comunicação com o mundo externo fez com que me sentisse
totalmente isolado, vivendo no mais próximo da natureza que eu experenciei.
Meu sono é normalmente regido pela
cacofonia dos sons do centro urbano, mas aqui, nenhum dos ruídos são
reconhecíveis por mim. É confuso escutar somente a natureza selvagem a minha
volta. Confesso que minha noite não foi das melhores.
Aranhas
são seres que assustam alguém da cidade, não temos intimidade com este
aracnídeo em suas formas mais diversas. No meu quarto habitavam várias delas,
algumas de tamanhos assustadores para mim. No meio da noite pude sentir o
contato mais próximo com a natureza que coabitava meu quarto.
Me
despertei ante ao peso de algo caindo em meu peito. Senti em meio a escuridão o
deslizar do caminhar aracnídeo sobre minha pele. Demorei alguns segundos para
processar o que havia sobre mim, não queria abrir meus olhos, mesmo na
escuridão total, tive pavor de poder enxergar o ser que caminhava sobre mim.
Com um único golpe afastei para bem longe o ser, tentando não conjecturar seu
tamanho ou forma. Apesar deste episódio pontual, posso dizer que o sono em meio
a natureza agiu como um carregador de bateria, deixando o meu nível de energia
recarregado.
Antônia e Helena são o casal que
cuida da pousada e dos trabalhos da Ong. Helena é mais a organizadora, cuida da
parte burocrática e da logística do empreendimento. Antônia é uma típica
bióloga do mato, quase sempre envolvida em atividades no campo, ela que iria me
guiar nesta missão, pois Helena teria de ficar por conta dos trabalhos da Ong.
Começamos nossa jornada não eram nem
cinco da manhã. Saímos com o sol nascendo. Nosso veículo foi uma Bandeirantes,
pick-up dos anos 1970, que mais parece um tanque de guerra, tal sua capacidade
de manter-se estável em qualquer tipo de terreno. Seguimos por uma estrada de
terra, estávamos cada vez mais distante da civilização conforme avançávamos.
O sol se colocava mais alto no céu,
e tudo que eu via era mato, espaçados por campos abertos, usados por
pecuaristas locais para a cultura bovina da região, principal atividade
econômica local. Até que, avistamos na estrada uma pequena tenda.
Antônia indicou que deveríamos parar
para comprar alguma coisa para comermos quando chegássemos ao nosso destino. A
razão era que aos preços dos alimentos eram exorbitantes, e pagos na moeda
local, o Platinus.
Estive ao longo da vida em muitos
destes comércios locais de pequenas comunidades, no qual algum sertanejo vende
os poucos produtos que consegue trazer da cidade. Mas este comércio foi o mais
diferente que estive em toda minha vida.
Quando desci do carro, o som que
vinha de dentro do comércio não rimava em nada com que havia escutado desde que
me embrenhei por este interior isolado do Brasil. Meus ouvidos demoraram a
processar a musicalidade do Blues clássico, que advinha daquela pequena
quitanda a beira da estrada. Eu reconheci a música que tocava, “My Baby” do
cantor Kittle Walter. Como sei isto? Fiz uma vez uma matéria sobre a cena cult
do Blues na cidade de São Paulo. Acharia muito difícil um habitante daquela
localidade apreciar aquele tipo de música. Isto me pareceu um sinal de que
havia uma espécie “colonização” da região.
Ao entrar na quitanda, não encontrei
os típicos traços sertanejos que havia visto desde que chegara. O dono da venda
era um adulto de meia idade, branco, de cabelos lisos esbranquiçados, e barba
por crescer. Seu linguajar e sotaque em nada se assemelha com o dialeto local. O
homem tinha um léxico de palavras que somente alguém originário da cidade, e
com instrução formal, poderia dominar.
Vi que havia um aparelho de som
antigo, e a música vinha de um tipo de tecnologia obsoleta, uma fita cassete.
Fiquei curioso com a música, poderia conversar bastante com aquele cara sobre
Blues, já que sabia algo sobre o tema, mas não perguntei nada, apenas observei
uma pequena coleção de fitas que estavam espalhadas na mesa em volta do som.
O dono da venda me passava a
impressão de ser alguém que eu poderia cruzar na portaria do meu prédio em São
Paulo, ou que encontraria dentro de um consultório médico. O que aquele sujeito
estaria fazendo naquele fim de mundo? Vivendo de forma simples como a cultura
que o circunda.
Não pude perguntar muita coisa, eu
pareceria suspeito de estar coletando informações. Apenas me contive, e travei
um diálogo ordinário, e guardei para mim toda a curiosidade que tive sobre
aquele cara com jeito e rosto de gente da cidade, “perdido” escutando Blues no
meio do nada.
Seguimos viagem para os domínios em
que se encontrava o Projeto Dimensional. Na passagem, uma porteira bem
ornamentada indicava haver um sítio de extensão média para os padrões dos
latifúndios locais. Antônia me contou que ali morava uma das fundadoras do
Projeto, mas que havia se desentendido com o líder e se desligado da
comunidade. Seu nome é Inara, ex sócia de Saturnir, o líder do Projeto
Dimensional. Segundo Antônia, Inara tinha uma visão mais “séria” da Ufologia,
algo que me soa engraçado de pensar. Ela tinha um plano da montagem de um
centro de estudos, o que contrastou com o desejo de ganho financeiro do seu
sócio.
Mesmo com este aspecto de seriedade,
Inara parece também comungar desta vertente mística da Ufologia, inclusive em
sua propriedade possuí uma pista de voo, na qual pousam aviões particulares, trazendo
magnatas até de fora do país, vindo em busca dos conselhos de Inara. Parece que
todo este esforço é por conta da sabedoria advinda do contato que ela diz ter
com os extraterrestres. A impressão que me deu foi que, na verdade, havia ali somente
dois picaretas que se desentenderam por conta de poder.
A partir do fim da sociedade, Saturnir
para ofender sua ex sócia, contou uma história que ficou famosa na região.
Saturnir disse que nas dependências do projeto havia uma criança alienígena,
que entrou em contato com ele, somente com ele. Esse ser era chamado de Lulu,
conhecido popularmente como Et Lulu. Pois bem, Lulu era o nome do falecido
cachorro de Inara, o qual ela tinha muito apego. O nome do jovem “Et”na verdade
era uma afronta a ela. Mas só passamos
pelo Centro de Inara, não paramos, pois não via potencial em uma vidente das
estrelas, mesmo assim, achei interessante a história dela.
Subimos uma espécie de serra, e
quando chegamos ao seu ponto mais alto que me veio a surpresa. Mais a baixo,
era possível enxergar um aglomerado de construções que destoava do cenário
rural. Havia um número considerável de casas, das quais ao longe pude notar uma
arquitetura nada usual. Continuamos pela estrada rumo a entrada da “cidade”.
