Pacto de Campeão
Prelúdio
Lanchonete
de posto de gasolina a beira da estrada, duas horas da manhã
(Que merda! AAAAH!!! Queria poder
gritar bem forte aqui mesmo! Gastei quase todo o dinheiro que tinha na viagem para
esse campeonato, perdi, e agora vou ficar sem nada...)
Gerald Ross: Por favor, me vê uma
porção de batata frita.
Atendente: Algo para beber?
(Só sobrou dinheiro para essa batata
mesmo...)
Gerald: Não obrigado, sou lutador,
não posso sair muito da dieta.
Atendente: Lutador?! Do UFC?
(Ah, se eu fosse do UFC... Com
certeza eu não estaria comendo no restaurante do posto de gasolina.)
Gerald Ross: Não, não... Sou lutador
de grappling, brazilian jiu jitsu, saca?
Atendente: Acho que já vi alguma
coisa, é tipo wrestling, não é?
Gerald Ross: Quase isso.
Cliente: Pode deixar que pago o
lanche com a bebida para o campeão.
Gerald Ross: Muito obrigado, senhor,
pena que não sou o campeão.
Cliente: Ainda não, mas pode vir a
ser, caso queira.
(Poxa, mal sabe ele que faz tempo
que eu não venço um campeonato... Sorte que ele não sabe, assim pelo menos vou
ganhar um lanche grátis.)
Cliente: Alexsander Volks.
Gerald: Gerald Ross, senhor.
Alexsander: Pode me chamar de Alec,
ou como queira, afinal, o campeão se refere ao povo como lhe convém.
Gerald: Não sei não senh... Alec, eu
estou numa maré braba de azar.
Alexsander:
Que isso, meu garoto, sinto em você a característica principal de um campeão, a
vontade de sê-lo.
Gerald: Mas só de vontade não se faz
um campeão, tem que ter talento também.
Alexsander: Talento se cria.
Gerald: O meu até agora não apareceu...
Alexsander: Diga-me uma coisa, o que
você faria se fosse o campeão?
Gerald: Primeiro, comeria em um
lugar melhor.
Alexsander: Justo, mas minha
pergunta é mais específica. Quais sonhos te movem a querer ser um campeão?
(Pergunta difícil, será que esse
cara quer me vender algo? Se for isso, ele está fodido, não sobrou nem um
centavo.)
Gerald: Não sei ao certo...Quero
sentir o gosto de ser o melhor, sabe? Quero ver as pessoas se renderem ao meu
talento, do mundo querer me pagar cada vez mais, mais e mais grana.
Alexsander: Muito bem! Ambição, esse
é o motor que move a humanidade. Se eu te dissesse que tudo isto está ao seu
alcance, talvez você não acreditaria, não é?
Gerald: Tendo em vista meus
resultados, é difícil de acreditar... Vou ser sincero com você, Alec, fui para
uma competição com tudo o que eu tinha, peguei cada centavo e apostei em mim
mesmo. Cheguei lá e não fui tão mal. Cheguei na final do absoluto, que são
todos os pesos combinados, e que pagava um valor maior de premiação. O prêmio
seriam quinhentos dólares, meu investimento em toda viagem havia sido de
duzentos, traria para casa trezentos de lucro, isso daria para eu treinar um
mês e me inscrever na próxima competição, que terá premiação de dois mil
dólares. Mas perdi... e agora estou completamente quebrado financeiramente. Parece
que esse jogo não é para mim...
Alexsander: Acho que vou chorar...
que história triste, meu garoto, mas, andando no tempo tanto quanto eu andei, já
escutei histórias muito mais tristes que a sua, e em todas, pude ajudar a mudar
estas realidades de infortúnios. Agora vamos fazer um pequeno exercício.
Gerald: Alec, eu acabei de tomar uma
surra, não consigo fazer exercício nenhum.
Alexsander:
É um exercício que não envolve força física, é só um vislumbre do futuro. Basta
fechar os olhos e começar a imaginar tudo o que você deseja. Vamos, se veja no
topo do mundo, vivendo todas as benesses deste novo universo.
