Manhã de Libertação do Campo de Concentração
Me
desperto, não de um sono profundo ou de algum sonho, faz muito tempo que não
sei o que é ter isso, apenas me desperto por medo. Toda manhã pode ser a última
manhã. Quando despertamos, não sabemos quantos de nós vão se levantar, ou se ao
se levantarem, resistirão de pé. O despertador é sempre o barulho abrupto dos
guardas adentrando o alojamento aos berros, pancadas e chutes, além dos
cachorros latindo e ameaçando quem não cumpri a ordem de se por de pé. Ainda me
lembro do meu vizinho de beliche, que ao acordar se assustou com o cão latindo
defronte dele. O grito assustado dele, fez com que o cão lhe atacasse direto no
rosto, o mordendo de tal maneira, que só escutávamos os gritos lancinantes dele
enquanto o cão dilacerava cada pedaço de sua face. Mas nesta manhã nada
aconteceu ainda.
Olho para o lado, e vejo todos com
olhos bem abertos, deitados em suas camas, imóveis, suando, alguns tremendo
diante do medo do silencio sepulcral desta manhã. O tempo passa como em conta
gotas, e todos nós continuamos em nossas posições. Das frestas de madeira do
alojamento, vejo os feixes de luz iluminando o ambiente, me dando uma visão que
nunca havia tido da manhã no campo de concentração. Nunca havia estado neste
horário ainda deitado, durante este período, normalmente já estávamos vivendo o
jogo da sobrevivência, sem saber se eu, ou aqueles que ainda por aqui resistem,
vão chegar ao fim do dia vivos. A tensão toma conta do ambiente, consigo
escutar a respiração ofegante de vários de meus companheiros, assombrados pelo
medo da inércia.
A inércia no campo de concentração
normalmente vem seguida de violência e caos. Sabemos deste risco, então, apenas
aguardamos silenciosamente o momento que algo muito ruim vai acontecer. Sou o
primeiro a me levantar e sentar na cama. Quando me levanto, todos tentam buscar
olhares para minha movimentação. Fico sentado na cama, tento forçar minha visão
para o pequeno espaço da porta, imaginando que tipo de trama nossos algozes
planejam.
Durante este tempo, aprendi que a arte nazista se concentra em sua habilidade e criatividade em matar pessoas. Somos todos alvos para eles, que se divertem e se regozijam quando extraem o maior temor que um ser humano possa sentir. Já estou há tanto tempo neste lugar, sobrevivendo sei lá como, porque e por quem, que venço o temor de tentar descobrir o que está acontecendo. Muitos dos dias mal me lembro do meu próprio nome e passado, me tornando apenas um ser que ainda respira, quando por eles, nem devia ter o privilégio disto. Resolvo me levantar, já havia perdido praticamente tudo que tinha, não me importava mais o que fariam comigo.
Me levanto e me ponho de pé. Meus companheiros me olham com olhar temeroso, alguns parecem admirar minha coragem, outros desejam que eu desista e não leve adiante nenhum passo em direção a porta. Meus passos ressoam no assoalho de madeira. A cada passo, meus companheiros se apavoram mais ainda. Chego defronte à porta, não sinto nenhum nível de atividade do outro lado.
Por algumas das pequenas frestas abertas,
observo por uma fina faixa de visão, parte do pátio. Não sinto, não escuto e
não vejo nenhuma atividade externa. Coloco minha mão na porta, que só abre para
o lado de fora, e dou uma leve empurrada.
A porta se abre, uma surpresa, pois
estivera trancada durante todo o tempo que ali estive. No ranger do abrir da
pesada porta de madeira, muitos dos companheiros fecham os olhos, outros se
escondem debaixo da fina coberta, que com muito custo alguns adquiriram. Sem
meandros, a porta fica entreaberta. Neste momento, vários já levantaram seu
corpo da cama, acompanhando com olhos atentos minha movimentação.
