Rupestre Sangue











    Depois de anos sem se quer mencionar, resolvi falar sobre os eventos ocorridos na Serra de Maracaju no início dos anos 1990. Sou testemunha ocular de tudo que se passou naquela expedição arqueológica, aquela que foi a primeira pesquisa no complexo de Sítios Arqueológicos do Sacrifício. Estas lembranças ainda me assombram, não raro pego minha memória acessando eventos dos quais qualquer pessoa gostaria de esquecer, mas que são as lembranças mais vividas de meu passado.

    Temos que retomar a 1992, ano em que me formei no mestrado de antropologia da Universidade Federal do Paraná. Em meu projeto de mestrado, escrevi uma dissertação sobre minhas pesquisas em sítios arqueológicos de arte rupestre, para quem não conhece, são pinturas e gravuras feitas em abrigos sobre rocha ou cavernas. A memória mais comum das pessoas são os belos bisões desenhados nas cavernas de Lascaux, mas saibam que elas existem também no Brasil, não com a mesma qualidade técnica, mas com sentido semelhante para quem os fez.

    Me fascinava estudar algo deixado por seres humanos do passado, que estiveram por aqui milhares de anos atrás. Imaginar qual era o sentido daqueles desenhos, preservados por milênios, era acessar um pouco do conhecimento mais antigo da cultura humana. Meus estudos foram desenvolvidos no estado do Mato Grosso do Sul, um jovem estado da nação brasileira naquele tempo, sendo desmembrado de Mato Grosso em 1977. Por algum motivo aquele lugar me atraia, sei lá, como que se meu destino fosse de alguma forma se desenrolar naquelas paisagens.

    Naquele tempo este estado ainda era desconhecido do ponto de vista arqueológico, e meus estudos no Planalto de Maracaju foram os pioneiros nos estudos sobre arte rupestre nesta região. Para mim era tudo muito fantástico na arqueologia, amava registrar e interpretar aquelas pinturas que encontravam escondidas na natureza, sem que ninguém as tenha visto durante milhares de anos talvez. Definitivamente aquilo era minha vida, queria saber mais, mais e mais. Quase toda minha interpretação era inspirada por um mestre, o qual nunca havia visto ou conversado, Fernando Nidelli.

     Nidelli havia sumido do mapa da arqueologia no início dos anos 1970, já fazia vinte anos que ninguém ouvira falar do paradeiro dele. Alguns diziam que ele havia morrido, outros que vivia em uma aldeia indígena, e até havia a lenda de que ele estava na mata, vivendo como os caçadores coletores de dez mil anos atrás, ele havia simplesmente pirado, ficando obcecado por descobrir os sentidos das pinturas rupestres que pesquisava. Somente as ideias de Nidelli, as quais via como advindas de um gênio, haviam sobrevivido.

    No mês de junho de 1992, enquanto realizava minha pesquisa de doutorado na universidade, eu recebi uma carta misteriosa. A carta não parecia uma comunicação institucional, não tendo preenchimento de um remetente, algo que quase não me fez abri-la. Pensei realmente em ignorar aquela carta, chegando a joga-la no lixo. Mas, de minha cadeira no laboratório de arqueologia, observei a carta debruçada sobre a lixeira cheia de papeis picados, no canto superior da carta havia um desenho que capturou minha atenção.

    Reconheci instantaneamente que o desenho era de um antropomorfo (mistura de animal com humano) semelhante aos motivos desenhados em um dos abrigos que havia pesquisado quando estive no cerrado Sul-Matogrossense. Fiquei algum tempo encarando a carta, decidindo por abri-la ou não.

        A curiosidade é o motor da humanidade, abri a carta e me lancei em um mundo desconhecido:

Cara Ana Maria Torres Medeiros, venho através desta carta lhe propor um convite, na verdade quase uma missão, para quem, assim como eu, ama desvendar os mistérios do pretérito e que não se satisfazem com uma simples resposta. Li vossos artigos sobre as pinturas rupestres em Mato Grosso do Sul, e fiquei impressionado com sua perspicácia interpretativa das funções dos sítios e no sentido das pinturas contidas nos abrigos. Saiba que fico lisonjeado de ter sido vastamente citado em vosso trabalho, será uma honra se assim aceitar meu humilde convite.

Tenho uma última grande missão arqueológica na região, mais a Leste de onde realizara sua pesquisa, local que vinte anos atrás fiz minhas últimas pesquisas. Os habitantes locais me relataram haver um complexo de sítios ainda não conhecidos, e os quais eles dizem serem os mais ricamente decorados, isto segundo palavras dos mais velhos que entrevistei, que eram idosos com mais de cem anos. Contaram-me que as paredes destes sítios eram tão pintadas que praticamente não se via os pontos naturais da rocha, uma espécie de Capela Sistina da Pré-história.

            Durante os anos 1970, não consegui financiamento para a pesquisa, nem mesmo pessoal disposto a encarar a missão. O terreno é de mata selvagem, até os habitantes locais tem um receio imenso em adentrar o complexo. As lendas locais dizem que o lugar é assombrado por espíritos malignos, e quem adentrou aquelas matas jamais retornou para contar o que há nela.

            Acredito por você ser uma cientista, assim como eu, interpretando que estas lendas e mitos, contada por humildes viventes de comunidades rurais, não são o bastante para lhe assustar. Espero que aceite meu humilde convite e juntos com uma equipe multidisciplinar, possamos adentrar aquelas matas, e finalmente trazer a luz tal maravilha da arqueologia brasileira e quiçá mundial.

            Para aceitar o convite reenvie a carta neste endereço:

Rua do Ouvidor, numero 567, Bairro da Figueira, Campos do Jordão- SP Cep 79100-190

 

Atenciosamente, Fernando Nidelli.

 

    Enquanto lia a carta, pensei que podia ser algum tipo de piada, talvez de algum colega de universidade. Mas ao ler o nome de Fernando Nidelli, quase fiquei sem ar, primeiro por saber que ele estava vivo, segundo por ele ter entrado em contato comigo, a maior entusiasta do trabalho dele. Ninguém iria se passar por ele, seria um sacrilégio com um dos mais respeitados pesquisadores do Brasil.

    A proposta parecia algo vindo de outra dimensão, jamais imaginei que algo tão surreal pudesse ocorrer. Minha intuição me deu uma esperança de veracidade da proposta, e mesmo um pouco desconfiada, escrevi uma carta de aceite.

    Meu aceite foi redigido em uma simples carta, que destacava o lisonjeio pelo convite tão incrível. Se era uma pegadinha ou não, pouco me importava, tinha dentro de mim que era real. Enviei pelo correio uma hora depois aquela que poderia ser meu passaporte para a mais incrível aventura de minha vida.

    Os dias se passaram na expectativa da tão aguardada resposta, que parecia não vir.  Achei que havia caído realmente em uma pegadinha, uma feita por alguém muito atoa, que deveria estar estudando em vez de criar este tipo de brincadeira. Até que em uma quinta-feira chuvosa recebi outra carta, novamente sem remetente, e com outro desenho rupestre semelhante ao da carta anterior.

    Se fosse um impostor, ali seria a hora de se revelar. Em um misto de agonia, ansiedade, esperança e descrença, abri aquela carta:

            Cara Ana Maria.

Muito me alegra vosso aceite, será de grande valia sua participação na equipe!

Estou lhe encaminhando as passagens para que possa chegar à cidade de Campo Grande- MS. Junto das passagens, lhe mando dinheiro para que possa comprar quaisquer equipamentos que precise. Um carro irá lhe buscar na rodoviária e lhe encaminhar até o Hotel Jandaia, aonde os outros membros da equipe vão se reunir no dia 27 de junho.

Atenciosamente Fernando Nidelli

 

    Minhas mãos tremiam depois de ler aquelas linhas, escritas pelo próprio Professor Fernando Nidelli! Junto com a carta, havia realmente uma passagem para a cidade Campo Grande, e uma quantia considerável em dinheiro, algo que daria para comprar todo o equipamento da melhor qualidade possível.

    Fiquei extasiada, realmente era verdade, eu iria trabalhar com o grande Fernando Nidelli. Tinha certeza ali ser real, pois ninguém na arqueologia teria dinheiro o bastante para se dar ao luxo de fazer uma pegadinha com esse requinte de investimento.

    Ninguém na universidade ouvira falar deste projeto ou sobre Nidelli ter voltado a ativa. Liguei para meu orientador, que fora aluno dele e ao escutar o conteúdo da carta, me disse que só podia ter sido escrita pelo próprio, pois eram as palavras que ele usava sempre, mas que não ouvira falar de tal projeto, então não sabia nada sobre as intenções de Nidelli.

    Ele me alertara somente que Nidelli era um sujeito totalmente excêntrico, volátil e que não costumava fazer as coisas de forma usual. Seus métodos em campo eram uma completa loucura, mas dizia que ninguém conseguia descobrir sítios arqueológicos como ele, parecia até mesmo ter um sexto sentido para acha-los.

      Percebi nos alertas de meu orientador, uma ponta de inveja, visto que eu havia sido chamada, não ele. Me senti quase como se eu tivesse achado o bilhete dourado e estivesse indo visitar a incrível fabrica de chocolate de Willy Wonka, personagem que me pareceu próximo da ideia que meu orientador passou sobre Nidelli.

    Comprei todo o equipamento necessário e ainda sobrou dinheiro, o qual devolveria ao professor Nidelli, afinal, aquele dinheiro tinha um proposito maior. Peguei um ônibus em Curitiba e enfrentei um trajeto de quinze horas de viagem, a qual eu já estava habituada a fazer.

    Chegando em Campo Grande, ao descer do ônibus, já havia alguém com uma placa escrito Ana Maria Medeiros. A placa era segurada por um chofer de verdade, vestindo um terno e quepe típico dos choferes de filmes. Aquela figura destoava da simplicidade daquela rodoviária já sem glamour. Haver alguém me esperando naquele estilo, me fez destoar de todos que ali desciam, fazendo parecer que eu era alguém super importante.