(Caramba, consigo ver tudo o que
mais desejo! Está tão nítido na minha frente que parece real. Consigo ver eu
sendo ovacionado, o mundo pagando por cada técnica que eu ensino, uma mulher...
uma não, várias mulheres me desejando como o máximo símbolo do prazer... ah, eu
sou o rei!)
Alexsander: Hum, consegue ver bem
seu reinado, não é?
Gerald: Você está lendo a minha
mente?
Alexsander: Seu rosto transparece
sua predestinação à realeza, lugar para poucos, meu garoto.
Gerald: Eu quero ser o rei!
Alexsander: Um reinado se constrói a
base de sacrifício, doando tudo o que tem em prol da grandeza. Por milênios
tenho visto reis ascenderem e serem derrocados, é um ciclo sem fim. Mas sabe o
que todos eles têm em comum?
Gerald: O quê?
Alexsander: Todos eles aceitaram entregar
sua alma para sentirem o gosto do apogeu.
Gerald: Eu venderia baratinho a minha!
Hahaha.
Alexsander: Que isso, sou um
mercador milenar, conheço bem o valor de cada alma.
(Do que esse maluco tá falando? Só
sei que faz sentido para mim, talvez a única coisa que me fez sentido nos
últimos tempos.)
Alexsander: Você daria tudo o que
tem para ter a experiência de ser um rei?
Gerald: Eu não tenho porra nenhuma para
dar... Aceitaria qualquer negócio para ser um campeão, um rei, então, o que eu
tivesse para dar eu daria.
Alexsander: Gostei... Eu vi este semblante há muito tempo,
quando um jovem rapaz macedônio me olhou da mesma forma que você me olha agora.
Gerald: Não sei quem ele é, mas te
garanto que quero muito mais do que ele sentir a glória de ser rei.
Alexsander: Rei apenas! Faz-me rir! Este
rapaz conquistou o maior império já visto na história, meu inocente e incauto
garoto. Mas o deixemos para lá, vou ser direto. Olhe, garoto, posso lhe dar
tudo isto que sonhou, mas terá que me dar algo em troca.
Gerald: Não tenho dinheiro nenhum, e
se você for um tipo de caça talentos, diria que no momento deveria investir em
outro lutador.
Alexsander: Não, não! Eu não caço
talentos, eu faço talentos!
Gerald: Não sei dos seus métodos,
mas eu já tenho treinador.
Alexsander: Não vou te treinar, eu
vou apenas lhe conceder seu reinado.
Gerald: Esse papo está parecendo o
Diabo querendo comprar minha alma.
Alexsander: Hahahaha! Ai, vocês
inventam cada coisa. Parece até que sou o mal. Mas diga-me com sinceridade, o que
há de ruim em conceder o que as pessoas querem?
Gerald: Tá falando sério, cara?
Alexsander: Olhe aqui nos meus
olhos, eles são o espelho da alma. Não existe mentiras quando se fala olhando
no fundo dos olhos de alguém.
(Que isso? Parece que consigo ver
todo um mundo nos olhos deste cara. Quantos guerreiros! Quanto matança! Quanta
riqueza! Quanta luxúria! Posso ver tudo como se fosse real.)
Alexsander: Consegue ver tudo o que
proporcionei ao mundo? Os maiores poderes que reinaram sobre este mundo vieram a
ele como presentes meu à humanidade. Meu trato é simples, vou lhe dar o que
quer, tudo o que deseja, em troca você terá apenas que me agradecer a cada
conquista. Mas tenho que lhe dizer algo muito importante, este poder pode ser
quebrado. Seu apogeu será o maior já visto no mundo da luta, mas quando negar a
minha influencia nisto, depois de alcançar o seu auge e não houver mais
inimigos que ofereçam perigo à sua coroa, a sua queda será absolutamente vertiginosa.