Chegamos em uma espécie de posto de
guarda. Paramos a Bandeirantes e esperamos uma dupla de “guardas” virem
conferir nossas identificações. Neste momento montei meu disfarce.
Guarda:
Tarde, opa Dona Antônia!
Antônia:
Boa tarde Joca! Eu estou aqui com meu amigo de São Paulo, o Carlos, ele está
hospedado na Ong para realizar uma pesquisa.
Carlos:
Boa tarde rapaziada! Eu sou pesquisador, faço espeleologia, sabem o que é?
Guardas:
... (fitam Carlos sem dizer nada)
Carlos:
Imaginei... Eu pesquiso cavernas, e estou aqui na região pesquisando as
cavernas do planalto, e ouvi dizer que a caverna que tem no Projeto é algo
fabuloso.
Guarda:
Humm.... Tenho que ver lá com a direção.
Carlos:
Pode ligar lá tranquilo, não estamos com pressa.
Os guardas se comunicavam por Walk
Tokies com a central. Ficamos um período de quase uma hora aguardando a
liberação. De tempos em tempos alguns gerentes do Projeto vinham questionar
nossas intenções. Fui convincente em meu disfarce, prometendo a eles um lugar
de destaque no livro que estava montando com as melhores fotos de cavernas do
Brasil. Nada como uma chance de aparecer pra convencer.
Durante este interim de autorização,
chegou um enorme caminhão de mudança. Escutei os guardas comentando que era a
mudança da doutora alguma coisa, não consegui escutar direito o nome dela. Pelo
que me parece, esta “doutora”, havia desistido de sua atividade na cidade, para
vir de mala e cuia morar no meio do nada, ainda por cima em uma comunidade de
ufologia mística. Realmente eles tinham uma capacidade ímpar de convencimento
do público.
Conseguimos, finalmente, a
autorização para adentrar as dependências do Projeto Dimensional. Conforme
nosso veículo progredia por dentre as dependências da fazenda, eu ficava
impressionado com aquilo que meus olhos viam.
O
cenário foi se transformando do costumas paragens rurais. A extensão do terreno
era tomada por casas de alvenaria em formato de iglu. Aquelas edificações exóticas formavam um
vilarejo. Não só haviam as casas em formato de iglu, também haviam outros
prédios com inspirações futurísticas, que pareciam ter saído de um filme de
ficção cientifica da década de 1970. Era um pequeno povoado, uma autentica sociedade
semi-fechada! Fiquei empolgado ao me defrontar com este lugar.
Ao longo do trajeto questionei o
porquê do formato exótico das construções, seria informado por nosso guia a
posteriori, de que as casas tinham aquele formato, porque anatomicamente aquele
é um edifício mais capaz de resistir a um cataclisma, cataclisma este, que eles
aguardam ansiosamente. Por em quanto aquele povoado vai se precavendo, e
confiando em uma salvação por meio da proteção alienígena. Não parava por aí,
tinha mais....
Na região central da comunidade,
estava em construção um grande telescópio. Segundo nossos guias nos informaram,
não seria o telescópio mais potente do brasil, mas ficaroa bem ranqueado quando
comparado aos melhores. Passamos também pelas fundações do que no futuro iria
formar uma pirâmide, que segundo eles, teria as dimensões reduzidas da Piramide
de Gizé no Egito. Esse fascínio por um passado que não é o do nosso país tem um
porquê.
As
edificações arqueológicas que inspiram o local, na verdade seriam obras
arquitetônicas que não são produtos da genialidade humana, recebendo influência
do que eles chamam de “Antigos Astronautas”. Esqueça tudo que você sabe sobre
história, para essa gente foram os alienígenas que fizeram tudo...
A
Pirâmide quando terminada, seria uma fonte própria de produção de energia,
função esta que, na teoria deles, fora a função das Pirâmides no passado. Me
sentia passando pela construção de um futuro parque de diversões, pensei até em
alguns nomes: Mistérios Alienígenas, Alien e Diversões, Mundo dos Ets, Ufo
Dimension Park, Et Lulu Parks...
Chegamos
finalmente à sede do Projeto. Estávamos não só entrando em uma fazenda, mas sim
na “cidade” de Gizelis. A megalomania faz com que quem lá adentra ,pense estar
em adentrando uma outra sociedade, que esta fora da sociedade comum. A
suntuosidade da estrutura do projeto me fez perceber a real dimensão daquele
culto aos extraterrestres.
No momento que me desci do carro e
me deparei com o lugar, me senti como em um grande clube desses de classe média
alta paulistana, certa vez fiz uma investigação sobre estes clubes. Como via no
estacionamento do clubes, haviam carros com placas de diversos lugares do país,
a maioria de alto padrão, os quais eram as locomoções que levaram centenas de
pessoas para aquele lugar esmo.
Em
um dia ensolarado, eu via centenas de pessoas explorando as maravilhas do
local. Haviam muitas crianças correndo e se divertindo, tal como em um clube
mesmo, contrastando com adultos e idosos, que se vestindo como em uma colónia
de férias, pareciam turistas maravilhados com o local que visitavam.
Havia um comércio grande de souvenires,
pelo menos assim que eu enxerguei o emaranhado de ferros retorcidos, os quais
eram vendidos a altos preços para aos turistas ufológicos. Isso me arremeteu a
de cenas de um filme que eu assisti quando mais jovem, em que se retratava o
Vaticano na idade média. No filme a praça do Vaticano era tomada de vendedores,
que ofereciam todo tipo de artefato com a propaganda de ser sagrado, e de
origem direta dos tempos de Cristo.
Aqueles
vendedores do Projeto Dimensional pareciam os vendedores do filme, tentando
vender bugigangas para fiéis, que colocavam as mãos no bolso cegos pela
ganancia de possuir qualquer coisa que seja além de um produto da mente humana,
tais como os devotos compradores do filme.
Nosso guia nos recebeu na sede, e
prometeu me mostrar as dependências do Projeto. Ele era um senhor de meia
idade, com cabelos brancos aonde a calvície ainda não tomou conta. Seu sotaque
carregado, entregava sua origem fluminense. Ele me passou a impressão de ser um
típico malandro carioca, e que achou ali uma mina de ouro de trambique.
Nós que parecíamos os alienígenas
que eles vieram procurar. As pessoas conseguiam notar que não estávamos ali com
os mesmos propósitos deles, pois não tínhamos o olhar enfeitiçado que eles
todos possuíam. Era incrível notar a credulidade das pessoas naquelas
quinquilharias retorcidas, em como realmente eles acreditavam estar em contato
com algo vindo de fora do planeta.