        Chofer: Dona Ana Maria Medeiros?

        Ana Maria: Sim sou eu.

       Chofer: Vou lhe ajudar com sua bagagem. Me acompanhe, logo a levarei direto ao Hotel Jandaia, onde os outros já estão lhe aguardando.

          Ana Maria: Muito obrigado.

        Choffer: O Sr Nidelli mandou os agradecimentos por ter vindo, e espera que tenha uma boa estada na cidade até seguirmos para o campo.

    Ao chegar no Hotel, avistei no saguão um grupo de três pessoas, dois homens e uma mulher. Eles pareciam conversar animados e amigáveis, já parecendo um grupo. Um deles eu reconheci, era José Carlos Dourado, que já havia visto em alguns congressos de arqueologia que participei anos antes.

    José Carlos era de longe o ser mais desprezível e arrogante com quem já havia tido o desprazer de dividir o mesmo ambiente. Zé Carlos, como era conhecido, não pelos amigos, pois imaginava que nenhum ser humano conseguiria tal relação com ele, era um mini gênio. Ele entrou na faculdade com quinze anos de idade, sendo adiantado, depois de uma briga na justiça, já que no primeiro ano do ensino médio passara em primeiro lugar no vestibular da Universidade de São Paulo (USP).  Terminou o curso de história na USP aos dezenove, pulando direto para o doutorado devido a qualidade de sua monografia. Zé Carlos terminou o Doutorado em tempo recorde, sendo o mais jovem doutor em arqueologia do Brasil.

    Os outros dois membros eram desconhecidos de mim. Um era um rapaz bem alto e negro, não parecendo ser um arqueólogo, mas sim algum esportista. A outra, era mulher com traços caboclos, me dando a impressão de ela ser oriunda da região Norte ou Nordeste.

            Ana Maria: Vocês fazem parte da equipe da Missão do professor Nidelli?

            Zé Carlos: Claro que somos, ou você acha que eu estaria aqui se não fosse da equipe do Professor Nidelli?

            Rapaz: Bom, o doutorzinho talvez não tenha aprendido boa educação em casa, então eu respondo por ele. Sim, nós somos. Prazer sou o Douglas, geólogo e arqueólogo das bandas de Minas.

            Garota: E eu sou Maurinilse, arqueóloga lá do Piauí. Prazer em te conhecer menina!

            Ana Maria: Ana Maria, antropóloga de Curitiba, Paraná. Prazer em conhece-los também!

            Zé Carlos: Eu nem preciso me apresentar, se são arqueólogos, vocês me conhecem com toda a certeza. Então só gostaria de saber se vocês têm ideia de quando o professor Nidelli virá nos ver e explicar como será o campo, afinal, meu tempo é precioso.

            Douglas: Achei que o super gênio sabia de tudo, já que você é a estrela da companhia, não?!

            Zé Carlos: Sou doutor e não adivinho.

            Douglas: Faça uma tese e descubra por você mesmo então, otário!

            Maurinilse: Oxê, é melhor o doutorzinho fecha a boca se não vai levar uma pisa antes mesmo de começar o trabalho.

            Gerente do Hotel: Senhores da Missão Nidelli?

            Ana: Sim, somos nós.

            Gerente: O Professor Nidelli mandou avisar que a Van vai sair pela manhã às sete da manhã, depois do café. Ele deixou combinado em encontra-los no distrito de Taboco.

            Ana: Muito obrigado!

            Douglas: Pronto, agora sabemos pelo menos quando e para onde vamos.

            Zé Carlos: Acho um ultrage ele não nos receber aqui.

            Marinilse: Mas se acha né?! O Nidelli é muito mais que tu, era tu que deveria estar agradecido de ele saber quem tu é.

            Zé Carlos: Por enquanto ele é mais que eu, por pouco tempo, logo Nidelli vai ser só passado.

    Já de principio percebi que Zé Carlos estava ali não pela missão, mas por si mesmo e por seu próprio ego. Ele com toda a certeza seria um problema para o grupo. Jantei junto de Douglas e de Marinilse. O Douglas era um cara maneiro, apesar de não ter tanta experiência em campo de arqueologia, era bem interessado, tudo que ele tinha dúvida perguntava e compartilhava sua experiência. Marinilse era uma cria da famosa arqueólogoa Niede Guidon, que desbravou e trabalhava na conhecida Serra da Capivara, maior complexo de arte rupestre das Américas. Assim como Niede, Marinilse era mulher forte, criada naquele agreste, era uma perita em desbravar terreno hostil e desconhecido.

    Zé Carlos não se misturava conosco, já ouvira falar de sua relação distante de tudo e de todos, diziam que somente ele existia no mundo, que o único que ele reconhecia como digno de sua companhia era o reflexo que via no espelho.

    No horário combinado, estávamos todos prontos na frente do Hotel, ansiosos e esperançosos com nossos equipamentos para a viagem. A van chegou no horário exato do indicado na mensagem nos passada pelo gerente do Hotel.

    O motorista da Van era um senhor de meia idade, de médio porte, gordo e com um bigodão estilo Charles Bronson. Ao seu lado havia um rapaz que aparentava ser jovem, um típico caboclo, denotando em suas feições uma vida de trabalho duro e pouco descanso. Seus nomes eram Seu Jair e Edmilson.

    A viagem até o distrito de Taboco, levou cerca de três horas. Até poderia ter menos, caso a estrada que nos dava acesso aquele distrito remoto, não fosse tão precária. Ao chegar ao distrito, percebemos que estávamos nos despedindo da civilização, ali era a última franja de algo organizado como um centro urbano.

    Em uma pequena vila, a extensão do distrito de Taboco, abrangia somente uma avenida central, uma praça com uma igreja, e um pouco de cidade se estendendo por não mais que três conjuntos de habitações. Neste pequeno vilarejo, esperávamos nosso anfitrião. Paramos no único posto de gasolina da cidade, acreditava que ali seria aonde veríamos Nidelli pela primeira vez.

    Ao parar no posto, Seu Jair perguntou ao sonolento frentista sobre o Doutor Nidelli:

            Seu Jair: Opa, bão?! Estamos atrás do Doutor Nidelli.

            Frentista: O Doutô só deixou esta papelada aqui pra entregar pra vocês.

            Seu Jair : Deixa eu ver o que é?

Ana Maria: Acho que é um mapa.

Seu Jair pegou o mapa, abriu e tentou identificar quais eram as instruções:

            Seu Jair: Parece que ele já está lá na entrada da Vereda do Assustado.

            Zé Carlos: Vereda do Assustado?

            Seu Jair: Aqui o povo chama assim, porque sempre quem passa por lá a noite volta assustado com os barulhos da mata.

            Douglas: O que escutam?

            Seu Jair: Diz que só se escuta grito do povo morrendo!

            Zé Carlos: Ignorância supersticiosa...

            Maurinilse: Oxê, eu prefiro não brincar, e pedir aos meus orixás.

    Cada um de nós tinha uma percepção diferente acerca das lendas que ouvíamos falar. Douglas respeitava e era curioso quanto as lendas, Zé Carlos era cético, as desqualificando por completo, criações fictícias fruto da ignorância daqueles humildes aldeões, já Maurinilse acreditava piamente, ela era muito religiosa, pedindo a todo tempo proteção de todos seus Orixás, para ela somente eles eram capazes de bloquear os espíritos obsessores antigos. Eu só queria investigar as origens da mitologia entorno da mata, o que levava o povo da região a teme-las, não diria que desacreditava das lendas, mas via nelas um lastro de cultura popular interessante.

    A estrada asfaltada deu lugar a pequenos trechos de estrada de terra. Estar dentro daquela Van era como estar em um daqueles brinquedos de parque de diversões, daqueles que ficam saltando e fazendo você pular de um lado para o outro. Aos poucos a última franja de civilização ficava para trás, nos fazendo imergir no universo dos domínios naturais, no qual todo o conforto e segurança não mais existiam.        O Sol estava em seu ponto mais alto, maltratando com um calor infernal aquela van. O vento batia quente em nossos rostos, anunciando que tipo de clima teríamos que suportar. Estávamos chegando no período mais seco do estado, de junho á finais de setembro, as chuvas eram raras em todo o Mato Grosso do Sul, dando ao ambiente um clima de quase deserto, com baixíssima umidade do ar.

    A pesquisa ocorrer neste tempo se justifica pela falta de chuvas, que apesar do sol escaldante e secura que maltratam o físico, era bom pois sabíamos que não haveria possibilidade de chuva. O temor da equipe ser pega no meio da mata por uma tempestade, se justifica pelo estado de Mato Grosso do Sul ser ser um centro de atração de raios, algo que faz com que qualquer chuva no meio de uma mata se torne um perigo real de morte.

    Já passava de duas da tarde, tínhamos almoçado rapidamente em um “restaurante”, digo assim, pois estava mais para a casa de alguém que viu a oportunidade de ganhar um dinheiro com alguns forasteiros. Estávamos já cansados da viagem e desanimados por ainda não termos visto o misterioso Doutor Nidelli.

    A van teve de vencer uma íngreme subida, que nos levava a entrada de uma clareira, e a frente tudo que se via era uma mata de floresta de cerrado. Eu já havia estado por dentro daquele tipo de mata, podendo afirmar que era muito pior do que aparentava olhando de fora. As plantas rasteiras prendem sua perna, árvores com poucas folhas dão uma pouca condição de sombra, além de espinhos por toda a parte, arranhando constantemente sua pele conforme você desbrava o terreno.

    Descemos da Van, todos ficamos empolgados com a visão da mata, por mais assustador que pudesse parecer para as pessoas normais, para nós era a aventura no desconhecido. Tudo que nos movia era a possibilidade de encontrar algo não visto por ninguém durante milênios. Passar pela mata era só um detalhe para nós arqueólogos.

    Enquanto nos arrumávamos, uma indagação fez pela primeira vez ser obrigada a concordar com Zé Carlos:

            Zé Carlos: Parece que chegamos ao início da pesquisa e nada do nosso Mecenas e Coordenador de Campo...