Gerald: Mas por que eu negaria seu
poder? Se tudo isso que está me mostrando acontecer, lhe serei grato a cada
segundo.
Alexsander: Tanto tempo, e sabe que
chego quase a acreditar na gratidão do ser humano? Meu garoto, não apostaria
contra você, mas minha experiência transpassa o limite do tempo que um ser
humano consegue imaginar. Vocês sempre me prometem isso, mas ficam vaidosos
demais, arrogantes em excesso, egocêntricos, e começam a fantasiar que todo o
poder adquirido é do seu próprio mérito.
Gerald: Desta vez será diferente!
Alexsander: Parece que já escutei
isso em algum lugar do passado..., mas vou lhe dar este voto de confiança, pois
você está dizendo com tanta convicção. Eu gostaria de verdade que fosse
diferente com você, surpreender-me-ia demasiado, e quem sabe restauraria a
minha fé nesta experiência divina de ser que vocês são.
Gerald: Confie em mim, eu honrarei
nosso trato.
Alexsander: Então, vamos aos
negócios, garoto. Glorificar-me fará seu poder durar mais, seu limite será o
máximo poder, depois cairá, não importa o que aconteça. Este é o preço que
ofereço por um reinado. Viu? Sem enrolação, sem mentiras ou trapaças, eu te
prometo algo, você aceita, eu te entrego, você cumpre os termos, e estamos
combinados. E, então? Vais querer fechar o meu contrato?
Gerald: Tipo um pacto?
Alexsander: Quase isso, digamos que
está mais para um acordo entre cavalheiros. Lembre-se, comigo é sem mentiras ou
trapaças. Ninguém engana ninguém, eu te dou o que deseja, e se estiver disposto
a viver as duas faces da moeda, basta aceitar. Mas lembre-se, enquanto mantiver
o trato, será rei, descumprindo, inicia-se minha parte do acordo em que tudo
lhe é tirado. No mais, receberá exatamente o que lhe prometi.
Gerald: Só isso que tenho que fazer?
Alexsander: Só.
Gerald: Eu já estou vivendo no inferno,
cara, se tiver este gosto na vida pelo menos um dia, que seja, eu aceito
qualquer parada.
Alexsander: Fique tranquilo, não
será um só dia! Não posso precisar o tempo que durará, isso dependerá
exclusivamente do cumprimento da sua parte do acordo, mas posso lhe garantir,
será o bastante para que sinta todos os prazeres de ser um rei!
Gerald: Eu aceito, o que eu mais
quero na vida é ser rei, não importa os meios.
Alexsander: Acordo selado, então!
Gerald: Agora eu corto o meu dedo e
assino com sangue um contrato que vai tirar do bolso?
Alexsander: Hahahaha! Ai, ai, ai...
passa-se milênios e eu ainda me espanto com as coisas que vocês acham que eu
faço. Não precisa assinar nada, tudo o que faço é com a palavra e a vontade. Se
disser com o coração que deseja as glórias de campeão, aceitando a validade
imprevisível deste momento, já estamos acordados.
Gerald: Esse seu papo é muito
estranho, mesmo assim, se for para ter aquilo que me mostrou, eu aceito sem
pensar muito nas cláusulas do seu contrato.
Alexsander: Comigo o contrato é
sempre limpo, claro e sem letras miúdas que enganem meu contratante.
Gerald: Eu acredito em você, vamos,
então, me mostre o seu poder, me faça um rei!
Alexsander: Sendo assim, Bum!
Alakasan! Abacadabra! ... ou qualquer besteira que vocês inventaram como sendo
magia. Está feito, meu garoto.
Gerald: Achei que ia tremer tudo,
começar a pegar fogo, você se transformaria, mostraria seus chifres, e daria
uma risada macabra anunciando que a minha alma agora é sua.
