Amarelão Contos do Lobo Urbano: Capítulo 1: Tinha um Cachorro no Meio do Caminho



A história que venho lhes contar é sobre um cachorro, nada original, não é? Mas diria a vocês que ela vai ser diferente das histórias de cachorro que devem ter ouvido, lido ou assistido por aí. Esta história é sobre um cachorro tipicamente brasileiro, um daqueles cachorros que devem existir somente na terra brasilis. Sejam bem vindos as aventuras e desventuras em série de Amarelão, o Lobo Urbano.


         Minha história com nosso protagonista começa sem nenhum planejamento prévio, me, e se de fato acreditasse que tenho controle de meu destino, diria que nunca iria acontecer. Cresci em um lar cheio de cachorros, um lar que nunca tive que pedir para minha mãe para ter um cão, passei na verdade pedindo o oposto. Depois de crescido, os cachorros se tornaram algo distante em minha vida, nunca desgostei deles, mas ter um... era um pensamento que não me vinha a mente, até mesmo me assombrava pensar na ideia.

            Mas o destino não respeita nossos acordos, e cruzou o destino de um homem que não queria um cachorro com um dos piores exemplares da raça, durante dia completamente ordinário. Todos meus planejamentos e convicções ruíram no instante que topei com este cão.

No tempo de nosso encontro, havia acabado de me mudar da casa dos meus pais, e lutava ainda para me estabelecer em um novo lar. Tudo perfeito, a casa tinha o necessário que precisava, a liberdade que precisava, o sossego que precisava, e principalmente, nenhum cachorro para dividir espaço.

            Em uma manhã de sol, quando o calor de dezembro fustiga a pele, fui, como em tantos outros dias havia ido no ano, na academia treinar musculação. Meu planejamento era de fazer meu treinamento em uma hora mais ou menos, ir na minha mãe almoçar, para   depois regressar pra casa. Chegando na academia, percebi uma movimentação diferente, atípica para aquele local, que hoje já consigo me sentir feliz de ter percebido, mas durante muito tempo me arrependi de ter dado atenção a esta presença.

Dentre os humanos que estavam na academia, tinha um cachorro, que atento acompanhava seu “dono” em um dos aparelhos. Bati o olho naquele cachorro e o admirei de primeiro momento. Aparentando ser adulto já, apresentava uma pelagem longa, reluzindo a cor dourada, um cachorro de porte médio, que inicialmente me parecia bem adestrado. De perto, o cachorro acompanhava silenciosamente a atividade do rapaz, demonstrando ser apto em esperar o encerrar do compromisso do dono.

Ao nota-lo, me lembrei daqueles brinquedinhos de animais, meu irmão tinha vários deles quando criança, e aquele cachorro me lembrava o exemplar mais comum que vinha sortido neste tipo de brinquedo. Um cachorrinho de brinquedo parecia, o observei algumas vezes e ficava reverberando isto em minha mente.

            Não sou de comentar sobre cachorro com os donos, tento inclusive manter distancia e não interagir com o cão. Mas neste dia, por alguma coisa, quis comentar sobre aquele cachorro. Compartilhei minha impressão com o dono, que me respondeu rapidamente que não era dono daquele cachorro, dizendo que há três dias ele o aguardava em frente sua casa, e o acompanhava aonde quer que fosse.

            Posso não ser sensível a causa canina em geral, mas me sensibilizei com a situação do cachorro. Me aproximando dele, conseguia ver que, apesar de parecer bem, o cachorro apresentava traços de abandono, com o pelo em muitas partes desgrenhado, sujo e embaraçado. O rosto do cachorro, mesmo demonstrando alegria, espelhava que ele não tinha cuidado já há algum tempo. O pelo escondia a condição subnutrida dele, que quando tocado, se sentia a ossatura apontando por baixo da pele, e sua saúde dava apontamentos da sua condição de estar nas ruas, com o cão tossindo repetidas vezes.

            Minha primeira ação de cuidado foi pegar água para ele, o cachorro parecia com sede, mantendo sua língua para fora da boca, o que lhe dava um aspecto de estar sorrindo para mim. Meu gesto pouco efeito teve, o cão ignorou a água, preferindo seguir quem, que agora sabia, ele pensava ser seu dono.

 Admirei o comportamento do cachorro em aguardar pacientemente o dono, em alguns momentos até deitando de maneira comportada. É estranho pra mim pensar que meu primeiro contato com Amarelão, nome que o batizei futuramente, foi o elogiando, visto que no futuro este tipo de ação se tornaria rara.