Íamos avançando, e aquela historieta
parecia cada vez menos crível. Tudo naquele espaço parecia fabricado e
preparado para criar a ilusão de um local misterioso e singular. Um teatro
muito mal escrito, produzido e executado, com participação de atores de quinta
categoria, todos representando pifiamente seus papéis dentro daquela fábula
extraterrena. Mesmo assim, o público parecia enfeitiçado e maravilhado com o
que viam, como que assistindo uma peça em que um ator é puxado aos céus por uma
corda, a qual eles viam a corda, e mesmo assim, continuavam acreditando que
realmente o ator está voando ao infinito.
Um destaque singular foi a
explicação que me deram de que ali a tecnologia era avançada, pois eles estavam
em contato direto com “eles”, assim me disse nosso guia olhando para os céus.
Fiquei intrigado com essa tal “tecnologia” advinda do céu, que se quer consegue
mandar algo melhor que um Walktalkie para a comunicação interna dos
funcionários...
Havia uma estratificação dos
residentes, tendo os que possuem seu “iglu” próprio, e aqueles que residem em
alojamentos coletivos. Os alojamentos me pareceram uma cópia fiel a aqueles que
vemos nas fotos dos campos de concentração nazistas da Segunda Guerra Mundial,
com beliches dispostas lado a lado por todo espaço. Vi inclusive um idoso, com
traços fortes de estar em avançado estado senil, sendo enxotado por um
funcionário ao pedir comida, dizendo que ele não tinha “Platinus” o
bastante ainda, demonstrando que os Ets não haviam mandado para eles a justiça
social.
Aquele teatro era patético, mesmo
assim, parecia convencer aquela multidão de pessoas em seu turismo ufológico.
Percebi também várias mulheres muito novas, acompanhando senhores de mais
idade, que exalavam seu alto poder aquisitivo. As mulheres destoavam dos demais
turistas, parecendo não crer no teatro, mas sim estarem sendo paga o bastante
para tolerar toda aquela baboseira. Este sinal me deixou com a impressão de
haver ali também atividades de natureza sexualizada.
O dia foi cansativo, e depois que
minha curiosidade foi se dissipando, percebi que não teria folego para explorar
ainda mais daquele espetáculo pífio. E a grande caverna que eles tinham... Nada
mais que um buraco na rocha, claramente obra de mãos humanas, que devem terem
feito através de explosivos, mais uma vez, nada de tecnologia alienígena
avançada, só o bom e velho, TNT.
O
líder e presidente do Projeto, Saturnir, tem o controle da comunidade através
de uma promessa de receber presságios advindos do contato místico seu com os
extraterrestres.E vê-lo por lá, só em ocasiões especiais. Saturnir é
considerado a “estrela” do local, e seus poderes são incontáveis, o
transformando em uma espécie de ídolo semi deus, o qual atingiu a iluminação
por meio dos extraterrestres.
A seita, que baseado em tudo que eu vi, eu
poderia assim classifica-la como tal, tem muitos cumplices trabalhando em seu
sistema de estelionato ufológico. O teatro montado por Saturnir se tornou uma
atração turística local, movimentando a economia daqueles pequenos povoados ao
seu redor. Então, toda a comunidade se esforça em não atrapalhar o Projeto,
visto que ele gera emprego e renda para a região.
Dentro desta exploração financeira
da crença, existe sim um núcleo que funciona em forma de uma seita mística. Mas
me parece que as lideranças apenas exploram os ganhos financeiros deles, não
aprofundando em um controle mais espiritualizado da devoção de seus membros.
Percebi rápido as nefastas intenções
daquela gente, e preferi ir embora. Não gostaria de ver o espetáculo noturno,
que segundo Antônia, se trata de jogos de luzes vindos do meio da mata, e uma
vozinha infantilizada saindo de um alto falante, anunciando que havia chegado o
ET: Lulu, que sempre vinha para deixar um recado para os terráqueos: “Procurem
sabedoria!”.
Assim encerro o caso desta
comunidade místico ufológica, que explora hipnotizados ricos, para deixarem uma
fortuna com um líder que se diz capaz de contactar os extraterrestres. Muita
armação e falcatrua, com gente enganando, e gente querendo ser enganada.
Carlos: Bom, senhoras, acho que
consegui o material que precisava. Por tanto, não precisarei retornar mais um
dia para lá.
Helena: Um dia no meio daquela
loucura já é muito tempo. Você percebeu o tanto de armação que é?
Carlos: Demais... mesmo assim, eu esperava
encontrar algo mais perigoso, sabe? Uma seita em que seus membros estão
realmente em perigo extremo por conta do controle ao qual estão submetidos, mas
aquilo lá, ficou claro que é só enganação pra gente rica e sem nada o que
fazer...
Antonia: Então você vai voltar antes
para São Paulo?
Carlos: Gostaria, mas não posso...
Meu voo está marcado só para segunda.
Helena: E o que pretende fazer até
lá? Monitorar Queixadas? Hahahahah
Carlos: hahahhah não, não... Pensei
em aproveitar a paz que reina por aqui para organizar meus textos e tal...
Helena: Estava pensando aqui, já que
está com tempo sobrando, saiba que tem mais um “point” sobre Ets na região, mas
este é pouco conhecido.
Carlos: Chega de Ets por enquanto...
meu trabalho é sobre seitas, realmente não acredito nessas histórias.
Helena: É, como você viu, nenhuma de
nós acredita também, mas, a personagem que vou lhe indicar pode ser
interessante, no carro você me disse que persegue novas histórias e
personagens, esta pode lhe interessar.
Carlos: Hummm. Comecei a gostar da
sugestão. Você me pegou nesse argumento. Vamos lá, me diga, sou todo ouvido
para este “point”, o que tem de tão interessante lá?
Helena: Lá mora a origem destas
lendas sobre Ets. Dizem que em um casebre, quase no limite entre o Planalto e o
Pantanal, mora uma velhinha esquisita. Foi a partir dos relatos dela que começaram
os falatórios sobre ovnis na região. Eu nunca a vi, mas me falaram que ela é
uma velhinha benzedeira. Ninguém sabe quantos anos ela tem, só sei que até os
mais velhos da cidade diziam não a ter conhecido em sua juventude.
Carlos: Uma velha tão velha que
ninguém sabe quantos anos tem... está começando a ficar interessante.
Helena: No passado, diziam que ela
era “encantada”, que tinha poderes espirituais. Aí depois de um tempo, ela
passou a ser vista como uma espécie de “alienígena”, havendo algo de outro
mundo no lugar que ela reside, e que até onde sei, ela nunca saiu.
Carlos: Gostei da história da
velhinha que ninguém sabe a idade, e que é uma espécie de curandeira mística.