            Ana: Já era hora de ele aparecer mesmo!

            Douglas: Será que foi ele mesmo que nos chamou? O Senhor já falou com ele Seu Jair?

           Seu Jair: Ainda não, tudo que ele me mandou foi através de alguém, que recebeu de outro alguém.

            Maurinilse: Tô achando o Doutô Nidelli muito cheio de nove horas...

            Ana: Bom, já que ele ainda não chegou, comecemos sem ele. Todos nós sabemos o que fazer, não é?! Vamos organizar nossa logística, temos os mapas, o equipamento...

  Enquanto falava senti uma presença, algo que parecia ter que chegado e se materializado ao meu lado de maneira instantânea, sem que tivesse notado sua chegada.

            Professor Nidelli: Vieram todos, conforme combinamos!

    Aquela voz grave e um pouco rouca, quase que parou meu coração por um instante, senti a adrenalina que sobe após um susto realmente legítimo, daqueles que ligam todos seus instintos de proteção, não sabendo distinguir por milésimos de segundo do que se trata o perigo iminente.

    O meu congelar foi seguido pelo de meus colegas, que parecem, que assim como eu, não haviam notado a presença do Professor Nidelli. Todos fomos surpreendidos, passando de um momento em que todos falavam sobre o mesmo assunto para um silencio sepulcral. O primeiro a sair deste susto coletivo e retomar aos protocolos de convivência social foi Douglas:

            Douglas: Professor Nidelli! Uma honra lhe encontrar!

            Professor Nidelli: Peço desculpas meus jovens prodígios, mas eu já me encontrava aqui há alguns dias, bons dias em que pude sentir a terra, o ambiente, os espíritos da mata, enquanto vos esperava para iniciarmos nossa Missão.

    Seguindo o protocolo básico de educação em campo, todos nós o cumprimentamos, nos apresentando durante o cumprimento, mesmo que de alguma forma ele já nos conhecesse, pois nossos convites foram nominais, denotando um conhecimento prévio de nossos currículos. Pelo menos profissionalmente, ele já nos conhecia bem, destacando nossas qualificações conforme nos cumprimentava, de maneira informal e muito acolhedora.

    Tinha visto algumas fotos do professor Nidelli na década de 1970, nelas ele sempre aparecia nos cantos das fotos, mesmo sendo o principal elemento da equipe, algo muito incomum neste meio. Arqueólogos gostam sempre de destacar que nada a arqueologia lembra os filmes do Indiana Jones, mas quase todos eles pensam ser a estrela que era Harrison Ford, tendo uma vaidade quase tão grande quanto a do astro Hollyudiano. Parecia que Nidelli era avesso a esta exploração vaidosa de sua imagem.

    Professor Nidelli era um homem que já estava para cima da casa dos cinquenta anos, mas parecia ter muito menos, ostentando uma barba parte branca e parte preta, cabelos curtos e misto de branco com preto também. Suas feições eram de um homem gentil, e seu físico era de alguém que não parecia ter ficado vinte anos sentado em uma cadeira escrevendo, e sim de alguém que parecia ter de alguma forma se exercitado bastante.

            Professor Nidelli: Meus jovens, hoje vamos dar início a uma das páginas mais reveladoras da Pré-História Brasileira, e eu diria até mais, da arqueologia mundial! O que estas matas escondem está muito além daquilo que podemos imaginar como sendo fantástico, fabuloso e revelador sobre a pré-história.

    Professor Nidelli tirou de sua mochila tira colo, que parecia pela rusticidade ter sido feita artesanalmente, uma folha transparente. Ele abriu a folha cuidadosamente, ela parecia ser antiga, e caso fosse manuseada sem cuidado iria fazê-la rasgar.

            Professor Nidelli: Tenho aqui o croqui feito por Madame Lumiere Entereire. Esta foi a última feita por ela antes de sua repentina morte.  Ela me entregou pouco tempo antes de partir, e até este momento, ninguém, além de mim é lógico, havia a visto.

    O anuncio do professor Nidelli acelerou meu coração. Estávamos prestes a ver algo inédito na arqueologia, algo que se quer imaginávamos a existência até ele anuncia-la.

            Professor Nidelli: Ela adentrou estas matas, e o que ela viu lá dentro a deixou simplesmente em choque. Ao encontrar um abrigo sobre rocha perfeito para habitação, o qual ela chamou instantaneamente de “Altar” ela escreveu que jamais havia estado em tão fabulosa visão. Mas uma intensa chuva se iniciou, dando tempo somente a ela de reproduzir rapidamente alguns grafismos de um painel mais baixo da rocha de entrada. Os motivos por ela descritos são muito mais elaborados que aqueles encontrados na Serra da Capivara, (disse isto apontando para Maurinilse, quem era especialista neste tipo de arte rupestre) Parece que eles estavam utilizando a rocha de uma maneira não somente artística, mas com uma doutrina, simplificada em código para que todos pudessem ter acesso ao conhecimento contido nestes grafismos

    Em fracos rabiscos feitos por alguma caneta de cor vermelha, mas que por terem sido feitos vinte anos antes, se encontravam bem fracos e pouco nítidos os desenhos. Mesmo assim, era possível perceber um estilo totalmente diverso da arte rupestre brasileira. Conseguimos identificar o desenho nos concentrando nele.

    Como em um devaneio, quase que adentrando os limites dos sonhos, o desenho dragava nossa atenção. Podia sentir estando no momento que aquele artista pré-histórico pintou, escutando os sons, gritos, cantos descritos na cena. Pude vislumbrar perfeitamente a visão de duas pessoas, que seguravam uma terceira, a frente delas havia uma figura diferente dos três, algum tipo de antropomorfo segurando um cajado.

    Por segundos estive naquela cena, retornando a mim como que saído do profundo das águas, puxando a respiração e instantaneamente voltando para o mundo que saíra segundos antes. Pareceu que havia viajado no tempo e no espaço.

            Professor Nidelli: Como podem ver, parece ser o início de uma cerimônia ritualística, descrita em por menores, algo muito raro, que não temos nas outras pinturas que encontramos no Brasil, e tão detalhada quanto estas, talvez no mundo não haja igual. Minha teoria é que ali tinha um manual de como proceder, assim como aqueles que só apareceriam milênios depois destes caçadores coletores, em civilizações com mais alto grau de descrição de sua vida privada, publica e religiosa.

            Zé Carlos: Por quê até hoje você não mostrou isto para ninguém? Ou não tentou acessar os sítios que Entereire descobriu antes de morrer?

            Professor Nidelli: Não tinha preparo para estas matas.

            Douglas: Como assim preparo? O senhor parece muito em forma.

            Professor Nidelli: Não falo de preparo físico, e sim de preparo mental e espiritual. Tive que estar me preparando para conseguir adentrar este domínio, e resistir a magia que ele possuiu.

            Zé Carlos: Achei que somente estudávamos estas culturas extintas como cientistas, utilizando para isto teorias e métodos científicos, não atrelados a superstições de caipiras.

Neste momento o primeiro confronto de ideias do jovem gênio e o antigo gênio se colidiram.

Professor Nidelli: Desvendar o passado é muito mais que observar somente o que está evidente, temos que adentrar os domínios da psique humana pretérita, tentar enxergar o passado pela ótica daqueles que lá estiveram.

Douglas: Uma arqueologia experimental?

Professor Nidelli: Mais ou menos isto, mas com uma imersão ainda mais profunda.

Maurinilse: Oxê, bora começar o trabalho, que ficar aqui parado já tá me deixando doida.

Professor Nidelli: Você tem toda a razão, querida. Vamos então meus caros, rumo ao desconhecido!

Com o anuncio animado do nosso líder, adentramos aquelas matas. Enquanto um a um os componentes do grupo eram engolidos pela floresta do cerrado, eu fiquei parada observando aquele abismo entre os domínios da civilização e os domínios do selvagem desconhecido. Aquela mata parecia cantar à medida que cada um a adentrava voluntariamente, como que comemorando engoli-los.

O primeiro contato com a natureza selvagem é sempre desconfortante e insalubre. Podemos sentir todo poder da natureza em sua guerra mais profícua, a da sobrevivência de cada ser de seu ecossistema. Hora enxergamos a floresta como um ente só, mas quando percebemos, cada planta, animal e inseto luta a mais cruel das guerras, a da subsistência como espécie.

O clima quente parece castigar ainda mais, transformando aquela mata extremamente fechada em uma estufa natural, na qual o calor era vividamente sentido em toda sua essência. As plantas buscam de alguma forma ferir quem delas se aproxima. Os insetos veem sua chance de usufruir do organismo novo no ambiente, sugando o máximo que conseguem. E cada animal ao perceber a presença humana se esconde, esperando, ou a chance de dar um bote, ou em vigília para se defender caso seja atacado.

Cada um de nós levou uma parte dos equipamentos, já nosso ajudante levava um monte de coisas, que para nós seria uma tortura andar com tudo aquilo nas costas, mas para ele, a impressão que dava é de estar tão tranquilo como uma criança carregando sua mochila indo para a praia. Ao seu próprio modo, cada um reagia ao desconforto da mata de maneira diferente. José Carlos vinha pelo caminho reclamando de quase tudo, Maurinilse parecia sentir a diferença de ambiente, mesmo sendo uma mulher forte do agreste, aquela vegetação ainda era totalmente nova para ela, já eu e Douglas, nos mantínhamos mais calados, concentrados nos passos que dávamos, na maneira com que nos equilibrávamos em meio a um matagal, que parecia nos segurar e atrasar nossa caminhada conforme tentávamos avançar por dentro dele.

Nidelli parecia um conhecedor nativo daquelas matas, nos direcionando com confiança, quase sempre sem consultar o mapa que carregava, parecia que estava tudo em sua memória. Ouvira falar da capacidade inacreditável de memória do Professor Nidelli, diziam que bastava ele ler algo uma única vez, para que aquilo fosse lembrado por ele em seus mínimos detalhes.