Alexsander: Ai, ai ai.... Hahahaha! Pare
de ver filmes sobre mim, todos eles são feitos por gente que eu nunca vi, quer
dizer, vi alguns figurões desta indústria, mas, o meu encontro com eles não foi
diferente do nosso. Meu poder é só de fazer acontecer, eu não preciso de
nenhuma parafernália para demonstrá-lo, basta eu dizer faça, e está
realizado. O seu destino a partir de hoje está traçado, meu jovem. Agora,
despeço-me. A partir deste momento, torno-me um mero expectador de vossa
glória.
Gerald: E como faço pra te encontrar
caso surja alguma dúvida?
Alexsander:
Encontrar-me? Não, não, não mesmo... Considere-se um sortudo, eu apareço para
pouquíssimos, e não mais que um encontro. Confesso, não gosto de ficar muito
tempo com vocês, (sussurrando) a ambição e a maldade de vocês são assustadoras...
Portanto, não nos veremos mais, não adianta me procurar, me chamar, clamar aos
céus para que eu apareça, e tão pouco existe revisão do nosso contrato, isto é
um adeus de verdade. Não tem com o que se preocupar, é um contrato simples, e
diferente do que dizem, eu cumpro à risca aquilo que prometo, basta você
cumprir com a sua parte. O que está no contrato será cumprido, nesse caso, só
resta a você arcar com o ônus deste poder que lhe dou. Podemos sentenciar nosso
adeus?
Gerald: Sim, pode contar que caso me
dê tudo aquilo que me mostrou, não precisarei mais lhe procurar nesta vida ou
na próxima.
Alexsander: Eu sabia que era você o
homem que procurava para oferecer este reino! Olha, em milênios, poucas vezes
vi alguém tão obstinado quanto você, nem se quer você calculou os riscos de
vender a sua alma, gosto disso, é este tipo de gente que merece a grandeza máxima.
Despeço-me em definitivo, saiba que foi um prazer lhe conhecer, meu gar... quero
dizer, vossa majestade.
(Vossa Majestade! Vossa Majestade!
VOSSA MAJESTADE! VO...)
Atendente: Senhor?
Gerald: Aham?
Atendente: Aqui está o seu lanche.
Gerald: Hum?! Ah, sim, é que aquele
senhor de terno azul ficou de pagar.
Atendente: Senhor de terno azul?
Gerald: Sim, aquele que estava ali
no canto...
Atendente: Cara, são duas da manhã,
só temos eu e você neste posto.
Gerald: Pera aí, ele...
(O cara sumiu!)
Gerald: Irmão, desculpa, mas eu não
tenho dinheiro pra pagar tudo isso...
Atendente: Como não? Na sua mão deve
ter uns quinhentos dólares.
(Como assim? Tem quinhentos dólares
na minha mão!? De onde surgiu isto?)
Atendente: Parabéns mais uma vez
pelo título, estou honrado em conhecer um campeão!
Gerald: Campeão?
I
- Academia de Jiu-Jitsu do Mestre Coimbra
(Acho que dormi naquela lanchonete e
sonhei com essa parada de contrato, reinado, apogeu, queda.... Sei lá, aquilo
foi muito estranho. De onde surgiu esse dinheiro? Parece um tipo de
adiantamento. Seja como for, está na minha mão e ninguém reclamou ser o dono.
Vou investir em mim mesmo, quem sabe estou prestes a conquistar um reinado?
Hahahaha loucura demais...)
Gerald: Me desculpa Mestre, desta
vez eu não consegui...
Mestre Coimbra: Tá de sacanagem,
Gerald? Você acabou com todo mundo, que técnica! Continue nesse ritmo, que logo
os cheques ficarão maiores.
Gerald: Eu venci?
Mestre Coimbra: Bateu a cabeça voltando
para casa, rapaz? Gostei de ver você pegando aquele grandão na final, você o
fez parecer nada.
Gerald: Eu tive uma noite estranha,
mestre, sei lá... Pareceu que o mundo girou rápido demais.
Mestre Coimbra: Seja como for, temos
que começar a preparação para o próximo campeonato, e desta vez tenho uma
surpresa. Um ex-aluno meu, que está se especializado em atletas de ponta, viu o
vídeo da sua luta e me pediu para que você fosse lá pra Nova York treinar com
ele. Jack Donavan, já ouviu este nome?