Me parece que ela pode ser um tempero no capítulo desta seita. É muito longe daqui?
Antônia: Eu cheguei lá perto uma
vez, leva um bom tempo, se sairmos bem cedo, mesmo assim é capaz que retornemos
para cá só de noite.
Carlos: Você tem medo da noite?
Antônia: hahahaha se tivesse, teria desistido de ser bióloga no primeiro
dia.
Carlos: Não digo dos bichos,
pergunto se tem medo dos Aliens?
....
HAHAHHAAHHAHAHHAHAH
Antônia: Combinado, pois até eu estou curiosa com esta história.
Capítulo
2. Os Olhos do Infinito
OBA!!!! OH DE CASA!
Carlos: Não parece morar ninguém
nesse casebre há anos, as vezes esta velhinha até já morreu e ninguém ficou
sabendo...
Antonia: Pode ser mesmo... que pena,
andamos tão longe atoa.
Carlos: Morar nesse fim de mundo
também... acho que nunca estive tão longe de civilização...
Ohhhiiii
...
Antônia: A... Desculpe dona... é que
estamos procurando a benzedera.
Sou eu mesmo mise fi, sou ieu a
benzedera daqui.
Antonia: Dona?
Alzira, senhora.
Antonia: Dona Alzira, prazer! E esse
aqui é meu amigo...
Carlos: Boa tarde dona Alzira!
Ceis pode entra, tá muito sol aqui
fora, ceis vum fica anuviado.
Dona Alzira: O moço que tira um
retrato meu?
Carlos (Com sua máquina na mão na
altura dos olhos): Uhhh desculpe, não pensei que a senhora enxergasse?!
Dona Alzira: Enxergo tudo fi, até
muito longe ieu consigo vê. Seis num tem ideia.
Carlos: É que a senhora tem os olhos
de uma cor que eu nunca vi na vida, foi por isso que precisava fotografar.
Dona Alzira: Fico assim despois das
luz.
Carlos: Luz? Que tipo de luz?
Dona Alzira: Despois que ieu e meu
pai vimo aquilo, nossos oio fico nessas cor.
Carlos: Desculpe a indelicadeza da
pergunta...
Dona Alzira: Indeli...o que?
Carlos: É... deixa pra lá... só
gostaria de saber quantos anos a senhora tem?
Antonia (sussurrando): Credo Carlos...
Carlos (sussurrando): Vamos só mais
direto ao assunto...
Dona Alzira: Ceis pode fala normar
mesmo, ieu consigo escuta é tudim ainda.
Carlos: A senhora escutou o que
conversávamos?
Dona Alzira: Oh se escuto... Despois
das luz ieu consegui escuta tudim bem arto assim, quarquer barulho eu e meu pai
nóis escutava.
Carlos: Estou curioso a respeito da
idade da senhora.
Dona Alzira: O senhó me descurpa,
mais ieu num sei conta essas coisa.
Carlos: Sabe pelo menos quanto tempo
que a senhora mora aqui nesta casa?
Dona Alzira: Ieu nasci bem aqui, aí
onde ceis tão foi onde minha mãe pariu. Ieu num sei o que é essas conta que
oceis faiz. Só lembro de sabe conta essas coisa antes das luz, despois nunca
mais sube conta.
Carlos: A senhora pode me falar sobre
essas “luzes”?
Dona Alzira: Craro seu moço, parece
que ieu pro cê arguma veiz já isso... ma num sei quando foi, parece que foi faiz
tempo, sabe? ma tambeim num sei se foi agora... Ieu só sei, que despois das luz
não deu mais di sabe... Ma quando ieu conto,ieu alembro de tudim, parece inté
que foi onti que acunteceu. Cumeço assim... Tava ieu mais meu pai nu cavalo, nóis vinha vortando da cidade, acho
que foi a urtima vez que nóis foi lá, ma não sei se foi só a primera... Despois
das luz, ieu num sei mais... Meu pai que viu a bola de fogo, fazia uns dia que
elas aparecia pro pai. Aí o cavalo curreu, nóis tava ino com as bola de fogo,
tinha um monte delas ino. O cavalo curria, curria, curria... aí ele paro de
curre. Meu pai firco lá paradu, tava tudo paradu, nada mixia, as foia tavu tudo
parada, o poerão tudo sem si mexe. Ieu oiava tudo, ma ieu tava parada também.
Aí foi que nois caiu tudo, foi saindo assim oh (fazendo gestos de água caindo) Era
tudo chein di cor... aí isticava e incolia nóis. Nóis fico lá rodando, iscorria
que nem água nóis... nóis nascia de dia e murria de noite, um monte de veiz, as
veiz murria de noite e nascia de dia, fazendo assim um monte de veiz... Ieu
lembrava de quando acomeço, mas ficou indo e vindo tantas veiz, que ieu num sei
mais quantu tempo nóis fico lá, num dá mais pra saber... Mais aí quandu achemo
qui num ia acaba, nóis vortemo. Mar vortemo mais ou menos desse jeito, nóis num
sabia mais direito das coisa.
Carlos: E o seu pai, como ele voltou?
Dona Alzira: O pai paro cum tudo, a
mãe tinha murrido, aí meus irmão foi tudo lá pra cidade, o pai num tavu mais cum
nóis, ele tava aqui , ma num tavu mais... Ieu vortei um poco, o pai num vorto
muito. Aí um dia o pai deito na grama, e fico oiando pro céu... O pai ficava
dia e ficava noite lá deitado, só oiando pra cima. E ieu vi bem o dia que o pai sumiu... O pai
tavu lá oiando, e cumeço a vira puera, e foi ino tudim embora no vento. foi
sumino, sumino, e sumino... Lá adonde o pai viro puera ainda tá marcado, num
creceu mais mato nunca mais. Só num sei isso faiz tempo, ou se foi agora,
despois que vortei, acho que num sei direito essas coisa.
Carlos: A luzes chegaram a voltar?
Dona Alzira: Vorta as veis, dá pra
escuta a veis. Ieu nunca mais vortei lá pra vê, fico só dentro di casa orando
pra num me leva mais. Acho que num dá pra vê mais não, mais eu num vo lá onde
tinha as luz, num quis mais vorta lá não!
Carlos: A Senhora nunca saiu dessa
chácara?
Dona Alzira: Despois das luz num dá
mais pra sai... Ocê num vorto pra pude sai... tá aqui e nos outro lugar tudo. É
tanto lugar meu fi, que num dá pra sabe onde que oce fica.
Carlos: Bom Dona Alzira, eu acho que
é isso...
Dona Alzira: Ah, mas oceis tem que
vê o que as luz deixo pra vorta com nóis. Peraque ieu vo lá dentro pega pro
ceis dá uma oiada.