Nidelli: Teremos que subir esta encosta para chegar ao outro lado.

Zé Carlos: Será impossível para nós subirmos essa altura toda com todo nosso equipamento.

Nidelli: Então se livre do que for supérfluo.

Zé Carlos: Precisamos disto como o mínimo para fazermos uma pesquisa séria.

Nidelli: Precisamos chegar lá primeiro para fazer uma pesquisa séria.

Nidelli e Zé Carlos fitaram o olhar em confronto, algo que durou alguns segundos, mas que pesou o clima e já demonstrou uma fagulha de amotinamento por parte de um dos componentes do grupo. Ao final deste duelo de olhares, veio a decisão do possível amotinado.

José Carlos: Tentemos então ao seu modo Doutro Nidelli, mas tenho certeza que mais a frente nossos equipamentos farão falta no desenvolver da pesquisa.

Nidelli: Confie em mim, uma pesquisa arqueológica se faz com muito mais que bons equipamentos.

Mesmos descontentes em deixar boa parte dos nossos equipamentos, tivemos que assim o fazer, pois não havia como chegar ao outro lado sem escalar aquele morro. A subida foi sofrível, não parecia ser algo normal ter de passar por um local tão íngreme e perigoso como aquele para se chegar a um abrigo, me perguntava durante o trajeto: o que os antigos habitantes daqui estavam pensando escolhendo um local de tão difícil acesso? Não via a hora de compartilhar com Nidelli estas minhas divagações.

Quando o sol se colocava o mais laranja no fundo tendo a planície Pantaneira como cenário de seus raios, despedindo-se do dia, chegamos finalmente ao abrigo no topo daquele monte. Minha primeira impressão do local era de que ali devia ser posto de comando natural. E lá tivemos nosso primeiro contato com aquilo que nos aguardava: Um sítio de arte rupestre, não um qualquer, mais um digno de qualquer elogio a capacidade criativa dos antigos habitantes pré-históricos da região.

Nidelli: Olhem meus garotos! Apreciem um olhar para o passado deste local!

Todos nós estávamos boquiabertos, era fantástica a beleza gráfica da arte rupestre daquele abrigo. As cores na parede pareciam muito mais vivas que as que usualmente encontrávamos. O tempo desgasta as pinturas, fazendo o vermelho ficar laranja, e outras cores vão simplesmente desaparecendo, dando apenas uma visão parcial da pintura na parede, mas ali naquele abrigo, estava tudo ainda muito vivo em cores.

Como nos afirmara Nidelli, aqueles motivos desenhados não pareciam algo inteligível somente para os antigos habitantes que lá frequentaram. Quando consegui me concentrar nos sentidos que aquelas pinturas poderiam ter, realmente me parecia ser algum guia cerimonial. Ficamos por algum tempo identificando os motivos pintados naquelas rochas, Douglas tirou um caderno da mochila, e se pós a desenhar parte das pinturas no caderno, mesmo que de forma simples.

Maurinilse já contabilizava as tipologias de motivos contidos nas pinturas, enquanto Zé Carlos observava atento ao chão, procurando a cultura material daqueles que um dia habitaram aquele abrigo, a quem sabe, milénios atrás. Cada um trabalhava à sua maneira, enquanto Nidelli somente se sentou no meio do pequeno abrigo e lá permaneceu em silêncio. Em vez de alguma forma fazer uma pesquisa arqueológica, Professor Nidelli parecia estar em algum tipo de conexão espiritual com o local.

Ana: Professor, podemos ficar aqui esta noite, o abrigo parece seguro, temos lanternas, o que evita acendermos uma fogueira, já que a fumaça pode prejudicar as pinturas.

Nidelli: Sim querida, aqui fiquemos, até porque isto que as pinturas dizem para fazermos.

Quando ele disse isto, apontou para uma pequena pintura em um dos cantos do abrigo. Nesta cena pintada em vermelho e amarelo, era bem fácil de visualizar o contexto: havia pintado um grupo de humanoides, que iam subindo um morro idêntico ao que havíamos subido, na cena seguinte, como em uma história guiada, uma espécie de cinturão feito com tinta branca estava em volta de todos os humanoides desenhados. Um fato curioso que me deixou intrigada, foi que eu contei quantas pessoas estavam naquela cena pintada, e era o número exato dos participantes de nossa expedição.

Nidelli: Este parece ser um centro de preparação, as instruções estão ali.

Em poucos minutos Professor Nidelli conseguiu compreender aquilo que estava pintado em várias cenas pelas paredes rochosas do abrigo. A compreensão que Nideli nos demonstrou, era como se tivesse traduzido aqueles motivos em palavras para nós. Tudo que dizia clareava nossa visão sobre o significado das pinturas, tal como se ele mesmo estivesse estado quando foram confeccionados os painéis pintados milênios antes de nossa chegada.

O abrigo era um espaço perfeito para nosso acampamento, era amplo o bastante para montarmos barracas, e havia um local fora do abrigo, aonde poderíamos improvisar uma pequena fogueira, sem que a fumaça danificasse a integridade do sítio em si, assim, poderíamos cozinhar algo para comer além da comida enlatada e desidratada que trouxéramos. Na fogueira improvisada do lado de fora do abrigo, sentamos todos, menos Zé Carlos, é claro, que não se misturava nem neste cenário de sobrevivência. Fizemos nosso “delicioso” jantar, e logo iriamos dormir, o dia havia sido cansativo, mesmo a noite tendo recém chegado, para nós já parecia tarde da madrugada.

Maurinilse: Professor Nidelli, Madame Entereire passou por aqui também?

Professor Nidelli: Sim, ela passou deste ponto, mas não dormiu aqui, passou direto, algo que acredito que lhe custou a vida.

Ana: Como assim? Achei que ela havia morrido em um acidente com um chuveiro a gás.

Professor Nidelli: Isto que eles contam a vocês?

Douglas: Sim, foi a história que ouvi lá na universidade.

Professor Nidelli: Talvez eles não queriam assustar os aspirantes a arqueólogos. A verdade é bem mais cruel que um simples acidente...

Maurinilse: Não me venha com essa de que é segredo, não posso contar e blá, blá, blá... Agora que tu começou Professor, termina de contar pra gente!

 Professor Nidelli: Tudo bem, minha querida. Eu vou contar exatamente o que aconteceu com Madame Entereire. Ela não via motivos para seguir os ritos descritos nestas paredes, adentrando estas matas sem o devido respeito às suas tradições e poderes.

Neste momento consegui perceber que Nidelli quase nada tinha mais de um cientista, e estava mais para um místico enxergando um universo que ia além do físico. Não sei se esta posição dele me decepcionava, mas por mais estranho que parecesse, me fascinou a visão mística com que ele via o passado. Nidelli estava vivendo a mente daqueles que ali estiveram muito antes de nós.

Professor Nidelli: Madame Entereire voltou desta expedição muito entusiasmada, ela tinha brilho nos olhos, algo que somente deve ter sido visto nos olhos de Howard Carter ao adentrar a Tumba de Tutankamon ou Bridges quando encontrou Machu Picchu. Mas este entusiasmo se transformou em obsessão com o tempo. Ela queria, queria não, precisava de qualquer maneira retornar e terminar a pesquisa. Mas a verba de retorno foi negada pela universidade... Ela então começou a ficar cada vez mais reclusa, tudo o que falava era sobre o Complexo dos Sacrifícios. Ela se desfez de todos os seus bens e financiou sua própria pesquisa. Aí chegamos ao ponto que culminou em sua morte.

 Neste momento nos encontrávamos no silencio total, somente escutando os estalos da madeira pegando fogo na fogueira e os sons dos insetos na mata ao redor, enquanto Professor Nidelli terminava de contar o destino de Madame Entereire.

Professor Nidelli: O final da Madame foi em um casebre alugado, local de repouso antes de adentrar estas matas, mas que seria sua última parada em vida. Tudo que sei é que ela foi encontrada em seu quarto, com as unhas cravadas no rosto e pulsos cortados pela sua própria dentição. Me disseram que ela parecia ter tentado arrancar os próprios olhos em desespero.

Maurinilse ao escutar a história de Nidelli, já se pós em uma espécie de reza ou pedido aos seus orixás por proteção, Douglas pareceu interessado na história, mas duvidando de sua veracidade, enquanto o totalmente cético Zé Carlos, que se aproximou ao escutar uma possível fofoca, e teve de interpelar a versão do Professor Nidelli:

Zé Carlos: Parece aquelas histórias para assustar crianças em acampamentos...Nenhum documento oficial diz isto sobre a morte de Madame Entereire. Todos sabem que ela morreu em um acidente idiota, envolvendo gás de aquecer o chuveiro...Estranho para mim é uma francesa morrer tomando banho.

Definitivamente o humor negro de Zé Carlos não agradou Nidelli, que lançou sobre ele um olhar totalmente diferente do que tinha demonstrado até então.

Nidelli: Bom, se você quiser acreditar em documentos, ou versão de gente que se quer viu o corpo da Madame... fique à vontade meu jovem.

Professor Nidelli deu uma resposta que botou em cheque a certeza absoluta de Zé Carlos, e ao mesmo tempo alimentou a ideia de que ele havia visto o corpo da Madame Entereire, mesmo ele não dizendo isto explicitamente.

A noite não foi nada tranquila par mim, tinha a impressão de escutar vozes por todos os lados, tudo parecia agitado dentro daquele abrigo. O que escutava variava muito, indo de sons de instrumentos, os quais nunca havia escutado em minha vida, em contraste com gritos, gemidos evocando sofrimento, tudo com uma trilha sonora cantada em uma língua da qual nunca havia ouvido semelhante. Todos estes sons se misturavam em minha mente, não me deixando saber se era sonho, quer dizer, pesadelo, ou, realidade. Em alguns momentos senti como se tivesse andando pela noite, observando todos as pinturas daquele abrigo em um fluxo de movimento, com aqueles humanoides desenhados dançando ao som da música e a luz da lua cheia no céu, me fazendo apenas ser uma expectadora daquele espetáculo.