Observo no espaço entreaberto da
porta, o pátio sem nenhuma atividade. Não consigo processar o que está
acontecendo, parece uma espécie de sonho lúcido, em que prevejo que ao dar um
passo para fora, serei abatido por algo que nem sei de onde veio.
Tudo está silencioso, só escuto a
respiração acelerada de meus companheiros. Meu coração palpita rápido também,
me fazendo sentir no peito, que sem musculatura nenhuma, se expande e recua em
ritmo acelerado, fazendo escorrer finas gotas de suor frio pela testa. Minha
boca está totalmente seca, me fazendo sentir minha língua áspera friccionando por
toda minha boca. Já estou longe demais para desistir, tomo coragem para colocar
a cabeça para fora da porta.
Avanço um pouco mais, mas ainda
estou dentro dos domínios “seguros” do alojamento. Ainda dou uma última olhada
para trás antes de avançar de vez para fora do alojamento, desta vez os olhares
de meus companheiros são de incentivo a continuar, eles querem saber o que está
acontecendo do lado de fora.
Quando coloco meu rosto para fora da
porta, sinto o vapor quente do sol já encandecendo ambiente. Meus olhos estão
fracos, não resistindo a luz intensa do
lado de fora. Quase não tenho visão do pátio enquanto avanço. Tampo com uma mão
o clarão do sol direto em minhas vistas, até que consigo enxergar o panorama do
pátio externo.
Como um deserto, tudo está em
completo silencio, somente escutando o som do vento assobiando um pouco. Olho
para o posto de vigia, e lá não vejo nenhum guarda em alerta, parecendo que
todos eles simplesmente sumiram. O cinza dos uniformes, o som pesado dos
coturnos batendo no solo, já não se fazem presente, me fazendo encarar um
ambiente que jamais imaginaria existir.
Enquanto vou caminhando lentamente
até o meio do pátio, um som ao longe me coloca em alerta. Escuto a sinfonia de
um carro de guerra avançando. Meu coração quase para, e em pleno calor daquela
manhã, começo a suar frio por todo o corpo. O som vem se aproximando de maneira
tão rápida, que tomo consciência de que em questão de segundos aquele carro
estaria passando por aquele pátio.
No meu alojamento, e nos demais do
campo, percebo o movimento rápido de todos se refugiando dentro dos quartos. Eu
já estou no meio do pátio, sem chances de voltar para dentro. E de que
adiantaria? Se for um tanque de guerra, como suponho, bastará um tiro para que
nosso mundo seja explodido, e nossos que nossos corpos sejam exterminados da
face da terra. Fico imóvel olhando para o portão principal, sabendo que em
pouco tempo algo surgiria daquele portão.
O carro de guerra quebra de uma vez
o portão, fazendo sua estrutura de ferro voar pra longe, emanando um som
pesado, que com certeza fez todos se esconderem de vez. Eu estou paralisado,
não me resta outra coisa se não ficar cara a cara com aquele tanque vindo
rápido pelo pátio.
Mesmo em um choque total, consigo
perceber que a cor do tanque difere da cor cinza da divisão Panzer dos
Nazistas. Havia desde o início da guerra visto e convivido com aqueles carros
de combate, e sabia que aquele ali não era um tanque nazista.
O tanque avança, mas para
repentinamente diante da visão de um homem cadavérico, que em um pijama
listrado, aparenta ser algum tipo de fantasma transitando por ali. O tempo de o
tanque parar e da escotilha abrir é curto, mas me parecem uma eternidade em câmera
lenta. Até o último instante, esperava ver um uniforme cinza saindo daquele
carro, e meu mundo despedaçar-se de vez. Mas sou surpreendido.
O uniforme não era o mesmo ao qual
estava acostumado, e as feições do soldado nada lembram a fisionomia de nossos
algozes. O homem que saí do tanque e me olha, não com um olhar ameaçador, mas
sim com um olhar incrédulo de me ver ali. Olho a minha volta, e vejo as pessoas
se apinhando na frestas das portas para assistir o desenrolar do meu encontro
com o soldado.