Carlos: Cara... Essa velhinha é
assustadora, ela realmente parece de outro mundo.
Antônia: Até eu tô meio assustada,
melhor a gente já ir indo embora. A velhinha mostra a buginganga dela e vamos
vazar.
Dona Alzira: Ta aqui na caxa que o
pai dexo. Na caxa da pra pega isso qui saiu de nóis despois que vorto, mais as
veiz num dá pra pega na mão. Num sei se ôceis vão cunsigui pega.
Carlos: Posso tentar?
Dona Alzira: Pega fi...
Carlos: Hum, foi simples de pagar
até... Bom, me parece uma espécie de polígono de pedra ou aço... sei lá, parece
que é feito das duas coisas ao mesmo tempo... Pera aí, está começando a ficar
mais pesada parece... pesando mais e mais na minha mão...PORRA!! ESTÁ ESMAGANDO
MINHA MÃO!!!!
Antonia: LARGA CARLOS! LARGA CARLOS,
VAI QUEBRAR SEU BRAÇO!!!
Carlos: Ahhhhhh....EU não consigo...
ra, ra, ra, ra...
PAFTTTTT!!!!
Carlos:
Ah, ah, ah... ISSO... quase quebrou meu BRAÇO!
Dona Alzira: As veiz fica pesado
assim fi, por isso num dá pra tira da caxa.
Carlos: DE ONDE A SENHORA PEGOU
ISSO?
Dona Alzira: Vorto com nóis isso, saiu
de dentro de nóis. Dueu muito pra sai, fi...
Carlos: Dona... muito obrigado por
nos receber, mas é melhor irmos, está tarde...
Antonia: É, temos que ir Dona
Alzira.
Dona Alzira: É bom oceis benze antes
de ir, as luz pode tá vinu, quando fica pesado o negócio da caxa, é quando ieu
escuto o barulho das luz. faiz tempo que
num tem luz, mais as veiz pode ser que foi agora que elas tavu aqui... num
consigui mais saber despois das luz...
Pick Up Bandeirantes: 22:40 da noite
Carlos: Antônia do céu! Que viagem
essa velhinha... VOCÊ VIU OS OLHOS DELA?
Antonia: CARALHO!!! Olha, eu já
tinha ouvido falar dela, mas assim ao vivo, é muito mais assustador que
qualquer coisa que eu já tenha visto na vida! Te Juro, eu não tenho em minha
vida nada mais assustador que aquela velhinha. PUTA QUE PARIU! Que olhos eram
aqueles?
Carlos: Cara... ninguém no mundo tem
os olhos daquela cor.
Antônia: Não mesmo, nunca vi, nunca
vi... Nem em revista, filme ou na internet... EM PORRA DE LUGAR NENHUM EU VI UM
OLHO DAQUELE! Era uma mistura de cores...
Carlos: E aquela esfera? Eu te juro,
aquilo quase quebrou minha mão, é sério...
Antônia: Eu vi aquele troço
retorcendo o seu braço, parecia que você estava sendo possuído... Muito
doido... enfim, uma loucura.. Uma coisa bizarra, CARALHO! Aquela coisinha
estava torcendo sua mão toda Carlos...
Carlos: Nem sei por onde vou começar
a escrever iss...
Antônia: AÍ MERDA!
Carlos: O QUE FOI?
Antonia: Tem um grupo de Queixadas perdidas
lá embaixo.
Carlos: QUE SUSTO, Caralho...
Antônio: Achou que eram as luzes,
não é? hahahaha
Carlos: Porra, ainda estou
processando o susto da casa da velhinha. E como você sabe que tem uma Queixada
ali embaixo?
Antonia: “Eles” me avisam hahahah...
deixando a piada de lado, é que apita aqui pra gente o gps que implantamos
junto com os colares que alguns animais carregam. Quando acontece isso, eu vou lá
e mudo a rota do bando.
Carlos: E o que eu posso fazer para
ajudar?
Antonia: Me espera aqui no carro que
já está de bom tamanho.
Carlos: Tá bom... Não sabe o biólogo
que está perdendo...
Antonia: Fica aqui, vai que as “Luz”
aparece “pro cê, misi fi”.
Carlos: Brinca, vai... você viu o
que aquela velhinha mostrou, não era desse mundo... quando “as luz” te pegar”, vai
ser eu que vou é correr longe!
Carlos: Cara, o céu é lindo visto aqui da
mata. Somos tão pequenininhos nesse univer... O que é isso? Estranho... Esta naquele morro? Estou começando a ficar cabreiro... QUE PORRA É ESSA?! ANTONIA!
ANTONIA! ANTOooo...
Capitulo 3. Dimensão Desconhecida
Carlos
Augusto Fertiolari, São Paulo, ??/??/??
Escrevo este
relato como forma de não deixar que minha experiencia seja esquecida. Não sei
quanto tempo aguento mais, mas não iria partir sem deixar registrado sobre o
que aconteceu comigo depois da minha fatídica visita aos domínios de Riachin.
Minha missão era ir atrás de seitas, mas eu não pude continuar mais. Depois
daquilo, não dava para continuar nada...
Vou começar pelo momento em que tudo
aconteceu:
No escuro da mata, só iluminada
pelas luzes do farol de nosso carro, eu esperava minha guia naquela aventura, Antônia,
retornar. Ela havia ido para o mato, e parecia ter se afastado muito do nosso
veículo. Não sentia mais sua presença, ela parecia realmente estar distante. Eu
desci do veículo, acendi um cigarro, e apreciava a imensidão do céu noturno. De
repente, eu avistei algo muito estranho no céu.
Eram várias luzes em formato de
esferas, que vinham de todos os lados, perfazendo um show iluminado no escuro
da noite. Meu corpo simplesmente estava paralisado ante aquele espetáculo do
desconhecido. Não sabia se estava apreciando ou apavorado, não conseguia processar o que meus olhos viam.
Será que eu estava realmente presenciando aquilo? Ou será que estaria sonhando?
Eu estava vivo? E foi quando o vento parou.
O vento não só parou, pareceu que o
mundo havia sido desligado. Tudo estava paralisado, o tempo não mais andava.
Quando aquilo começou, foi que consegui compreender o que me dizia aquela
velhinha estranha horas antes.
Aquela simples sertaneja não tinha
conhecimento e vocabulário o bastante para conseguir expressar com detalhes o
que aconteceu com ela. Talvez eu consiga descrever detalhando os pormenores do
que vivemos, visto que agora eu e ela compartilhamos a mesma experiencia.
O mundo ficou parado, nada se movia,
o tempo tinha realmente sido paralisado. Só uma coisa se mexia, as luzes. Eu
conseguia ver o conjunto de luzes das mais brilhantes que havia visto na vida.