Gerald: Sim, claro, ele está
despontando com vários lutadores realmente muito bons.
Mestre Coimbra: Então, ele é uma
máquina de jiu-jitsu, simplesmente genial. Ele é doutor de sei lá o que, e
parece um cientista maluco no tatame. Acho ele pra lá de estranhão...
sei lá, tem uma cara de psicopata, daqueles que você descobre que esconde
alguém no porão há uns trinta anos, mas dentro do tatame, você esquece tudo isto,
o talento dele para treinar um campeão é inegável.
Gerald: Nossa, mestre, nem sei o que
dizer. Gostaria muito, mas não tenho dinheiro para me manter em Nova York.
Mestre Coimbra: E eu lá falei em dinheiro?!
É tudo pago por eles, meu querido, é só chegar, se alojar e treinar. Tudo está
no pacote. Ele me falou, inclusive, que sentiu em você uma aura de campeão.
Gerald: Alguém me falou isso
recentemente, não lembro quem...
Mestre Coimbra: Vou te falar a
verdade, até este último campeonato, eu estava um pouco descrente da sua
capacidade, mas depois do que vi você fazendo, tive a certeza de que você está
predestinado ao sucesso!
II
- Academia JD Jiu-Jitsu- Cidade de Nova York
Gerald: Senhor Jake Donavan?
Jack: Olá, senhor Gerald! Prazer em
finalmente conhecê-lo.
Gerald: Eu agradeço, é uma hon...
Jack: Não precisa agradecer, isso
aqui é um encontro entre cavalheiros...
“...está mais para um acordo entre
cavalheiros. Sem mentiras, sem trapaças, eu te dou o que deseja...
Jack: Senhor Gerald?
Gerald: Desculpe, é que você falou
algo que me fez lembrar um sonho estranho que tive.
Jack: Pois bem, seja como for, volte
para o mundo real, e vamos começar nosso trabalho para fazê-lo um campeão. Reis
do esporte se fazem trabalhando na realidade, não em sonhos.
“Seu rosto transparece sua
predestinação à realeza...”
III
- Anton’s Gym- Centro de Preparação de Atletas de Alto Rendimento
Anton: Muito bem, Gerald, Jack me
passou todas as suas características, ele fez um dossiê completo do que você precisa
na questão física. E, vamos lá, primeiro de tudo, você é muito leve para ser um
campeão absoluto.
Gerald: É, senhor Anton... Eu estava
na pendura saca? Meu café da manhã, almoço e janta eram comidas congeladas.
Anton: Com o Jack cuidando de você,
agora suas refeições serão regadas com todos os nutrientes que precisa. Temos
urgentemente que levantar esta carcaça, você tem que ostentar força e poder!
Gerald: Comerei ao máximo, e, senhor
Anton, prometo que subirei de peso.
Anton: Só comida não dará conta de
formar esta estrutura. Olha, cada um tem um biotipo, e o seu é de no máximo um
peso médio ou meio pesado. Se deixarmos nas mãos da natureza, não conseguiremos
resultados rápidos, e, você sabe, para ter resultados em competição as coisas têm
que rolar rápido.
Gerald: O que faremos, então?
Anton: Simples, o que todos os
maiores atletas fazem: reforço externo, um acelerador de processo.
Gerald: Ahn?
Anton: Esteroides e anabolizantes,
meu garoto. A boa e velha “bomba”.
Gerald: Isso não faz mal para a saúde?
Anton: Escuta, garoto, você quer
chegar saudável na velhice? Ser um velhinho que tem sua casinha, que vai todo
dia na padaria, faz compras, cuida do jardim..., mas quando morrer se quer o seu
vizinho saberá o seu nome? Isso é bem mais fácil de ser feito, mas, se quiser
ser um rei, você precisa sacrificar algo.
“Um reinado se constrói na base do
sacrifício, doando tudo o que você tem em prol da grandeza.”