 O dia clareou nos acordando conforme os raios incidiam em nossos rostos.  Mesmo ainda sob o efeito daquela noite mal dormida, nada pude fazer a não ser levantar, arrumar o acampamento e estar apostos para descermos do alto daquele morro. Naquele dia iriamos finalmente adentrar aquilo que Professor Nidelli chamava de “Complexo dos Sacrifícios”.

A nossa caminhada começou até tranquila, uma descida não tão íngreme, nos possibilitando descer sem maiores perigos a integridade dos componentes da equipe. Chegando ao solo, pareceu que tínhamos adentrado em algum outro local, a floresta se fazia quase que em silencio total, como se ali nada de vivo nela habitasse.

Professor Nidelli ia nos guiando, neste momento tinha a certeza que não era a primeira vez que ele andava por aquelas matas. Cerca de uma hora e meia de caminhada, e em uma depressão, a qual para chegarmos, todos tivemos que nos arrastar no chão, passando por uma pequena fenda que levava ao outro lado. Quando nos levantamos depois de passar a fenda, conseguimos avistar aquilo que Madame Entereire queria buscar a qualquer custo.

Neste momento, Nidelli conseguira alcançar o que era visto quase como uma lenda da arqueologia Brasileira, ainda por cima, com tudo que precisava para fazer uma pesquisa completa, tendo ainda tempo hábil para realiza-la. Tudo parecia perfeito na missão até então.

Todos da equipe ficaram por pelo menos um minuto em silencio, observando fascinados algo inacreditável. Estávamos diante de um altar completo, parecendo que construído para este propósito, mas que era apenas um capricho da natureza, a qual o homem ressignificou e transformou em algo que impressionaria seres humanos por milênios.

O abrigo era muito amplo, tendo cerca de quarenta metros de largura por pelo menos vinte metros de altura. O sítio ficava exatamente na encosta, sendo um píer que tinha vista para a imensidão do Pantanal. Era inacreditável que todo aquele abrigo não fosse nada projetado pelo ser humano, mas que parecia projetado para ser aquilo que imaginávamos que havia sido: Um centro cerimonial.

As paredes possuíam pinturas e gravuras rupestres, que ocupavam simplesmente todo o abrigo. Em uma primeira observada pelo complexo, parecia haver ali uma profusão de estilos e formas, como se por ali tivessem passado vários grupos de pessoas no passado, e todos eles de alguma forma registraram sua estilística naquelas paredes.

            Zé Carlos: Consigo perceber pelo menos seis diferentes tradições em profusão!

            Professor Nidelli: Esqueçam as terminologias cientificas e se atentem ao que estas paredes contam.

            Quando o Professor Nidelli anunciou isto, pude reparar naquilo que ele pediu para observarmos. Por mais diferentes que fossem os estilos, todos os grafismos faziam parte de uma mesma temática. Seja nas paredes pintadas em vermelho, branco, laranja ou negro, seja gravado na própria rocha, todos eles contavam a mesma história.

            Maurinilse: Aquele painel se parece muito com o que temos na Serra da Capivara, mas parece ter uma explicação ritualística bem mais clara.

            Professor Nidelli: Muito bem notado minha jovem, é exatamente isto que torna este lugar especial.

            Douglas caminhava um pouco em volta, e notou no chão algo que lhe chamou a atenção. Por todo o complexo havia cerâmica, algo não tão comum em sítios de arte rupestre.

            Douglas: Aqui temos todos os tipos de cerâmica também, algumas que até mesmo são encontradas somente na Amazonia.

            Professor Nidelli: Aqui era o centro do mundo para várias culturas pelo visto. Não percamos tempo, comecemos nossa escavação e descobriremos o que mais se fazia aqui.

            Professor Nidelli rapidamente estava organizando toda uma pesquisa cientifica. Neste momento pude ver seu talento como arqueólogo cientifico, o qual tinham já me reportado. Mesmo com toda a excentricidade de seus métodos, ele sabia o que estava fazendo.

            Enquanto tudo era arrumado para iniciar a escavação, eu me detive observando atentamente os painéis. Em todos eles uma espécie ritual era retratado, com figuras humanoides que distinguiam entre homens e mulheres, que se encontravam em grupo observando duas figuras subindo ao altar. Era incrível perceber que o cenário retratado era o local que estávamos sendo clara a visão que se tinha do espaço visto do alto do “altar” de pedra no centro do abrigo.

Observando na cena retratada, era possível ver no que seria o altar, e no alto dele uma figura antropomórfica servia uma espécie de bebida para o casal que se encontrava chegando ao altar. Mesmo sendo uma pintura simples, a figura que servia a bebida era aterradora, um humanoide com uma cabeça de onça, que segurava um cajado, o qual parecia a ponta ter uma lâmina de machado. O “Xamã” na cena seguinte, acerta em cheio a cabeça da figura masculina, e no final da cena era possível ver o “Xamã” e a figura feminina fazendo sexo.

            Ana: Chutaria que aqui encontraremos alguns enterramentos, pois todas as temáticas são semelhantes.

            Douglas: Sim, todas são sobre sacrifícios. Em todas essas figuras com cabeça de onça tem a mesma função, só variando na forma em que mata a vítima sacrificada.

            Maurinilse: Em alguns ele decapita a vítima, em outras fura o peito, barriga, olha ali naquele canto, ele parece comer o rosto da vítima.

            Zé Carlos: São as cenas mais mórbidas da pré-história brasileira e quiçá da América. Acho que nem os deuses Astecas sedentos de sacrifícios tinham tanta criatividade para sacrificar as vítimas quanto o “Xamã Cabeça de Onça”.

            Professor Nidelli: Vida e morte são faces de uma mesma moeda. Eles compreendiam o quão próximo a vida e a morte estão, elas convivem conosco lado a lado. Por isso enquanto um morre, outro é gerado.

            Douglas: Mesmo assim, para nós, parece algo selvagem.

            Ana: Para eles era só parte do ciclo da vida...

            Iniciamos nossa pequena escavação, tudo como nos conformes, com todos nós muito animados com as possibilidades de descoberta. Com pouca profundidade de escavação, o que prevíamos ocorreu. Algo que parecia uma urna funerária de cerâmica, não muito grande, o que mostrava não caber um corpo inteiro dentro, brotava do quadrante escavado. Escavamos o bastante para que fosse retirada da terra, registrando tudo que havia em seu entorno. O estilo da cerâmica parecia que ela era de algum período não tão recuado, talvez de algum grupo indígena mais recente, o que nos levantou a suspeita de quem sabe tal cultura ainda tivessem descendência viva. Enquanto retirávamos a cerâmica da terra, aconteceu o primeiro incidente da expedição.

Parte do teto cedeu, e um bloco do tamanho de caixa de fruta caiu do alto dos vinte metros de altura do abrigo. A pedra que se descolou do teto caiu diretamente em cima da cabeça do jovem auxiliar, o Edmilson. Ele estava bem na minha frente, e pude avistar o momento exato que o bloco despencou na cabeça dele. Ele não teve nem tempo de tentar desviar, simplesmente a cabeça dele foi esmagada pelo bloco, que bateu no alto de sua cabeça, fazendo jorrar sangue em cima de mim e do pote de cerâmica que segurava nas mãos.

            Tudo aconteceu tão rápido, que não pude nem ter uma reação adequada a gravidade do acidente, ficando parada com sangue por todo corpo, e a minha frente tendo o corpo caído daquele jovem rapaz, o qual pouco escutei a voz durante toda a expedição, mas que agora ali jazia com sua cabeça esmagada, com sangue escorrendo até o quadrante o qual ele ajudou a escavar momentos antes.

            Em seguida vieram os gritos e desespero de todos os presentes, Douglas tentando tirar o bloco de cima do que restara da cabeça dele, Zé Carlos sentado atônito com aquilo que vira, Seu Jair gritando por ajuda, e Maurinilse gritando em desespero. Enquanto todos se movimentavam nervosos com um corpo que ali jazia já visivelmente morto, Professor Nidelli não saíra do seu universo, como se a cabeça esmagada de Edmilson pouco importasse.

            Douglas: O que faremos agora Professor?

            Professor Nideli: Tirar ele daí, e escave ao lado.

            Maurinilse: Tu ta é doido Professor? O MENINO MORREU!

            Professor Nidelli: Em algum momento isto foi culpa de algum de nós?

            Ana: Mas temos que levar o corpo dele para a cidade, registrar a morte dele, avisar a família...

            Professor Nidelli: Alguém vai se importar com um assassino condenado?

            Zé Carlos: Assassino condenado?

            Professor Nidelli: Sim, este jovem era um foragido da justiça, o trouxe para o trabalho com a promessa de pagar-lhe um advogado, ele sabia dos riscos que corria...

            Douglas: Sim os riscos existem, mas independente do que ele fez, ele ainda é um ser humano.

            Neste momento professor Nidelli fitou bem sério Douglas, e deu sua resposta definitiva:

            Professor Nidelli: Me desculpe meu jovem, mas acho que tudo que temos aqui é muito mais importante para humanidade do que a vida deste rapaz foi para qualquer pessoa. Eu não vou parar uma pesquisa por conta de um acidente, do qual não é sequer culpa da expedição. Levaremos o corpo dele ao final, isso se não o enterrarmos aqui, te garanto que ninguém viria procurar por ele.

            Zé Carlos: A morte do rapaz foi chocante, mas concordo com Professor Nidelli, já andamos demais para voltarmos por conta disto.

            Por mais que odiássemos Zé Carlos, a sua adesão a ideia de Nidelli foi importante para que o grupo concordasse com a mórbida ideia.

            Professor Nidelli: Seu Jair, o senhor irá acumular a função de ajudante, tendo o triplo do salário que este jovem teria, aceita?

            Seu Jair: Sim senhor Nidelli.

            Professor Nidelli: Retirem o corpo dele e retomem a escavação.

            Mesmo contrariado, Douglas auxiliou na retirada do corpo. Eu observei mais ao longe, só consegui ver a cabeça dele partida quase que em dois, sendo que os olhos acabaram distantes um do outro de uma forma bizarra, dando a impressão que não mais ali havia uma cabeça humana.

