Amarelão Contos do Lobo Urbano: Capítulo 1: Tinha um Cachorro no Meio do Caminho
Minha
história com nosso protagonista começa sem nenhum planejamento prévio, me, e se
de fato acreditasse que tenho controle de meu destino, diria que nunca iria
acontecer. Cresci em um lar cheio de cachorros, um lar que nunca tive que pedir
para minha mãe para ter um cão, passei na verdade pedindo o oposto. Depois de
crescido, os cachorros se tornaram algo distante em minha vida, nunca desgostei
deles, mas ter um... era um pensamento que não me vinha a mente, até mesmo me
assombrava pensar na ideia.
Mas o destino não respeita nossos
acordos, e cruzou o destino de um homem que não queria um cachorro com um dos
piores exemplares da raça, durante dia completamente ordinário. Todos meus
planejamentos e convicções ruíram no instante que topei com este cão.
No
tempo de nosso encontro, havia acabado de me mudar da casa dos meus pais, e
lutava ainda para me estabelecer em um novo lar. Tudo perfeito, a casa tinha o
necessário que precisava, a liberdade que precisava, o sossego que precisava, e
principalmente, nenhum cachorro para dividir espaço.
Em uma manhã de sol, quando o calor
de dezembro fustiga a pele, fui, como em tantos outros dias havia ido no ano,
na academia treinar musculação. Meu planejamento era de fazer meu treinamento
em uma hora mais ou menos, ir na minha mãe almoçar, para depois
regressar pra casa. Chegando na academia, percebi uma movimentação diferente,
atípica para aquele local, que hoje já consigo me sentir feliz de ter
percebido, mas durante muito tempo me arrependi de ter dado atenção a esta
presença.
Dentre
os humanos que estavam na academia, tinha um cachorro, que atento acompanhava
seu “dono” em um dos aparelhos. Bati o olho naquele cachorro e o admirei de
primeiro momento. Aparentando ser adulto já, apresentava uma pelagem longa,
reluzindo a cor dourada, um cachorro de porte médio, que inicialmente me
parecia bem adestrado. De perto, o cachorro acompanhava silenciosamente a
atividade do rapaz, demonstrando ser apto em esperar o encerrar do compromisso
do dono.
Ao
nota-lo, me lembrei daqueles brinquedinhos de animais, meu irmão tinha vários
deles quando criança, e aquele cachorro me lembrava o exemplar mais comum que
vinha sortido neste tipo de brinquedo. Um cachorrinho de brinquedo parecia, o
observei algumas vezes e ficava reverberando isto em minha mente.
Não sou de comentar sobre cachorro
com os donos, tento inclusive manter distancia e não interagir com o cão. Mas
neste dia, por alguma coisa, quis comentar sobre aquele cachorro. Compartilhei
minha impressão com o dono, que me respondeu rapidamente que não era dono
daquele cachorro, dizendo que há três dias ele o aguardava em frente sua casa,
e o acompanhava aonde quer que fosse.
Posso não ser sensível a causa
canina em geral, mas me sensibilizei com a situação do cachorro. Me aproximando
dele, conseguia ver que, apesar de parecer bem, o cachorro apresentava traços
de abandono, com o pelo em muitas partes desgrenhado, sujo e embaraçado. O
rosto do cachorro, mesmo demonstrando alegria, espelhava que ele não tinha
cuidado já há algum tempo. O pelo escondia a condição subnutrida dele, que
quando tocado, se sentia a ossatura apontando por baixo da pele, e sua saúde
dava apontamentos da sua condição de estar nas ruas, com o cão tossindo repetidas
vezes.
Minha primeira ação de cuidado foi
pegar água para ele, o cachorro parecia com sede, mantendo sua língua para fora
da boca, o que lhe dava um aspecto de estar sorrindo para mim. Meu gesto pouco
efeito teve, o cão ignorou a água, preferindo seguir quem, que agora sabia, ele
pensava ser seu dono.
Admirei o comportamento do cachorro em
aguardar pacientemente o dono, em alguns momentos até deitando de maneira
comportada. É estranho pra mim pensar que meu primeiro contato com Amarelão,
nome que o batizei futuramente, foi o elogiando, visto que no futuro este tipo
de ação se tornaria rara.