Anton: Então, garoto? Vai embarcar?
Gerald: Sem dúvida, senhor, para mim
nada vale mais do que alcançar a grandeza, custe o que custar, estou disposto a
pagar. Pode me dar toda “bomba” que precisar para me fazer um campeão.
IV - JD Jiu-Jitsu - Nova York
Jake:
Senhor Gerald, vou lhe explicar o conceito do modelo que estou desenvolvendo há
anos.
Gerald: Sim, senhor, me diga como
funciona, que vou lutar da maneira que você mandar.
Jake: Não, Senhor Gerald, meu modelo
será um norte, mas a sua técnica tem que nascer de você mesmo, do fundo da sua
alma.
Gerald: Alma?
Jake: Isso, alma. O seu jiu-jitsu tem
que ter alma própria, tem que ser único, especial, só seu, entende?
Gerald: Acho que não encontrei a
alma do meu ainda.
Jake: Você encontrará, tenho certeza
disto, sinto em você uma alma de campeão.
“Talento
se cria, meu rapaz.”
Gerald: Me explique o sistema
senhor.
Jake: Funciona assim, o sistema
brasileiro de ataque é progressivo. Por anos pesquisei cada ponto desta
engrenagem em progressão. Mas, pense comigo, os brasileiros estudam isto há
mais de um século, seria muito difícil vencê-los neste jogo que eles mesmos
criaram, e que eles mesmo organizam. Busquei um ponto de deslize no jogo deles,
mas só encontrava fortalezas. Até que consegui perceber uma grande falha neste
sistema. O sistema brasileiro ignora mais de cinquenta por cento do corpo
humano.
Gerald: Cinquenta por cento do corpo
humano?
Jake: Sim, pense bem... Pela sua
cara você ainda não sacou, né?
Gerald Ross: Não, senhor.
Jake: Os membros inferiores!
Conhecidos também como pernas. Pense comigo, isso equivale a cerca de cinquenta
por cento do corpo humano, e eles ignoram totalmente isto!
Gerald: Hum, estou começando a
entender.
Jake: Notando isto, criei um sistema
que vai trabalhar nesta falha. Em vez de progredirmos somente, iremos recuar e
atacar onde eles não esperam que será atingido. A partir de hoje você será um leglocker!
Gerald: Leglocker?
Jake: Sim, um exímio atacador de
pés, calcanhares e joelhos. Mostrar-lhe-ei a técnica necessária para torcer,
apertar e quase partir pernas de outros homens. Eles não esperam por isso!
Gerald: Alguém já fez isso antes?
Jake: Diria que já, mas você se
diferenciará deles por ter também toda a base sólida do jiu-jitsu brasileiro,
para, assim, combater nos pontos fortes do adversário também.
Gerald: Hum, gostei da ideia, me
parece uma boa estratégia.
Jake: Então, comecemos a botar em
prática, temos muito treino pela frente!
V - Madison Square Garden, NY, Evento do WWE
Gerald:
Que treino faremos aqui hoje, mestre?
Jake: Hoje você aprenderá sobre
personalidade e performance.
Gerald: No WWE? Como vou aprender
isso nessas lutas de mentirinha?
Jack: Confie em mim, nesta noite você
verá algo que agregará muito na construção do seu personagem.
Gerald: Personagem?
Jack: Escute bem, o lutador é um
personagem no palco. O tatame, na verdade, é um palco e as pessoas querem ver artistas
em boas atuações.
Gerald: Aqui eles são todos uns
palhaços fingindo serem lutadores.
Jake: Calma, senhor Gerald, reluz
muito mais ouro aqui do que em qualquer campeonato de jiu-jitsu que você tenha
ido na vida. Sabe por que toda essa gente vem assistir essas lutas combinadas?
Gerald: Por não conhecerem luta de
verdade?