Eu fico encarando o soldado por
alguns instantes, sem mover um músculo, se quer minha respiração era possível
de se notar. O soldado apanha algo em seu bolso, em um reflexo instantâneo,
recuo diante do pavor do que ele pode tirar dali. Ele gesticula e repete várias
vezes “No, No, No!”, arrancando em seguida o conteúdo de seus bolsos:
“Cigarrets, Cigarrets, for you!”. O soldado estende o braço e me oferece um de
seus cigarros.
Penso em não apanhar o cigarro,
ainda desconfiando das intenções daquele soldado. Mas o olhar dele me transmite
segurança, e consigo não sentir perigo pela primeira vez em tantas luas que ali
estava enclausurado. Estico meu braço e apanho o cigarro, o levando
automaticamente a boca. O soldado se aproxima, risca um fosforo e se põe a
acender o meu cigarro.
Eu puxo a fumaça para meus pulmões,
mas a falta de prática, faz com que meu corpo rejeite todo conteúdo do
fumaceiro em meu peito. Começo a tossir com gosto, com o som da minha tosse
ecoando pelo pátio vazio. As portas dos alojamentos estão todas abertas, com
gente já quase vencendo o limite entre o interno e o externo. Eles acompanham
atentos a cena minha com o soldado.
Quando puxo a fumaça pela segunda
vez, sinto o tabaco inundar os meus pulmões, e minha cabeça sentir o alivio da
tragada. Solto a fumaça toda, expirando cada resquício dela contido em meus
pulmões. Neste momento nos damos conta do que está acontecendo, finalmente
estamos livres.
Observo a minha volta, e os
alojamentos vão sendo evacuados, por seres cadavéricos e sujos como eu, seres
que se quer se lembram dos simples confortos que a vida oferece. Os sons
começam a ecoar pelo pátio, e de onde estou, avisto um de meus companheiros de
cárcere, que desaba ao sair pela porta, abraçando suas pernas dobradas, chorando
copiosamente, como uma criança que não acredita no que vê. As lágrimas dele molham seus joelhos, e o som de seus
gemidos, são resultados de um turbilhão de emoções e de sentimentos guardados e
alimentados por muito tempo, sonhos que pareciam impossíveis já.
Os sons de gente chorando são a
sinfonia daquele pátio. Enquanto a maioria chora, outros rezam com fervor,
agradecidos pela dádiva da liberdade. Eu simplesmente sento defronte ao tanque.
Dou uma última olhada nos postos de guarda vazios, em algum grau ainda temendo
o surgimento dos uniformes cinzas e o som das metralhadoras em ação. Mas nada
acontece, parece que eles se foram mesmo.
Me dou conta de que o perigo passou,
de que aquele inferno não teria nem mais um dia de funcionamento. Tudo que faço
é olhar para o céu, não sabia qual era sua cor mais, passei tanto tempo olhando
para frente e para baixo, que se quer lembrava de seus contornos.
As finas nuvens cinzas tampam
parcialmente o sol, que mesmo com este obstáculo, brilha reluzente no céu. Puxo
seguidamente a fumaça para meus pulmões, expelindo cada vez menos acelerado o seu
o conteúdo. Liberdade, oh liberdade, o que seria isso?
Não sabia mais qual era o gosto
daquilo, minha boca se amargara com o forte sabor do cárcere, não mais se quer consigo
lembrar que gosto tinha a liberdade. O gosto da liberdade neste momento para
mim era do tabaco, do respirar pleno de meus pulmões, e da visão estonteante de
um céu, o qual posso apreciar sem medo.
O que haveria para além daqueles
muros? Que mundo havia resistido lá fora? Não sabia, nem se quer imaginava
haver mundo mais. A liberdade era um artigo de luxo distante, não tinha me
preparado para ela, havia esquecido toda e qualquer sensação de tê-la, mas
pouco importa, para mim só existia aquele momento, em que fumava um cigarro e
olhava o céu, eu estou livre, finalmente, livre.
Visão de Diego Souto Maior Colino durante cerimônia de Santo Daime no dia 20/01/2024

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