            Precisei de algum tempo, primeiro para me recompor, e depois limpar o sangue do rapaz do meu corpo. Enquanto lavava desesperadamente o sangue, como se ali ainda houvesse parte daquele acidente em mim, professor Nidelli se aproximou e disse algo que me acalmou, mas ao mesmo tempo me preocupou:

Professor Nidelli: Não ligue para isto minha querida, sangue não é nada demais, é simplesmente o veio da vida que todos nós temos.

            Após a retirada do corpo, fez-se um silencio sepulcral, todos os presentes, que antes escavavam esperançosos, sentiram cair sobre si uma amargura e a sensação de que aquilo tudo já não tinha o mesmo sentido. O único que se manteve totalmente igual foi Professor Nidelli, até mesmo o ser humano que parecia desprovido de sentimentos, Zé Carlos, pareceu se compadecer do acidente.

            Professor Nidelli: Ana, vamos ver o conteúdo da urna!

            Ana: Sim professor Nidelli, vou averiguar.

            Com todo o cuidado e aos olhos curiosos de todos os presentes, avistei que dentro da urna havia algo. Fui retirando com todo o cuidado o que havia na urna. De lá foi saindo um crânio humano.

            Zé Carlos: É um crânio masculino, já consegui enxergar aqui a supra orbital. Trata-se de um crânio que aponta para feições de ascendência asiática, assim como a dos índios brasileiros.

            Apesar de toda a arrogância sem medida, Zé Carlos sabia do que falava, ele era reconhecido como um conhecedor de Bioarqueologia e Antropologia forense, uma área da arqueologia que mais tem a ver com as ciências biológicas, mas a qual ele dominava tal como se tivesse completado um curso de medicina.

            Zé Carlos: Um detalhe importante é que a cabeça dele parece ter sido esmagada por algum objeto de precursão pesado.

            Maurinilse: Aquele painel ali aparece o Xamã Cabeça de Onça jogando algo na cabeça de alguém...

            Todos observamos a pintura, e por um momento parecia estar reproduzindo aquilo que acontecera com Edmilson momentos antes. O “Xamã” esmagava a cabeça de um homem com um bloco de pedra, inclusive a cavidade ocular do crânio estava parecida como ficou a cabeça de Edmilson.

            Douglas: Muito esquisita esta coincidência.

            Professor Nidelli: Não lhes disse que este sítio era algo incomum?! Nada aqui é coincidência...

            Continuamos escavando mais, e quanto mais se escavava, mais se encontrava urnas funerárias. Não teríamos como resgatar tantas, pois o subsolo parecia ser feito somente de enterramentos sobre enterramentos. Isso nos dava a total dimensão de que ali era realmente um centro cerimonial de sacrifícios, corroborando totalmente com as diversas pinturas e gravuras representando-os.

            Professor Nidelli estava fascinado com tudo aquilo, parecia uma criança em um parque de diversões. Nós aos poucos entramos um pouco na emoção de Nidelli, deixando de lado o fatídico acidente. Trabalhamos duro, e o dia passou voando. Assistimos o por do sol lindo e alaranjado no poente, iluminando todo aquele complexo, e à frente, tínhamos a imensidão do Pantanal como cenário de despedida da luz solar.

            Mesmo com toda a emoção que as descobertas nos trouxeram, não podia parar de pensar que ali tínhamos um corpo de um rapaz com a cabeça esmagada. O colocamos afastado, quase na entrada do abrigo. Colocamos um lençol em cima do cadáver, sendo possível ao longe, observar aquele corpo repousado em um lençol ensanguentado.

            Jantávamos todos quietos, como mantendo respeito pela morte de um membro da expedição. Professor Nidelli estava totalmente agitado, e apareceu com uma tocha, caminhando incessantemente pelo sítio.

            Professor Nidelli: Veja aonde estamos! Estamos exatamente aonde eles estiveram, no horário que usualmente estariam aqui. Este sítio era algo noturno, aqui, neste local que estamos, sob a luz do luar, cabeças eram esmagadas e cortadas, satisfazendo a vontade das entidades as quais estes povos acreditavam.

            O discurso de Nidelli podia até ter seu fundo científico, mas parecia mórbido tal era a natureza da coisa.

            Zé Carlos: Professor Nidelli ficaria louco em uma visita a Aucschwitz...

            Mesmo sendo uma comparação para lá de antissemítica, ela não era de toda infundada, nos dois lugares a morte era atividade fim.

            Douglas: Professor Nidelli, podemos dormir e amanhã retomar as atividades.

            Professor Nidelli: Se quiserem dormir estejam à vontade, eu quero aproveitar cada segundo neste lugar!

            Maurinilse: Esse doutor não bate bem da ideia mesmo...

            Eu me abriguei em minha barraca, para tentar dormir, algo que há dias não conseguia fazer com um mínimo de qualidade. Estava tendo um sono agitado novamente, uma sensação constante de vigia, de perigo, de algo além que me ameaçava de alguma forma. Nestes dias que estive em meio aquela mata, experimentei a sensação de pouca proteção que os antigos seres humanos sentiam, se abrigando dentre rochas e floresta, na esperança de, no melhor das hipóteses, acordar no outro dia.

            Os sons que escutei nesta noite foram ainda mais vividos. Os batuques de tambor, os murmúrios, os gritos de dor, tudo ficava no limite entre sonho e realidade, não me deixando reconhecer quando era sonho ou se eu estava acordada e realmente escutando tudo aquilo.

Todo o arqueólogo tem receio das onças, elas são parte do folclore de quem trabalha em terreno selvagem. Sua presença é aterradora e ao mesmo tempo deslumbrante, visto a imponência daquele felino fabuloso. Nesta noite pude escutar o esturro da onça, mesmo nunca tendo a escutado pessoalmente antes, parecia reconhecer o animal que poderia fazer aquele som, e entre o domínio do sonho e da realidade, podia escutar de maneira limpa o esturro dela, demonstrando que ali era seu território.

A manha chegou, já nos primeiros raios de sol me despertei, com a certeza que ao sair daquela barraca algo fora do comum me aguardava. Não seria mais um dia ordinário em minha vida, tinha o pressentimento que algo estava para ocorrer, e que ao sair daquela barraca, o mundo que existia antes daquela noite, não existiria mais.

Professor Nidelli estava sem camisa, vestindo apenas com um short, tendo seu corpo todo pintado com uma pintura tradicional, a qual eu já vira em algumas culturas indígenas brasileira. Ele parecia meditar no alto do “Altar de Sacrifício”. Nós o observamos por um minuto, até que Zé Carlos não se conteve e foi lá interpela-lo por em vez de estar pronto para iniciar o trabalho, ele parecia estar realizando algum tipo de ritual xamânico:

Zé Carlos: Professor Nidelli? Estamos todos prontos para iniciarmos.

Professor Nidelli: Já iniciamos.

Zé Carlos: Iniciamos?

Professor Nidelli: Sim, estou pedindo autorização dos espíritos antigos para que possamos viver o que eles viveram aqui no passado.

Ze Carlos:  Professor Nidelli, com todo o respeito a sua carreira, mas eu não vejo necessidade de nenhum tipo de ritual, eu vim para fazer arqueologia.

Nós observávamos o inicio de discussão de Zé Carlos e Professor Nidelli. Por incrível que pareça, estávamos de acordo com os questionamentos de Zé Carlos.

Professor Nidelli: Eu não lhes convoquei aqui para simplesmente escavar, registrar e quem sabe escrever uma série de artigos científicos sobre este local. Eu vos convoquei para viver o passado que aqui existiu, fazer arqueologia de verdade, e não esse monte de protocolos sem sentido da academia.

Zé Carlos: Então temos um problema, eu vim aqui somente para descobrir estes sítios, registra-los, estuda-los e escrever uma tonelada de artigos científicos. Estou aqui pela minha carreira, estou cagando para o sentido espiritual que este local teve no passado.

Professor Nidelli: Se não acredita no poder deste local, pode se sentir a vontade de ir embora, pois com o que tem em mãos já cumpriu seu objetivo.

Zé Carlos: Assim o farei, e digo mais, voltarei aqui com uma equipe séria, não este monte de amadores e um velho maluco. Saiba que assim que voltar, você, nem ninguém, vai ter autorização de pesquisar neste sítio, pois eu já terei feito o registro e pedido ao órgão fiscalizador para pesquisa.

Professor Nidelli: Faça o que achar melhor jovem gênio...

Zé Carlos: O senhor realmente jogou sua carreira no lixo...saiu daqui sem nenhum respeito pelo arqueólogo que é atualmente.

Professor Nidelli: Triste um gênio com uma visão tão limitada quanto o próprio alcance da sua pobre visão.

Zé Carlos: Espero nunca mais ter de ver sua cara de maluco...

Zé Carlos desceu do “altar” e para nós proferiu sua última ofensa:

Zé Carlos: Lhes deixo a cargo do velho louco, eu vou voltar e fazer logo o registro destes sítios. Boa sorte seus perdedores...

Douglas avançou e se pós frente a frente com Zé Carlos. Longe do seu estado de espírito calmo, ele o encarou duramente:

Douglas: Quem você chamou de perdedor?

Neste momento Zé Carlos teve de sair de seu papel arrogante, visto que a frente dele estava alguém o ameaçando fisicamente, e nenhum tipo de prestigio acadêmico iria salvar ele de sair dali com a cara amaçada.

            Zé Carlos abaixou a cabeça e mostrou sua verdadeira face, um garoto frágil e covarde, que usava seu poder para encobrir sua falta total de coragem, não sendo capaz se quer de olhar uma pessoa nos olhos, e repetir um insulto que fizera segundos antes.

            Douglas: Como imaginei... Você é um frouxo, por mim deixava passar seu insulto, mas você não vai insultar as meninas...

