Amarelão Contos do Lobo Urbano: Capítulo 2: Cão Problema
O cachorro de pelos dourados, que resgatei perdido na academia, corria sem direção definida pelo jardim. Já neste momento ele me pareceu meio doido. A agitação daquele cachorro era fora do comum, não parecendo haver muitos limites nas atitudes que ele tinha. Confesso que quando percebi sua natureza inquieta, me arrependi da decisão de traze-lo. Mas já não podia voltar atrás, tinha de resolver a vida dele.
Mesmo o cachorro me assustando um pouco, tinha certeza que minha filha ficaria contente em conhecê-lo. Chamei minha filha e minha mãe, com o melhor argumento que convence duas curiosas: “Venham ver, tenho uma surpresa!”.
As duas vieram veloz ver qual era a surpresa que tinha para elas. O jardim da frente da casa de minha mãe é dividido por um muro, que reparte o terreno entre uma garagem e este jardim. Minha mãe e minha filha vieram pela garagem, observando por cima do muro que divide os ambientes. Elas avistaram a surpresa, que era um cachorro novo correndo doido pelo jardim.
A primeira reação da minha filha foi elogia-lo “Que fofinho que ele é!”. Minha mãe não demonstrou tanta alegria, parecendo mais preocupada. Minha mãe tem uma herança de familiar na arte de domador de animais. O pai dela, meu avô, foi um coronel da cavalaria do Exército, reconhecido pelo talento, alguns diziam dom, de domar um cavalo como poucos. Minha mãe parece ter herdado este talento, que vejo como um dom mesmo no caso dela. Minha mãe é uma eximia domadora de animais, mas diferente de seu pai, ela doma cachorros.
Desde pequeno assisti minha mãe cuidando de tantos cachorros, que até perdi as contas de quantos foram. Nunca vi nenhum cachorro ataca-la ou não deixar ela se aproximar dele. É como se ela se conectasse a eles, e em questão de pouco tempo, o cachorro já a reconhece como alguém de confiança. Sua devoção quase clerical para com a causa animal, a fez se formar em biologia e veterinária, tornando-a uma profunda conhecedora prática e teórica da arte dos cuidados de animais domésticos. Então, quando notei a preocupação dela, fiquei temeroso de como resolveria a situação daquele cachorro.
Um coro de latidos eclodiu, aumentando conforme minha mãe e minha filha deixaram repentinamente a casa. Era um coral formado por ensandecidos cães de uma matilha. Cada latido tinha um timbre e vibração diferente, criando um ambiente sonoro de pura cacofonia, que com toda a certeza podia ser escutada bem ao longe daquela rua. Haviam tantos cachorros, que não se podia reconhecer quantos cachorros eram. Eu os conheço bem, pelo latido deles, sei exatamente, qual estado de espírito de cada um deles.
A matilha da casa de minha mãe é composta por seis cachorros atualmente. Por ordem cronológica, temos a cachorra mais velha da matilha, Thelminha. Ela é uma Chow Chow de farta pelagem marrom, com um focinho todo preto, destacado pela língua arroxeada. Com poucas expressões faciais, esse cachorro é um enigma quanto ao seu estado de espírito, dando-lhe uma fama de traiçoeiro. Thelminha está já em seus passos finais, com dificuldade de locomoção e saúde debilitada, e mesmo com a fama, e advertência de meu pai a todos os visitantes, ela jamais se mostrou violenta.
O xodó da casa é um pequeno cachorro pequinês, chamado de Junior, ou “Jujuca”. Junior tem longa pelagem lisa e amarronzada, de coloração parecida com a de Thelminha. O focinho arredondado e achatado, com dois olhos esbugalhados distantes em sua face, dá a ele uma expressão diferente de cachorro. De boca fechada, sua expressão dá uma feição entristecida, tal como um cão que anseia por um carinho. De boca aberta, Junior parece abrir um grande sorriso, com as linhas de canto de sua boca indo acima, criando uma expressão risonha na face, que se torna um convite quase que irrecusável para acaricia-lo.
Baw Waw, cachorro preferido do meu filho, é um dos vira-latas da casa. Cachorro levemente acima do peso, de porte médio, tem um focinho fino, de rosto semelhante ao de vários cachorros oriundos desta mistura de raças. Baw Waw apresenta alguns traumas típicos de animais que viveram na rua. O mais destacado é o seu medo de chuva, advindo de algum evento do passado que o deixou assim. Aprendi a compreender estes traumas caninos, conhecimento que adquiri quando em contato com um cachorro, em um passado de uns dez anos antes de encontrar aquele cão de rua na academia.