Jack: Não, meu caro, hoje em dia
todo mundo sabe o que são lutas reais. Na verdade, elas querem ver uma história
que agrade. O WWE cria histórias, personagens e tramas envolventes. Você já viu
um estádio cheio assim em um campeonato de jiu-jitsu? Em quanto tempo você acha
que um torneio de grappling virá para o Madison Square Garden?
Gerald: Acho que nunca...
Jack: Então, as pessoas se sentem
motivadas a sair de casa para assistir uma luta somente quando tem algum
personagem que atraí a atenção, que magnetize, que tenha uma aura quase mística
de lutador, fazendo o público crer que aquilo é real, mesmo eles sabendo em seu
íntimo que não é. Está entendendo o que eu quero dizer?
Gerald: Acho que sim, ainda estou um
pouco confuso com essa ideia, mas eu te juro, mestre, eu ei de lutar um dia
nesse estádio.
Jake: Acredito no seu potencial, mas
para que isso seja feito, é necessário revolucionar, fazer com que nosso
esporte seja digno desta arena.
Luta
Principal: King Roger Vs Soberano Destruidor
Jack: Ótimo show!
Gerald: Ah, Mestre, isso é tudo
armado, coisa para criança assistir...
Jack: Liberte-se desse pensamento
atrasado, tente enxergar a beleza do espetáculo, da arte que nele reside.
Gerald: Não consegui enxergar isso
ainda...
Jack: Da luta principal, o que você
achou do lutador que venceu?
Gerald: Aquele que eles chamam de
King Roger?
Jack: Sim, ele mesmo.
Gerald: Ah, ele até deu umas
piruetas legais, mas dava pra ver que aquelas chaves eram pura encenação.
Jack: Eu sei disso, e todo mundo
aqui também sabe. Mas sinta a aura dele, ele tem a alma de um campeão. Naquele palco
ele transparece ser um verdadeiro rei.
Gerald: Um rei do ringue...
Vossa
Majestade! Vossa Majestade! VOSSA MAJESTADE! VO...
Gerald: Eu quero ser um rei como
ele, mas de uma luta de verdade, não quero que nada seja combinado. Eu serei o
senhor do destino de meus adversários.
Jack: Se deseja realmente ser o rei
do tatame, você precisa explanar esta aura no palco, faça resplandecer sua
mística de rei! Crie uma história que as pessoas queiram acompanhar, não faça
mais do mesmo, eleve o nosso esporte à glória que merecemos!
VI
- Campeonato Luta Pela Glória 38 - Grand Prix dos Campeões
Repórter da Finalgrappling: Gerald Ross! Que
performance! Você hoje fez os brasileiros parecerem perdidos no seu próprio
jogo.
Gerald Ross: Muito Obrigado, Mike!
Só tenho a agradecer meu treinador Jake, que me deu o mapa da mina, me
acompanhou por todo caminho e me fez chegar aqui neste estado de lutador. Não
posso esquecer do meu preparador Anton, que tem transformado meu corpo numa
máquina. E... um... um amigo que encontrei em um ponto baixo de minha jornada,
ele me prometeu, eu acreditei, e graças a ele as coisas mudaram. Ofereço toda
esta glória ao nosso acordo.
Mike: E agora? O que esperamos das
próximas apresentações do senhor Gerald Ross?
Gerald Ross: Anotem aí, vocês vão
ver o rei conquistar o seu reinado!
Mike: Com vocês o autointitulado rei:
GERALD ROSS!!!!
VII
- Podcast World Grappling
Jum do Podcast World Grappling:
Gerald, me fala aqui, cara, você surgiu do nada, e agora está enfileirando os
brasileiros que eram os bichos papões do jiu-jitsu, como isso aconteceu?
Gerald: Sabe, Jum, eu nasci para ser
rei, cara! Não estou falando da boca pra fora, não estou prometendo nada
não, já está escrito! Eu não vou parar enquanto houver alguém que desafie tomar
a minha coroa.
Jum: Hahahaha! Gerald, você tem sido
muito criticado por essa postura, de se autodeclarar o “rei do tatame”.