            Aos poucos fui percebendo que aquele cão não era tão dócil assim. Repetidas vezes o cão pulava no rapaz, fazendo movimentos sexuais caninos na perna dele. A todo momento o cachorro buscava ser acariciado, não parando de lamber e passar a cabeça em quem por ventura oferecesse o agrado. Parecia que quando começava a ser acariciado, a intensidade da interação dele só subia, sem cessar um instante.

            Perguntei ao rapaz se ele pretendia ficar com o cachorro, ele me respondeu que não, pois já tinha dois cachorros em casa. Minha estratégia era simples, abriga-lo na minha mãe, e buscar nos grupos do WhatsApp o possível dono daquele cachorro. Me guiando apenas pela aparência do cachorro, imaginei que teria um dono, e que devia ser alguém da região.

            Havia acabado de me mudar de casa, minha filha não gostou nada de não estar mais morando com os avôs dela. Nestes primeiros dias, sentia uma distancia sendo criada entre nós dois, amargando a tristeza de tê-la decepcionado. Algo dentro de mim dizia que aquele cachorro ajudaria a reconectar com ela, era como se ele tivesse surgido no meu caminho para isto.

            Minha filha sonha em resgatar cachorros, confabulando planos mil de um dia ser veterinária e ter uma estrutura de resgate de animais abandonados. Um resgate de um cachorro perdido a alegraria, e fazer isso junto dela, seria uma atividade de pai e filha. Caso não conseguíssemos achar o dono, aquele novo cachorro traria novidade para vida de minha filha, me tornando um herói para ela por resgatar um pobre cão da rua.

            Terminando o treino, pedi ao rapaz para me acompanhar, e assim levarmos o cachorro para a casa da minha mãe. O cachorro relutou em acompanhar me ao carro, só o adentrando quando o rapaz entrou e o chamou. Dentro do carro, o cão ficou inquieto no colo do rapaz, naquele instante percebi que aquele cachorro tinha algum problema com carro, ficando rapidamente estressado e agoniado.

            Da academia até casa da minha mãe são apenas algumas quadras, mas devido a intensa atividade do cachorro lá dentro, fez parecer muito mais longo o trajeto. Chegamos em frente à casa da minha mãe, não adentrei a garagem, pois haviam pelo menos quatro cachorros que vivem dentro de casa, preferindo assim, abrir o portão pequeno que dá a acesso ao jardim, evitando o contato do cão perdido com os cachorros residentes da casa.

            Para entrar na casa, foi necessário novamente a intervenção do “dono” ante a relutância em seguir-me. Simplesmente o cão não queria descer do carro, travando suas patas para não ser retirado. Pedi ao rapaz que descesse e entrasse pelo portão, quando o rapaz entrou, o cão o seguiu avidamente, para em seguida eu fechar o portão.

            De primeiro momento, o cão rodou atento pelo jardim em reconhecimento. Enquanto o cachorro se distraia, abri o portão e o rapaz saiu. A casa dele ficava a poucas quadras dali, não haveria mais necessidade da ajuda dele, então ele saiu para ir embora. Ao perceber a saída do rapaz, o cão avançou desesperado para o portão, o arranhando e latindo na ânsia de abri-lo.

            Tentei acalma-lo, mas parecia que o cachorro realmente imaginava que aquele rapaz era seu dono, sentindo-se sendo abandonado por ele. O desespero do cachorro durou um bom tempo, até que finalmente ele aceitou que estava preso naquele jardim. Agora restava saber o que fazer com ele, mesmo sem saber ao certo, tinha certeza que caso não conseguíssemos um dono, aquele seria seu novo lar.

            Quando o portão se fechou, e aceitei aquela missão, jamais imaginei o que estaria por vir, tinha como certo que meu encontro com aquele cão seria algo momentâneo. Assim começaria uma saga da qual jamais poderia imaginar. Uma história de um homem e um cão, a qual jamais imaginaria que estivesse escrita no roteiro de minha vida. Mas saibam que até nos conectarmos, muita coisa rolou, muita coisa mesmo!

Havia um dono esperando aquele cachorro? Minha mãe o adotaria? Minha filha me acharia um herói por regata-lo? Qual era o estado de saúde daquele cachorro? O que haviam feito com ele antes? Não percam as respostas a estas e outras perguntas no próximo capítulo.

 

           

 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O Encontro com o Olhar da Fúria Assassina

Riachin- A Dimensão do Infinito

Gritos do silêncio