            Douglas segurou Zé Carlos pelo pescoço, apertando sua garganta e sacudindo sua cabeça. Zé Carlos tentava em vão se livrar, mas só conseguia arranhar os fortes braços de Douglas.

            Naquele momento achei que uma segunda morte iria ocorrer. Douglas parecia tomado por outra pessoa, e segurava com força o pescoço de Zé Carlos, que já estava roxo a ponto de desmaiar. Maurinilse e eu intercedemos, fazendo Douglas largar Zé Carlos no chão.

Douglas: Vaza daqui senão eu te mato, e se você cruzar seu olhar comigo novamente, pode saber que vou te matar seu verme!

Um Zé Carlos ofegante e assustado, rapidamente pegou suas coisas e saiu pela mata. Por mais prazeroso que foi aquela lição física de humildade, não foi algo que parecia ser próprio da natureza de Douglas. De alguma forma aquele lugar estava mexendo com nossa mente.

Maurinilse: Oxê... acho que temos que ir embora também... não tem como continuarmos neste clima de pisero. Tô com medo, já pedi proteção dos meus guias, mas não os escuto mais...

Maurinilse se pós a chorar. Ela em todo momento mostrava sua face de mulher forte do agreste, mas naquele momento estava assustada como uma criança fora de casa. Tentei conforta-la e tomei a frente para fazermos algo.

Ana: Sim, acho que esta expedição acabou. Podemos levantar acampamento e voltar para casa.

Douglas: Concordo.

Seu Jair ficou perdido, ele era um senhor de pouca instrução formal e que estava ali pela razão mais nobre do grupo, alimentar sua família.

Professor Nidelli: Podem ir, mas é mais perigo irem do que ficarem...

Douglas: Nós vamos mesmo assim Professor Nidelli. Já tivemos uma morte, e agora um dos membros voltou sozinho, algo extremamente perigoso de se fazer.

Professor Nidelli: Estejam à vontade meus jovens. O que precisava de vocês já foi cumprido. Pode ir com eles Seu Jair, estes jovens vão precisar de vossa ajuda.

            Douglas: O Senhor não vem conosco?

            Professor Nidelli: Não estou mais neste plano terreno, estou no plano astral ancestral que preciso estar.

            Definitivamente o meu ídolo estava completamente insano, nada nos restava a fazer por ele, além de deixa-lo lá sozinho para em sua loucura se satisfazer. Arrumamos nossos equipamentos, levantamos acampamento, e por volta do meio dia iniciamos nossa volta, encarando um sol escaldante e uma mata de vegetação baixa, o que nos dava pouca ou nenhuma sombra.

            O caminho era tortuoso, e avançamos pouco, não conseguiríamos vencer nem a chegada ao sítio o qual tínhamos repousado antes de chegar ao Complexo dos Sacrifícios.  O sol ao longe já nos deixava, tínhamos a certeza que teríamos que dormir na mata, algo que não agradava ninguém. Douglas estava arrependido de ter feito Zé Carlos sair as pressas, por mais desprezível que ele fosse, Douglas refletiu que quase o matar sufocado foi muito além do insulto por ele proferido.

            Douglas: Zé Carlos deve estar com problemas...

            Ana: Você realmente liga para ele?

            Douglas: Não, mas seria ruim se mais alguém se machucasse nesta expedição.

            Enquanto conversávamos, escutamos ao longe um grito no meio da mata. Só podia vir dele, pois era o único ser humano além de nós que ali estava também.

            Douglas: É O ZÉ CARLOS!

            Maurinilse: Aí meu Deus! Só pode ser ele!

            Douglas: Fiquem aqui, pode ser perigoso.

            Ana: Você nos julga indefesas, não é? Estamos todos juntos nessa. Não vamos nos separar, é algo extremamente perigoso de se fazer no momento.

            Seu Jair: Eu tô aqui com o oitão, qualquer coisa meto bala no que for.

            Ana: Muito bem seu Jair, mantenha os olhos atentos.

            Avançamos pela mata em direção ao local que o grito veio, se o escutamos tão alto, não devia estar tão longe dali. Andamos por cerca de 500 metros e avistamos a mochila de Zé Carlos, e ele jogado de bruços, como se tivesse dormindo. Não conseguíamos ver seu rosto, que se encontrava virado para o chão. Sem saber se ele estava desmaiado ou morto, Douglas avançou rápido para resgata-lo.

            Douglas: ZÉ CARLOS??!!?!? CARALHOOOO! QUE PORRA É ESSA???

            Douglas caiu para trás e quase que não conseguia falar uma palavra sobre o que havia visto. Eu avancei e observei aquilo que chocara Douglas, e lá estava agora um falecido Zé Carlos, com seu rosto, ou o que sobrou dele, em carne viva, como se tivesse sido comido por alguma fera terrível. As maçãs do rosto estavam todas mordidas, assim como seus lábios e parte do nariz. O rosto dele se transformou em quase um exemplar de aula de anatomia, expondo os músculos dilacerados de sua face.

            Seu Jair: Foi uma onça certeza!

            Maurinilse: QUE HORROR! TEMOS QUE SAIR DESTE LUGAR!!!!

            Ana: Calma Maurinilse, nós vamos sair, nem que tenhamos que andar a noite toda. Não podemos ficar aqui. Deixemos todo o equipamento e só levemos o essencial.

            Douglas: Não foi nenhum animal que pegou o Zé Carlos, olhe, não tem nenhuma marca nos braços dele. Um animal que acabou de abater sua vítima não iria se evadir do local assim tão rápido também. Se fosse uma onça teríamos dado de cara com ela.

            Ana: Tem algo além de nós nesta mata, algo que parece estar começando uma caça...

            Maurinilse: Oxê como assim algo? Só nós estamos aqui, a cidade fica muito longe para alguém ter nos seguido.

            Douglas: Temos duas mortes, não sei se podemos dizer que o Edmilson sofreu um acidente.

            Seu Jair: Caboclo nenhum conhece essas matas, não tem peão que ia vir aqui não.

            Ana: Mantenha a arma pronta Seu Jair, podemos estar sendo caçados.

            O pôr-do-sol é sempre uma mágica visão natural, seu tom alaranjado deixando a escuridão da noite adentrar é um show da natureza, mas naquele momento era um momento aterrador de desespero, pois com a ida do sol, não sabíamos o que a escuridão da noite poderia trazer.

            Douglas: Não acho que devamos manter as lanternas ligadas.

            Maurinilse: Se for bicho as lanternas são boas, se for homem, as lanternas vão ajudar o caçador.

            Ana: Voto por manter desligado e avançarmos devagar.

            Cada um de nós improvisou armas com madeira das árvores que encontrávamos aos montes ao redor. Contávamos com o revolver calibre trinta e oito de seu Jair, que tinha em suas seis balas o máximo de proteção de nosso grupo.

            O silêncio da mata na escuridão da noite só era quebrado por sons naturais, de insetos, alguns animais noturnos e pássaros que na noite evocavam seus chamados, mas nada que denotasse a presença de algo ameaçador. Em passos lentos e calculados, tentávamos avançar, mesmo que parecesse inútil o avanço pela mata. Não podíamos parar, precisávamos pelo menos chegar no abrigo base antes da saída daquela floresta, a qual sabíamos agora possuir algo de terrível.

            Em um clima de total tensão, o qual não desejo a nenhum ser humano, cada passo dado em que nada ocorria de estranho, era um alivio para a alma assustada de todos. Mas o alivio foi quebrado com o som mais aterrador que poderíamos escutar, o esturro da onça.

            Seu Jair: Falei que era a Onça!

            Douglas: Liguem as lanternas rápido!

            Maurinilse: Aí meus orixás, me protejam por favor!

            Ligamos as lanternas, movimento que parecia ter feito com que a possível onça se movesse rápido entre as matas. Podíamos escutar o som dos seus movimentos, e sentíamos ela se movimentando em uma velocidade que nunca havia sentido nenhum ser vivo se movimentar.

            Seu Jair: Parece que ela foi embora, onça tem medo de luz.

            Douglas: Não podemos contar com isso.

            Quando acalmávamos nosso coração, veio aquilo que mudou totalmente a organização dos quatro remanescentes do grupo, que naquela altura já nos considerava sobreviventes daquela expedição maldita. Pude escutar o som agudo de algo zunindo e passando por mim, o ar parece ter sido cortado por alguma coisa, causando instantaneamente um grito na escuridão da noite:

            Seu Jair: MINHA PERNAAAAAA!!!!

            Não tive tempo de lançar a lanterna e ver o que tinha atingido Seu Jair na perna, só podendo escutar os tiros disparados por ele. Tiros sem direção, pois não se sabia da onde havia vindo o que atingiu seu Jair.

            O que se sucede é uma confusão: As lanternas apontavam para todos os lados, por um segundo pude ver a perna de seu Jair transpassada por algo. Não havia sido um animal que o atingira, mas algum tipo de objeto pontiagudo. Os tiros cessaram, foram quatro tiros disparados pela vítima abatida na escuridão. Mesmo na escuridão, conseguia com a pouca luz que provinha de minha lanterna, reconhecer Douglas a minha frente, o qual agarrei o braço com força, em uma tentativa quase infantil de ter conexão de segurança com alguém.

            Seu Jair: PUTA QUE PARIUUUU! MINHA PERNA!!!!

            Douglas: O que te pegou?

            Seu Jair: Não sei, veio do meio da mata.

            Douglas mirou a lanterna e pode avaliar a perna de Seu Jair. A perna dele estava transpassada na altura da panturrilha por uma flecha, a qual sairá do outro lado, quase que no meio da canela. A flecha era de madeira, e a ponta dela era feita de uma pedra, consegui reconhecer, mesmo no pouco tempo de luz em foco, o design da ponta de flexa. Aquele instrumento era finamente ornamentado, toda serrilhada em suas bordas, amarrada com nó de cipós e encaixada na madeira de forma firme.

            Douglas: ESTAMOS SENDO MESMO CAÇADOS POR ALGUÉM!

            Ana: Alguém que consegue usar uma flexa de material arqueológico pelo visto.

