Esconde-Esconde do Medo



    Esconde-Esconde é uma das brincadeiras preferidas das crianças até os dias atuais. Na minha infância não foi diferente, o Esconde-Esconde era minha brincadeira preferida. Adorava a adrenalina de estar me escondendo, vendo seu amigo passar por você e não te ver, de sair do esconderijo e correr com toda sua potencia infantil até o pique, vencendo assim, aquela singela brincadeira.

    Mesmo com essa sensação nostálgica do que é brincar de Esconde-Esconde, foi durante uma brincadeira dessas que passei o maior pavor de minha vida. Estive diante de algo que até hoje não consigo achar explicação para o que era. Só sei que por mais que três décadas passadas deixem nebulosas as lembranças do que vivi nesta experiência, aquele momento que estive cara a cara com um garotinho misterioso, ainda é nítida em minha mente.

    A casa de minha vó era uma extensa residência, com vários quartos, em que nos finais de anos, os parentes que moravam fora da cidade, ficavam hospedados durante seu tempo de visita. A casa toda apresentava muitas oportunidades de bons esconderijos, disputados por quase uma dezena de primos, que em plenas férias escolares, tinham como único objetivo do dia, se divertir ao máximo.

    Todos meus primos percorriam a casa em busca do seu esconderijo. Eu me afastei um pouco deles, achava que me esconder sozinho era mais vantagem, nunca se sabia quando seu companheiro ou companheira iria soltar uma risadinha, conversar, ou mesmo respirar alto.  Afastado da manada, vi na possibilidade do me esconder no quarto em que meus pais estavam hospedados.

    O dia estava bem claro, era no meio da tarde.  A sala estava iluminada, mas o quarto se encontrava em quase que total escuridão, com as janelas fechadas. Na porta do quarto, havia uma cortina branca, feita de material fino, que tinha sei lá, função de dar alguma “privacidade” a quem estivesse lá dentro. Transpassei a cortina, a qual gostava de puxar em baixo e avançar sob ela, como se passasse por baixo de uma onda. Ao chegar ao outro lado, o sol iluminou parcialmente o quarto, me dando uma visão dos elementos que compunham o quarto. Procurava um bom esconderijo, mas percebi, meio que por instinto, que havia algo que não era pra estar lá.

    Quando minha visão conseguiu distinguir o que me fizera sentir o estranhamento meu corpo paralisou. Eu, um pequeno garotinho magricela, por volta de seis anos de idade, não conseguia mexer nenhum dos meus finos músculo de meu corpo. As cordas vocais não tinham poder, não conseguindo emitir qualquer tipo de som. A mente ficou vidrada naquilo que enxergava em cima da cama.

    Lá na cama estava um garoto, parecendo estar tentando se esconder em meio as cobertas da cama. Comigo em total paralisa, aquele garotinho me olhou por alguns segundos, nem sei quanto tempo foi, mas pareceu que o tempo ficou parado naqueles segundos. Eu e o garotinho nos entreolhávamos, sem nenhuma ação de ambos os lados. Quanto a sua feição, não sei dizer exatamente como era, até mesmo no dia, detalhes de seu rosto não me ficaram na memória, era como se não houvesse um rosto, mas apenas de seu olhar que me recordo. Ele tinha um olhar profundo, que me faz até hoje apenas recordar deste detalhe. Passados estes segundos em que eu e o garotinho na cama nos encaramos, ele tomou uma ação. Rapidamente o vi puxando a coberta para cima de s. Ao se cobrir, pude ver o volume do cobertor se esvair, fazendo sumir a silhueta do corpo do garotinho que se cobriu.

    Quando a cena terminou, meu corpo continuava paralisado. Minha voz não saia, por mais força que fizesse em minha mente para gritar e chorar, não conseguia liberar nenhum grunhido.  Esta sensação durou um tempo do qual não sei precisar quanto foi, até que através de um grito engasgado, daqueles que temos nos pesadelos mais medonhos que temos, consegui sinalizar que estava com problemas.

    Passados alguns segundos mais de pavor, consegui me libertar da paralisia. Gritei e chorei a plenos pulmões, libertando assim meu pavor. Todos da casa se movimentaram, com adultos e crianças correndo para ajudar o pequeno parente em perigo. Eu só conseguia chorar, era difícil organizar em palavras aquilo que havia visto. Eu estava apavorado, aquele garotinho me assustou de uma forma que jamais tinha me assustado, e que jamais me assustei novamente.

    Depois de um tempo, minha mente se acalmou um pouco, e assim pude contar o que havia visto. Os adultos fizeram pouco caso, não deram atenção a minha história, era coisa de criança. Meus primos ainda acreditaram um pouco mais, uma prima mais velha inclusive, me pediu para desenhar o garotinho que havia visto, mas minha capacidade técnica era muito pouca pra conseguir reproduzir minha experiência. Mesmo com o alarde, em pouco tempo, uma outra brincadeira fez com que todos na casa se esquecessem do garotinho misterioso.

     As vezes tento pensar que o que vi foi obra de minha imaginação infantil mesmo, uma visão criada a partir do medo incutido em uma jovem mente. Mas quando relembro o pavor daquele olhar, do meu corpo paralisado, encarando frente a frente um ser que eu sabia que não era para estar ali, volto a sentir pitadas deste pavor. A cena do cobertor baixando e o garotinho sumindo, me arrepia enquanto escrevo estas linhas, quase libertando o pavor infantil que habita minha memória, me transportando para o dia em que brinquei no Esconde-Esconde do Medo.

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