Eram esferas de todas as cores que conhecia, misturando-se, fazendo nascerem
cores que nunca havia visto antes, até que, de uma só vez, todas se apagaram,
sem deixar quaisquer rastros de sua presença. Neste momento que as coisas
pioraram.
Não dá para saber ao certo aonde
estava, mas só sei que eu estava lá. Não era necessariamente um lugar, pois eu
podia sentir meu corpo ainda preso ao chão no ponto em que se paralisou. Mas eu
não estava somente ali, foi como se meu corpo fosse dividido em várias partes,
e lançado infinitamente para diferentes direções.
Eu estava transitado entre milhões
de lugares distintos, unindo: futuro, passado e presente em uma mesma fração,
tudo isto girando no espaço sem direção definida. Em alguns dos lugares que eu
estava, o tempo corria como uma flecha sendo lançada, já em outros lugares que
estive, o tempo passou tão devagar, que milênios não foram o bastante para que
de lá eu saísse. Como a velhinha disse, você nasce e morre.
Em um ciclo continuo. Eu nascia,
crescia e morria em questão de horas, as vezes minutos, as vezes décadas, as
vezes séculos, milênios... Nestas dimensões o tempo perde a razão de ser. E em
outros pontos eu fazia o contrário: morria, diminuía e depois nascia. Tudo
acontecia de trás pra frente e de frente pra trás, como se fossem o tempo e
espaço batidos e misturados dentro de um liquidificador dimensional.
Toda a síntese da experiencia humana
passava em uma torrente animalesca. Por vezes não dava tempo pra sentir dor, mas
em outros lugares que ficava, sobrava muito tempo, tanto tempo, que a dor não
era sentida mais, pois ela havia se fundido diretamente ao tempo.
A confusão que me encontrava era tamanha, que
esqueci de que substancia sou feito. Parecia que eu havia sido feito de tantos
elementos diferentes, mas mesmo assim, não havia um só elemento que comprovasse
minha existência como matéria.
Os sons que escutava por onde era
arremessado, sugado, ou simplesmente teletransportado, eram de todos os tons,
volumes e pressão. Se escutava por tanto tempo certos sons, que parecia que
rítmica do pensamento era o próprio som. Por vezes, o silencio que se fazia, me
fez pensar que eu nunca havia escutado nenhum som na vida. Os barulhos se
cruzavam todos, perfazendo a maior cacofonia que um ser pode reconhecer em seu
aparelho auditivo.
Como disse, não dá pra saber quanto
tempo se passou, mas em algum momento parte de mim retornou. Diria que uma boa
parte conseguiu retornar, mas que ainda assim, não estão todas por aqui. O meu
eu, parece ter se dividido em vários, se espalhando por dentre tantos lugares,
que se quer sei em qual realmente eu estou com minha exata consciência...
acredito que pouco de mim restou por aqui.
Quando abri os olhos, não conseguia
temporizar quanto tempo se passou. Acredito que tinha se passado alguns
milésimos de segundo nesta dimensão. Com os olhos sentindo esta dimensão, parte
de mim reconheceu o mundo que me arrodeava. Mas diferentes partes de minha
consciência passaram a não reconhecer por completo qualquer coisa que vi desde
então
Eu olhava a noite, sem entender o
que realmente estava acontecendo. Sabia que algo havia acontecido, mas não
tinha noção se fora realidade ou um sonho vivido. Só sei que estava lá, parte
de mim pelo menos, assim imagino, não dá pra saber...
Quando percebi, não sei quanto tempo
depois daquilo, sei lá, não dá mais pra quantificar o tempo... foi que avistei Antônia
saindo de dentro da imensidão da mata noturna. Quando nos entreolhamos, em um
primeiro momento, não expressamos nada, só no olhar eu sabia de onde ela, ou
pelo menos parte dela, havia vindo.
Não sabíamos exatamente para onde ir.
Tudo que fizemos foi automático, pelo menos por parte de nossa consciência. Nós
entramos no veículo e saímos dali. Fomos o caminho todo em silencio, na
verdade, eu acho que pouca parte dela retornou, então, não havia com quem
falar. Retornamos, mas acho que nunca mais saímos daquele lugar que estávamos.
Eu fui embora de Riachin, nem me
lembro em que circunstância. Eu voltei para o centro urbano, que é meu
ecossistema nativo. Mesmo nele, eu não parecia estar mais ali. Tudo estava fora
do lugar, nada realmente existia naquele cenário. Para mim era tudo só uma
camada do que existia, eu tinha certeza disto. Não havia porque me importar
tanto com uma mísera dimensão dentre as infinitas que existem.
Com o passar dos dias, meus olhos
foram se colorindo, ganhando novas cores e tons em sua íris. Eu sabia que
estava desconectado da realidade, algo que antes das luzes, parecia ser tudo
que havia. Eu não estava mais aqui, mas também não estava em outro lugar. É como
tivessem dois espelhos de fronte um ao outro, refletindo em si uma infinitude
de reflexos de si mesmos, e em todos estes reflexos existisse toda uma dimensão
diferente uma da outra.
Uma protuberância na minha coxa
parecia anunciar que por baixo da minha pele algo apontava querendo sair. Por
uma fração de tempo bem longa, a dor daquela coisa rasgando a minha pele, era a
única coisa que me fazia saber que ainda estava vivo.
Durante
noites seguidas algo foi saindo da minha perna, quase que brotando de meu corpo.
Quando por fim, consegui ver e ter nas mãos o que antes habitava meu corpo. Me
deparei com o mesmo objeto que a velhinha me mostrou na casa dela.
Definitivamente o que aconteceu com ela, havia acontecido comigo.
Meu mundo foi parando, pelo menos
aquele do qual eu havia vindo há um tempo que nem me lembro mais. Não parecia
realmente que havia algo para mim aqui. Esta dimensão era acinzentada, parte de
uma dimensão apenas, que nem é das melhores, diga-se de passagem, mas que nem
tão pouco é das piores... Aqui é apenas isso, uma dimensão somente...
Me restava tentar entender o que se
sabe nesta dimensão sobre as outras dimensões. Só havia duas pessoas que
saberiam, uma era a velhinha das luzes, Dona Alzira. Mas ela era uma testemunha
que havia saído desta dimensão ainda criança, e cresceu por dentre dimensões,
não conseguindo assim configurar nesta dimensão o que aprendeu. Havia outra
além dela, Antônia.
Alô, Helena?
Sim,
sou eu.
Estou
tentando falar com a Anto...
Helena: Quem é?
Carlos: Sou eu, o Carlos, o
jornalista que este...
Helena: Nossa, quanto tempo, não
iria conseguir reconhecer sua voz...
Carlos: Eu tinha que falar com a Antônia.