Nos tempos em que estudei arqueologia, trabalhei em muitos locais distantes dos centros urbanos, localidades rurais, algumas beirando o mais simples da tecnologia urbana. Em uma destes locais afastados, conheci um cachorro chamado Faísca. Este cachorro parecia dócil, em geral cachorros de fazenda o são. Mas havia algo que não podia se fazer nele, bastava um simples gesto, que automaticamente despertava a fúria deste animal. Não se podia jamais acariciar Faísca próximo da orelha.
A dona dele me contou de onde advinha o trauma do cachorro. No passado antes de chegar até ela, seu antigo dono havia dado um tiro no rosto de Faísca, com a bala passando de raspão próximo a orelha do cachorro. Quando ela resgatou Faísca, que ela não me contou como foi, foram percebendo esta reação de defesa instintiva dele, fruto de seu trauma.
Depois desta experiência, fui notando que alguns cachorros que passaram por maus tratos no passado, apresentam muitos traumas, que desembocam em atitudes instintivas dos mesmos. No futuro iria descobrir que o cachorro que resgatei tinha tantos ou mais traumas que o Faísca.
Nilo, assim como Bawwaw, é um cachorro que também advém de uma mistura de raças. Cão de porte pequeno, com pelos ondulados e compridos, de um negro reluzente e amarronzado nas pontas, tem uma expressão quase sempre de excitação, algo que compartilhava com o cachorro que trouxe. Nilo é um cachorro hiperativo, que não parece ter passado nunca da adolescência, correndo e pulando para todos os lados.
Completando o time, temos as duas cadelas mais problemáticas da casa. Saindo um pouco da cronologia, a mais jovem da casa é uma pequena cachorrinha, mistura de várias raças de pequenos cãezinhos de temperamento histérico e escandaloso. Nomeada de Carmela, ela é uma pequena cachorrinha de pelagem branca, que tem em seu latido, uma emissão tão aguda de força, que faz doer nossos ouvidos, sendo uma verdadeira tortura aos tímpanos, alvejados com em longas e ininterruptas sessões de latidos. Além disso, Carmela tem o dom de incomodar de todas as maneiras que um cachorro pode incomodar, não tendo um alvo fixo, direcionando sua atenção para. tudo e todos ao seu redor.
A mais jovem da matilha é uma bela Pastor Alemão(ou Pastora Alemã?). De longa pelagem negra e marrom, com focinho alongado e orelhas pontudas, conheçam agora Amora. Ela é uma cachorra de grande porte, com força e poder reconhecíveis ao primeiro olhar, intensificado quando a audição sofre com seu latido de tom grave caindo para um agudo. Amora tem tudo que faz um cachorro ser difícil, demonstrando de muitas maneiras seu temperamento. Extremamente possesiva, volta e meia os cachorros a sua volta sofrem com sua ira, ansiando afasta-los da possibilidade de receberem mais atenção que ela. Até hoje ela não fez nada que tenha sido grave, mas sua atitude por vezes agressiva, cria tensão no equilíbrio da matilha.
Visto a natureza destes cachorros, resolvemos trazer para brincar com o novo cão os mais afáveis desta matilha. Junior, Thelminha e Carmela foram autorizadas interagir com ele. Em um primeiro momento, eles não pareceram tensionados em se encontrar, aparentando até ter uma espécie de harmonia. Pareceu promissor, mas só pareceu mesmo.
Sendo
o centro da atenção, o cachorro vindo da rua interagia e se esquivava da
interação curiosa, advinda em mais intensidade de Junior e Carmela. Até que em
determinado momento, ele foi demonstrando uma atitude nada amigável. O novo
cachorro começou a tentar dominar os cachorros da casa, que o arrodeava,
pulando com as duas patas e dominando o pescoço deles, os jogando assim ao
solo. Em seguida, ele parecia tentar dominar sua vítima com movimentos
sexualizados. Em pouco tempo, deu pra notar que não era seguro para os outros
cachorros ficarem próximos dele.
Soltamos o novo cão dentro de casa,
para ver se a curiosidade pelo novo ambiente o distrairia. Neste momento ele já
dava traços de agressividade com os outros cachorros. O cão recém chegado
percorreu a casa com a mesma energia que adentrou o jardim. Fiquei observando
por um tempo ele afoito pela sala da casa de minha mãe, pensando no que fazer
com ele... Com o celular na mão, tive uma grande ideia.