Aos poucos fui percebendo que aquele
cão não era tão dócil assim. Repetidas vezes o cão pulava no rapaz, fazendo
movimentos sexuais caninos na perna dele. A todo momento o cachorro buscava ser
acariciado, não parando de lamber e passar a cabeça em quem por ventura
oferecesse o agrado. Parecia que quando começava a ser acariciado, a
intensidade da interação dele só subia, sem cessar um instante.
Perguntei ao rapaz se ele pretendia
ficar com o cachorro, ele me respondeu que não, pois já tinha dois cachorros em
casa. Minha estratégia era simples, abriga-lo na minha mãe, e buscar nos grupos
do WhatsApp o possível dono daquele cachorro. Me guiando apenas pela aparência do
cachorro, imaginei que teria um dono, e que devia ser alguém da região.
Havia acabado de me mudar de casa,
minha filha não gostou nada de não estar mais morando com os avôs dela. Nestes
primeiros dias, sentia uma distancia sendo criada entre nós dois, amargando a
tristeza de tê-la decepcionado. Algo dentro de mim dizia que aquele cachorro
ajudaria a reconectar com ela, era como se ele tivesse surgido no meu caminho
para isto.
Minha filha sonha em resgatar
cachorros, confabulando planos mil de um dia ser veterinária e ter uma
estrutura de resgate de animais abandonados. Um resgate de um cachorro perdido
a alegraria, e fazer isso junto dela, seria uma atividade de pai e filha. Caso
não conseguíssemos achar o dono, aquele novo cachorro traria novidade para vida
de minha filha, me tornando um herói para ela por resgatar um pobre cão da rua.
Terminando o treino, pedi ao rapaz
para me acompanhar, e assim levarmos o cachorro para a casa da minha mãe. O
cachorro relutou em acompanhar me ao carro, só o adentrando quando o rapaz
entrou e o chamou. Dentro do carro, o cão ficou inquieto no colo do rapaz,
naquele instante percebi que aquele cachorro tinha algum problema com carro,
ficando rapidamente estressado e agoniado.
Da academia até casa da minha mãe
são apenas algumas quadras, mas devido a intensa atividade do cachorro lá
dentro, fez parecer muito mais longo o trajeto. Chegamos em frente à casa da
minha mãe, não adentrei a garagem, pois haviam pelo menos quatro cachorros que
vivem dentro de casa, preferindo assim, abrir o portão pequeno que dá a acesso
ao jardim, evitando o contato do cão perdido com os cachorros residentes da
casa.
Para entrar na casa, foi necessário novamente
a intervenção do “dono” ante a relutância em seguir-me. Simplesmente o cão não
queria descer do carro, travando suas patas para não ser retirado. Pedi ao
rapaz que descesse e entrasse pelo portão, quando o rapaz entrou, o cão o
seguiu avidamente, para em seguida eu fechar o portão.
De primeiro momento, o cão rodou
atento pelo jardim em reconhecimento. Enquanto o cachorro se distraia, abri o
portão e o rapaz saiu. A casa dele ficava a poucas quadras dali, não haveria
mais necessidade da ajuda dele, então ele saiu para ir embora. Ao perceber a
saída do rapaz, o cão avançou desesperado para o portão, o arranhando e latindo
na ânsia de abri-lo.
Tentei acalma-lo, mas parecia que o
cachorro realmente imaginava que aquele rapaz era seu dono, sentindo-se sendo
abandonado por ele. O desespero do cachorro durou um bom tempo, até que
finalmente ele aceitou que estava preso naquele jardim. Agora restava saber o
que fazer com ele, mesmo sem saber ao certo, tinha certeza que caso não
conseguíssemos um dono, aquele seria seu novo lar.
Quando o portão se fechou, e aceitei
aquela missão, jamais imaginei o que estaria por vir, tinha como certo que meu
encontro com aquele cão seria algo momentâneo. Assim começaria uma saga da qual
jamais poderia imaginar. Uma história de um homem e um cão, a qual jamais
imaginaria que estivesse escrita no roteiro de minha vida. Mas saibam que até
nos conectarmos, muita coisa rolou, muita coisa mesmo!
Havia
um dono esperando aquele cachorro? Minha mãe o adotaria? Minha filha me acharia
um herói por regata-lo? Qual era o estado de saúde daquele cachorro? O que
haviam feito com ele antes? Não percam as respostas a estas e outras perguntas
no próximo capítulo.

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