Helena: Você está bem Carlos?
Carlos: Acho... não sei... talvez
esteja....
Helena: Carlos...A Antônia morreu já
tem quase vinte cinco anos...
Depois que soube da morte de
Antônia, fui atrás de alguém que compactuasse com minha experiencia. Busquei na
internet algum relato que se assemelhava ao meu. Escrevi todos os detalhes
possíveis, aqueles que nesta dimensão ainda conseguia recordar. Por algum tempo
fiz aquela procura, não sei por quanto tempo. As vezes parece que foram cinco
minutos, mas pode ser que se passaram uns cinquenta anos até eu encontrar. Por
fim, consegui achar uma descrição semelhante à minha.
O único relato que pareava com o
meu, era um artigo de uma revista antiga, já não mais publicada, chamada “Ovni”. Na edição 39, de abril de 1987, um homem
chamado Lúcio Andrade, fez um relato bem próximo do que a velhinha havia me
contado, e do que eu mesmo experenciei depois. Quando li aquilo, me enchi de
esperança, pois parecia haver chances de eu descobrir o que havia ocorrido
comigo.
Só havia aquilo, nada mais... Era
como se somente eu, Antônia, a Velhinha e este cara, soubéssemos o que
realmente há entre o céu e a terra. Ninguém além destas pessoas sabia sobre,
pelo menos as que conseguia rastrear. Outros relatos vinham de lugares tão
inóspitos, e tão longe do lugar que estou, que não acho que em uma vida
conseguiria encontra-los.
Pelo jeito, todos que passavam por
aquilo, andavam a esmo, sem saber o verdadeiro propósito para estar nesta
realidade. Eu tinha que ir atrás daquele cara, Lúcio Andrade, a quem agora
tinha como um irmão perdido, o único ser humano que eu poderia compartilhar
algo do que vivo desde o encontro com o desconhecido.
Tenho esperança de que ele ainda esteja
vivo, parece que poucos sobrevivem a este evento. Eu preciso de respostas, não
mais elas existem em minha realidade, só tenho a mente habitada por
questionamentos, de tantas naturezas, que não consigo se quer esvaziar minha
mente para dormir, nem me lembro mais desta sensação.
Vou atrás de Lúcio Andrade, só ele
pode me dar alguma resposta. Preciso saber, que em pelo menos um local, das
tantas dimensões que minha mente agora navega, há uma resposta para tudo isto.
Minha consciência assim, em pelo menos uma dimensão, entendera qual o sentido
desta existência.
Capítulo
Final
A Verdade sobre o Mistério das Dimensões
Lúcio Andrade?
Sim, sou eu... pelo menos eu acho
que sou eu.
Prazer, eu sou o Carlos.
Lúcio: E como eu posso te ajudar
Carlos?
Carlos: Eu estou pesquisando sobre
ovnis, extraterrest...
Lúcio: Então não posso lhe aju...
Carlos: Os verdadeiros...Somente os
verdadeiros... Só aqueles que realmente aconteceram.
Lúcio: Hummm... Vejamos, só os
verdadeiros?
Carlos: Sim, sim, isso aí! Eu quero
só saber sobre os que transpassaram dimensões, entende?
Lúcio: Deu pra ver que você sabe do
que eu..., mas...Eu já não te disse isso?
Carlos: Acho que não..., nunca nos
vimos. Mesmo assim... me parece que já disse alguma vez... desculpe, não
consigo me lembrar, minha mente flutua pra essas coisas.
Lúcio: Sei como é... Vou te contar
aqui mesmo, acho que pouco importa aonde se está depois de passar por aquilo.
Deixe me ver por onde começo, eu tenho certeza que já lhe contei, não sei
mesmo... Vejamos... 99,9 999...% de avistamento de Ovnis, contato alienígena,
abduções, sinais do espaço, geometria em plantações, e toda essa bobageira
aí... são mera ficção, sendo apenas fantasias da mente humana. Eles querem ver
algo, movem seu prazer neste frisson por viver o desconhecido. Eles só fazem
isso porque são idiotas, incautos, incapazes de reconhecer a criação de suas
fantasias... Burros hahahah, como eles são burros.... HAHAHAHAHAHAH
Carlos: E o 0,0000000.....1%?
Lúcio: São infelizes como eu e meu tio,
gente que por acaso, em uma combinação matemática tão improvável, que faria com
que eu ganhasse tantas vezes na loteria, que iria falir o sistema financeiro do
país, mas que em vez de ganhar dinheiro, acabou na rota destes poderes além de
nossa dimensão.
Carlos: O que acontece com quem tem
esta “sorte”?
Lúcio: Meu tio, por exemplo, ele viu
os sinais, não sei como, mais só sei que os sinais eram perceptíveis a ele.
Talvez só um número limitado de seres da nossa dimensão tenha essa capacidade,
ou simplesmente estão no lugar errado, na hora errada, e na dimensão errada... Meu
tio e um amigo, que embarcou nas “visões” dele, confeccionaram duas máscaras de
ferro, acreditando que com aquilo, eles iriam conseguir chegar o mais próximo
daquilo. Não sei como, talvez nem tenha sido as máscaras, mas eles conseguiram ficar
o mais próximo que um ser desta dimensão pode ficar daquela passagem.
Carlos: E o que aconteceu com o seu tio?
Lúcio: Nunca o encontraram, havia
somente duas clareiras na vegetação com o formato dos corpos deles. A única
coisa que sobrou deles, foram as máscaras de ferro que repousavam no desenho
dos corpos formados na clareira na grama alta.
Carlos: E por que você foi parar lá
também?
Lúcio: Eu fiquei obcecado pelo que
havia acontecido com meu tio. Algo me chamava... não sei, pode ser que somos
escolhidos, nascemos para isto... sei lá, eu tinha que ir, e fui para o mesmo
lugar tentar ver o que meu tio viu.
Carlos: E o que você viu?
Lúcio: Não vou saber dizer ao certo
o que é aquilo, não dá pra saber, pois pense, um microrganismo em marte,
consegue entender o porquê algo simplesmente perturba sua biosfera? Nós sabemos
que isso vem de um lugar milhões de quilômetros de distância daquele planeta,
mas estes microorganismos não tem consciência o bastante para saber que, outra
espécie ao longe comanda aquele corpo que perturba a biosfera deles. Somos
estes microorganismos perto daquilo.
Carlos: Você não sabe o que saí
desta abertura?