Com muita dificuldade, detive o cão por um momento. Ele não estava afim de ficar parado, querendo explorar ainda mais a casa. Sua face se encontrava totalmente dominada por um êxtase canino. De a boca bem aberta, o cachorro exibia sua longa língua rosa para fora, hiperventilando em um ritmo acelerado e ofegante. Neste estado, sua atenção e atitudes são todas intensas, fazendo o interagir de diferentes formas com o ambiente e pessoas, um modo que no futuro classificaria de modo Amarelão das Ruas.
Tirei rapidamente uma foto dele. O novo cão olhou para cima, e de bocona aberta e língua pra fora, me deu tempo para capturar toda seu carisma. Postei a foto dele nas redes sociais, o dando como cachorro perdido (a primeira de muitas fotos dele como sumido nas redes sociais, como vocês verão no futuro). Sinceramente, tinha a esperança de que conseguiria encontrar o dono daquele cachorro.
Minha mente já começava a calcular
que aquele cão não tinha dono. Pela a atitude estranha do cachorro, me passou
pela cabeça que realmente ele podia vir da rua, e não ser um cão perdido. De
início é meio difícil acreditar que ele venha da rua, devido a sua beleza
exótica. O cachorro lembra alguns cães de raça, como o Golden, mas de porte
menor e focinho achatado, o que demonstra cruza com outra raça. Várias são as
teorias as origens dele, volta e meia alguém afirma saber a raça que
influenciou sua genética.
Nas ações daquele cachorro, se demonstrava uma indisciplina de um cão sem dono. Pensei, caso não tenha dono, ele fica aqui com minha mãe. Tinha a esperança que com o passar dos dias os cachorros se acostumariam a ele, e ele aos cachorros. Minha mãe já tem uma matilha, então pensei que não seria um a mais que iria pesar pra ela cuidar. Minha filha gostou dele também, o que faria meu pai, o censor, que há quase quarenta anos reclama a cada cachorro que minha mãe adota, aceita-lo lá, pois não há nada que sua netinha peça que ele não aceite.
As respostas a minha postagem começavam a chegar. As mensagens me assustaram, eram em sua totalidade de amigos zoando, dizendo que eu teria de ficar com ele. Dei uma risada nervosa, com frio na espinha de pensar em ter de cuidar de um cachorro, ainda mais daquele cachorro.
Almocei, observando que a cada vez mais, o cachorro novo parecia não ser apto ao convívio em sociedade canina. Tentei comer o mais rápido possível e ir embora. De alguma maneira, sentia que a responsabilidade do cachorro poderia recair sobre mim, e minha intenção de boa ação, era resgata-lo do abandono, levar para minha mãe, contando com a certeza de que ela daria um futuro melhor a ele do que a realidade das agruras da vida nas ruas.
Me despedi, não sem antes receber uma advertência. Minha mãe não parecia nada feliz com aquele cachorro lá. Acho que em mais de trinta anos, foi a primeira vez que vi minha mãe relutante em aceitar um cachorro. Mesmo assim, acreditava em seu coração bondoso, que no final aceitaria aquele pobre cão das ruas.
Fui pra casa, me sentindo aliviado de ter deixado aquele cachorro na casa da minha mãe. Pensava que lá ele estava em segurança, com gente que gosta realmente de animais, e que iria cuida-lo. Que alivio era ter feito uma boa ação, e poder voltar pra minha vida sem cachorros. Minha filha pareceu muito contente com aquele novo cachorrinho, eu definitivamente podia me dar o título de pai maneiro! Mas este estado de conforto não duraria muito tempo.
Pelo meio da tarde, estava entretido pelo mundo virtual via celular, quando pula na tela uma chamada de ligação, tipo ligar pra pessoa, não falar por whats. Ao ver quem me ligava, meu coração palpitou, era a minha mãe!
Respirei fundo, mentalizei, e atendi o celular. Levei o celular a orelha sentindo que havia algo sério naquela ligação. Com um tom de voz de assustada e irritada, minha mãe gritava anunciando: “VOCÊ PODE VIR BUSCAR ESSE CACHORRO! NÃO TEM CONDIÇÕES DELE FICAR AQUI!”.
Meu
coração palpitou forte, senti subir um frio pela espinha. Não conseguia pensar
no que fazer com ele agora. Aquele cão era um problema, e definitivamente era
um problema todo meu...
Querem
saber como resolvi esta situação? Para onde levei aquele cão problemático? Se ele
era realmente um perigo? Não perca estas e outras respostas, no próximo
capítulo da saga da jornada do Lobo Urbano.

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