            Douglas: Só pode ser o Nidelli!

            Ana: Cadê a Maurinilse?

            Douglas: Cadê ela?

            Ana: MAURINILSE??????!!!!!

            Maurinilse havia sumido na confusão, enquanto todos gritávamos, talvez ela tenha corrido pela mata, ou sido sequestrada pelo caçador, o qual agora tínhamos certeza ser o insano Professor Nidelli.

            Douglas: Foi o Nidelli certeza, ele nos trouxe aqui para nos caçar!

            Ana: Ele está reproduzindo o ritual descrito nas paredes parece.

            Douglas: QUE MERDA!!!! O que faremos agora? Maurinilse sumiu, o Seu Jair tem uma flexa na perna, e estamos muito longe de chegar no próximo abrigo.

            Ana: Ele não nos deixará chegar lá.

            Douglas: Só temos uma alternativa, voltar ao Complexo dos Sacrifícios e confronta-lo.

            Ana: Temos uma arma com duas balas.

            Douglas: Se formos por conta própria para lá, talvez ele nos deixe retornar.

            Ana: Ele agora deve estar nos observando.

            Douglas: Ele deve ter matado a Maurinilse já...

            Eu e Douglas apoiamos Seu Jair cada um de um lado, e iniciamos a volta voluntária ao Complexo dos Sacrifícios. Nosso plano era bem simples, tentar pegar Nidelli em sua insanidade, e com as duas balas que tínhamos, acabar com sua caça ritual e quem sabe resgatar Maurinilse ainda viva.

            Parecia que Nidelli nos deixou retornar, pois durante o trajeto nada ocorria. Seu Jair havia sangrado muito e dificilmente sobreviveria. Ao longe avistávamos a entrada do abrigo, que agora estava completamente iluminada pela luz de fogo, parecendo que estava vivo como quando no passado abrigou provavelmente por séculos um ciclo de sacrifícios rituais.

            Eu conseguia escutar os sons dos batuques e instrumentos, sons os quais nunca havia ouvido em minha vida, sons entoados por instrumentos antigos, e não parecia que ali havia somente um homem insano caçando jovens arqueólogos, mas sim uma tribo inteira nos esperando para o sacrifício.

            Ana: Ele não está sozinho!

            Douglas: Só pode estar, não haveria como ter mais ninguém.

            Ana: Mas e todos estes sons?

            Douglas: Que son...

            Enquanto conversávamos outra flecha zuniu, transpassando o pescoço de seu Jair e cortando o rosto de Douglas quando saiu do outro lado. Todos desabamos, com Seu Jair atingindo o solo rapidamente. Com uma flexa transpassada em seu pescoço, aquele senhor apenas tentava balbuciar algum pedido de ajuda, enquanto o sangue jorrava de seu pescoço e boca. Em poucos segundos, Seu Jair estava já morto, e nossas esperanças de sobrevivência parecendo distante.

            Douglas estava deitado no chão com seu rosto ensanguentado, não conseguia ver qual a dimensão do corte, mas parecia ter cortado toda a lateral do sua face, na altura do supercilio, exatamente onde ele apoiara a cabeça levando seu Jair, e de onde a flecha saiu o cortando.

            Douglas: CARALHOOOO!!! MEU OLHOOOOO, ELE FUROU MEU OLHOOOO!!! AHHHHHHHHIIIIIII

            Ana: VAMOS DOUGLAS, NÃO PODEMOS FICAR AQUI!

            Douglas: Não consigo andar, meu olho está sangrando.

            Joguei água no rosto de Douglas e pude ver que felizmente o olho dele estava bem, o rasgo foi um pouco acima de seu globo ocular, mas o sangue jorrava abundante, lhe cegando mesmo a vista. Amarrei com força um pedaço da camisa do falecido seu Jair no rosto de Douglas, contendo assim o abundante sangramento. Agora éramos somente nos dois contra Nidelli, ele deixara claro que somente queria nós dois naquele local.

            Ana: Vamos, não temos escolha. Entramos e você atira nele enquanto eu tento distrai-lo.

            Douglas: Temos duas balas, tenho pouca chance contra ele, ele está com algum lançador de flechas certamente.

            Quanto mais perto chegávamos, mais alto o som ficava. Os batuques aumentavam em ritmo, parecíamos estar adentrando outra dimensão temporal. Quando adentramos o complexo, ele estava totalmente iluminado pelas tochas, as quais refletiam os principais painéis.

 Em um dos painéis estava a pobre Maurinilse, nua, amarrada por cordas que a deixavam com braços e pernas abertas, tal como desmonstrava uma das pinturas que ornamentava as paredes, criando a cena mais chocante que vi em minha vida.

Maurinilse estava com sua barriga aberta, saltando suas entranhas para fora, enquanto ainda respirava, mas pouco conseguia dizer, tal era seu estado. Professor Nidelli estava no altar, nu e com o corpo todo pintado, uma pintura corporal que lembrava uma onça, mas que tinha sido recentemente banhado por sangue. Um detalhe que não podia deixar de notar, era que Nidelli estava com o pênis ereto, como alguém que estava em pleno ato sexual. Ele usava uma espécie de máscara, uma máscara de cabeça de onça, a qual parecia ser realmente ter sido feita a partir da cabeça de uma. Somente podíamos ver seu rosto através da boca da máscara.

Professor Nidelli: Finalmente chegaram aqueles que eu precisava. Os outros foram importantes para reavivar a magia do local, mas vocês são aqueles que vão definitivamente conectar o mundo terreno com a dimensão espiritual além! Se aproximem meus jovens, terminemos nosso ritual e satisfaçamos o desejo dos arcaicos espíritos destas matas.

Em sua insanidade, Nidelli nos pediu para nos aproximarmos. Douglas tinha o revólver, e quanto mais próximo chegássemos dele, melhor chance teríamos. Fingimos estar em confluência com sua insanidade, nos aproximando o bastante para ter maiores chances.

Douglas apontou a arma para Nidelli, e sem dizer mais nada, disparou seu primeiro tiro. Nidelli se abaixou e retornou arremessando uma lança, que atingiu o braço de Douglas, que só teve tempo de disparar mais um tiro, o qual pareceu ter atingido Nidelli no ombro.

Nidelli desabou para trás, deixando cair um machado, um machado com lâmina de pedra em formato semi-lunar, um tipo de machado ritualístico, e que pareceu ser o instrumento ritual que ele utilizaria em seu ato final. Os sons que escutava eram altíssimos naquele momento, e agora pareciam estar no ritmo mais acelerado que já escutara um conjunto instrumental. Conseguia escutar as vozes aceleradas e excitadas, com aquilo que parecia ser o ato final do ritual de sacrifício.

Douglas: PEGA O MACHADO ANA, EXPLODE A CABEÇA DESSE FILHO DA PUTA!

Eu corri até o altar e peguei o machado. Nidelli jazia caído sentado, somente observando meus movimentos, mas sem pedir clemencia ou demonstrar medo. No fundo de sua máscara, eu podia ver seus olhos vidrados, como se estivessem em êxtase psicodélico.

Nidelli: Vamos, acabe com isto! Você sabe o que tem de ser feito, está tudo descrito nestas paredes.

Douglas: ESTOURA A CABEÇA DESTE LUNÁTICO!

Com aquele machado antigo em punho, escutava os sons aumentando, quase em uma altura que podia escutar somente eles e não mais o que Douglas gritava para fazer.

            Com um golpe forte, vindo de cima para baixo, pude ver a lâmina atingindo a testa e abrindo a cabeça de minha vítima como se fosse uma fruta sendo aberta. O sangue jorrou pela lâmina do machado, e a expressão congelada de quem teve, talvez, um segundo de consciência de que o machado havia rachado sua testa ao meio.

            Lá estava no chão o sacrifício final, finalmente aquele macabro ritual havia sido realizado...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            Nidelli: Venha minha querida, vamos finalizar o ritual. Vida e morte são faces de uma mesma moeda, não há mais o que temer!

            Os sons continuaram aumentando cada vez mais, parecendo que os tambores estavam sendo tocados dentro do meu próprio ouvido. A luz da fogueira e do luar, aos sons dos atabaques e instrumentos antigos, o ritual foi finalizado. Xamã e a escolhida eram tomados pelo espírito do acasalamento felino, em um animalesco sexo findavam o hiato de energia espiritual que o complexo ficará por milênios.

            Retornei a civilização, sem olhar para trás, deixei todo aquele complexo e aquelas matas para sempre. Como que em transe, quando dei por mim havia retornado, sozinha, sem equipamento, sem nenhuma evidencia física que me ligasse á aquele lugar, sendo eu a única sobrevivente do grupo que dois dias antes adentrou aqueles domínios nefastos.

 A polícia me interrogou diversas vezes, mas minhas lembranças ficaram turvas, quase que desaparecendo frente ao confronto de quem gostaria de saber do destino daquela expedição. Não me lembrava do convite, da chegada, dos eventos, de nada... Somente me lembrava do Xamã Cabeça de Onça, o qual em minha mente constantemente reaparece.

            A Polícia e Bombeiros tentaram fazer buscas, mas nada encontraram, não havia resquícios de nada, dos corpos, dos equipamentos, nem sequer vestígios de alguém que passara por ali. Foi como se tudo aquilo não tivesse existido, e todos os membros daquela expedição, menos eu, nunca tivessem estado no hall dos vivos.

            Hoje sou reclusa, depois de mais de uma década, não mais se lembram da arqueóloga que sobreviveu ao “Complexo dos Sacrifícios”. Aquela expedição caiu na vala das lendas e mitos do ciclo da arqueologia brasileira. Hoje vivo distanciada do mundo, eu e meu filho, nascido nove meses após aquela expedição.

 Fico esperando o chamado do Xamã, talvez uma visita dele, ou quem sabe dos espíritos que alimentamos naquela noite.

 

 

 

Ana Maria Torres Medeiros. Toledo- Paraná- 9 de novembro de 2006





Créditos: Edição e Revisão: Nainy Garcia

           

 

           

           

            

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