Lúcio: Ninguém sabe, e nunca saberá
HAHAHAHAHAHA Sabe por que? Porque somos simplesmente isso, microrganismos de
uma dimensão qualquer. Pense, um urubu não faz ideia do que acontece quando é
sugado para a turbina de um avião, a mente deles é limitada ao ponto de sequer
imaginar que força é aquela. Nós somos como estes urubus, sem fazer ideia do
que nos suga. Mas eu sou tipo um urubu que saiu da turbina, mas que até hoje
não sabe o que era, nem como conseguiu sair vivo de lá... vivo assim por dizer,
não sei ao certo, mas pelo menos, em parte, sou sobrevivente de uma espécie de
turbina dimensional.
Carlos: Você nem se quer imagina
quem possam ser os seres que abrem estes canais dimensionais?
Lúcio: Provavelmente, não sei ao
certo, só estou chutando, eles sejam seres capazes de transpassar estas
barreiras físicas do que conhecemos. São poderes que ninguém conseguiria se
quer se aproximar, quem dirá estar cara a cara com essa força.
Carlos:
Uma espécie de Deus?
Lúcio:
Mais poderoso que isso, muito mais poderoso...
Carlos:
E o que se faz quando se escapa da “turbina”?
Lúcio:
Não sei... Eu só estou aqui, sou um urubu apenas. Teorizo eu, que estar próximo
do ponto de expansão dimensional ajude. Eu estou aqui, próximo do meu, e me
sinto, em partes pelo menos, melhor estando aqui bem perto daquela abertura. Mas
jamais retornaria pra lá... O tempo não existe mais, então, não tem porque se
afastar daqui.
Carlos:
Muito obrigado Lúci...
Lúcio:
Você também esteve lá?
Carlos:
Na... não! Eu conheci alguém que esteve.
Lúcio:
Que sorte a sua... Diga pra essa pessoa que sinto muito por ela.
Carlos:
Direi, direi...
Lúcio:
Antes de ir... Você pode tirar os óculos?
Carlos:
Sim...
Lúcio:
Eu sinto muito, realmente, eu sinto muito garoto...
Carlos Augusto Fertiolari, São
Paulo, ??/??/??
Deixo aqui meus últimos relatos. Não
sei em que momento estou mais. O tempo parece flutuar por dentre minhas
moléculas. Não consigo me sentir completamente nesta dimensão. Meu corpo, ou
partes dele, estão interagindo com lugares e tempos muito além deste que
estamos.
Enquanto escrevo, podem ter se
passado dias desde o ocorrido, como podem ter se passado décadas também, não
tenho como saber... Só sei que tive de retornar ao local mais próximo do ponto
de abertura do qual fui sugado, lá estava minha melhor possibilidade.
Quando retornei ao local em que tudo
começou, estava tudo quase igual de quando saí. Chamei, chamei, e chamei ainda
mais alto..., mas Dona Alzira, a velhinha dos olhos estranhos, que me alertou
dos perigos de estar ali, não veio. Ninguém veio afinal, e nenhuma resposta
vinha de dentro do casebre.
Adentrei os domínios daquele casebre
antigo. Tudo parecia no mesmo lugar de quando havia estado ali, só não sei
quanto tempo se passou desde que visitei o casebre. Dona Alzira parecia ter
desaparecido no vento, sumindo, sem deixar nenhum rastro de sua presença.
Me sentei sobre as ruínas daquele
casebre. Nada fazia mais sentido nesta dimensão, não havia motivos reais para
sentir qualquer emoção. Sem a noção do tempo, tudo pode ter acontecido, como
estar para acontecer, não tem como saber, como dizia Dona Alzira: “Num consigui
mais sabe despois da luz.”. Agora eu entendo tudo que me dizia aquela velhinha,
entendo tudo, tudo....
Frente
Casebre de Dona Alzhira
Homem:
ALÔ DE CASA???? (palmas) TEM ALGUÉM EM CASA?
...
....
.......
É
parece que andei ato...
Carlos:
Tarde...
Homem:
Boa tarde... Senhor... Me chamo Glauco, desculpe incomodar, mas é que eu ouvi
dizer que aqui mora uma benzedeira.
Carlos:
Já morou sim, mas isso, eu acho, não tenho muita certeza, foi há bastante
tempo.
Glauco:
Desculpe então...
Carlos: Hey, quer
entrar? Você parece estar precisando de respostas.
Glauco:
Olha, acho que você acertou em cheio!
Interior
Casebre Dona Alzhira
Carlos:
Antes que me pergunte, apesar da coloração diferente de meus olhos, eu enxergo
muito bem.
Glauco:
Eu ia perguntar sobre seus olhos mesmo... o senhor pode me dizer de onde que
vem essa coloração? Eu nunca vi isso em ninguém.
Carlos:
Ficou assim depois de um incidente.
Glauco:
Que tipo de incidente?
Carlos:
Um do tipo que espero que ninguém passe.
Glauco:
O senhor mora faz tempo nesta casa?
Carlos:
Pode me chamar de Carlos, eu não te disse meu nome antes?
Glauco:
Não, o senhor... não havia me dito seu nome ainda.
Carlos:
Tempo... Se aconteceu, ainda vai acontecer... eu nunca sei...
Glauco:
Hã?!
Carlos:
Seria muito difícil expl....
Glauco:
Me desculpe senhor, quer dizer, Carlos...É que esta região tem a fama de
acontecerem fenômenos estranhos, tais como luzes diferentes e coisas do tipo. Vou
ser direto, eu não estou maluco, eu realmente sinto que aqui, neste local, tem
algo acontecendo... eu sinto uma energia fora de qualquer coisa que tenha neste
mundo! É cada coisa que contam... Minha vida é isto, é para isto que eu vivo,
eu tenho de saber se existe algo além de nós no universo, é como se fosse meu
destino, não sei se me entende Carlos...
Carlos:
Se é isto, vou encurtar sua viagem, sem mistério sem rodeios, sim, eu lhe
garanto que existe algo além de nós no universo, como sei disto, eu já vi,
ouvi, senti com todos meus sentidos, o que são as dimensões do universo, eu
sei... ah, eu sei....
Glauco:
Minha nossa.... não acredito! O senhor já viu algo assim?!
Carlos:
Você já viu?
Glauco:
É tudo que eu mais quero... Desde criança me preparo para este momento...
Carlos:
Se você tanto procura uma experiencia de outra dimensão, só tenho um alerta a
te fazer: Quem nunca viu essas coisas tem muita sorte... você pode se
considerar um garoto de sorte por não ter visto, mas, se quiser continuar tendo
sorte nesta dimensão, não fique por aqui até o anoitecer. E, de maneira alguma,
olhe para aquelas luzes...
Glauco:
O que acontece com quem olha as luzes?
Carlos
Run... gostaria de lhe explicar, mas não adiantaria... somente quem viaja por
dentre as dimensões consegue entender..., mas, tem certeza que eu já não lhe
disse isso antes? Desculpe, depois das luzes, não tem como saber...

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