Gerald: Eu não me autointitulo, eu
sou o rei, já está escrito! Veja os sinais, Jum, estão aí bem na sua cara. Me
diga, quem tem ganhado tantas lutas como eu? Quem já encheu ginásios como eu?
Quem vende ou já vendeu mais pay-per-view do que eu? Fala a verdade, Jum,
depois que apareci a sua conta começou a inchar também, a de todo mundo, tem um
monte de gente tendo que agradecer ao rei Gerald Ross.
Jum:
Aí, Gerald...
Gerald: Rei, por favor.
Jum: Olha, Gerald, por enquanto será
apenas Gerald mesmo...
Gerald: Vai se arrepender, Jum,
Jum: Pode ser que não, vamos com calma,
cara! Ainda é cedo demais para dizer isso, aqui no chat tem muita gente falando
que você tem muitos adversários que podem te vencer, que tem muitos nomes da
história que você não faz nem um sopro se comparado, e que é jovem demais para
alcançar algo tão grandioso, e aí? O que você responde pra essa galera? E pra mim
também, que concordo em partes com os questionamentos.
Gerald: Bem... Eu posso parecer
maluco até, mas me estranha demais vocês se cegarem com tanta crendice. Eu vim
pra varrer estes nomes da história, a história deste esporte terá início com o
meu nome, e tudo o que veio antes disso será considerado arcaico. Eu não estou
nessa por brincadeira, eu vim pra conquistar um império, e tenho tudo o que
preciso para, definitivamente, marcar o meu nome como o maior da história.
Vocês verão cair castelo por castelo destes falsos reis!
Jum: Mas falta ainda o campeonato
mundial, lá não terá como correr destes “falsos reis” ...
Gerald (olhando diretamente para a
câmera): Ninguém mente olhando no fundo dos olhos, eles são o espelho da
alma. Joga a câmera aqui pra mim: eu vim pra conquistar, quem quiser ser
súdito do mais poderoso dos reis, basta me acompanhar e assistir a história ser
escrita!
Jum: Tem que mostrar lá, Gerald, não
adianta ficar só no gogó...
Gerald: Jum, eu trabalho todo dia
cara, eu vejo na academia minha capacidade, minhas performances dizem pra mim
quem eu sou, e se você comparar meus números com os dos melhores lutadores de
grappling da atualidade, faço eles parecerem amadores. O público está
percebendo, assistindo esses lutadores medíocres, em que tudo o que vemos são
lutas feias, sem graça, sem alma... Eu estou levando para o público algo
totalmente novo, uma dinâmica que nenhum deles pensou existir. O campeonato
mundial vai ser só o palco que vai demonstrar o poder que o rei tem em suas
mãos.
Jum: Confiança ele tem, pessoal,
então, não percam as lutas do senhor Geral...
Gerald Ross: Rei, por favor.
Jum: Depois do campeonato mundial
lhe chamarei somente de rei, para sempre, combinado?
Gerald: Poupe-se, Jum, se fosse você
já começava a chamar agora.
Jum: Hahahaha! Prefiro esperar para
ver.
Gerald: Você terá que dizer isso lá
no palco, na entrevista após a luta, e se reconhecer meu súdito.
Jum: Hahahahaha! Veremos... se você
fizer metade do que diz, me ajoelho e me torno súdito do rei do tatame,
combinado?
Gerald: Prepare seus joelhos, eles
vão se dobrar...
VIII
- Vestiário do Campeonato Mundial de Jiu-Jitsu No Gi
Jake: Nunca na história um
campeonato mundial foi tão assistido. Isso é fruto do seu trabalho, senhor
Gerald. Agora, está na hora de chocar o mundo, mostrar para ele que não há
outro rei, o rei é um só.
Gerald: Sim, Mestre, hoje o mundo
saberá que só existe um rei, o rei Gerald Ross!
Jake: Lá fora o público urge
desejando a sua derrocada.
Gerald: Eles vão ficar só na
vontade, pois eu ainda estou no começo, não há a menor chance da minha
derrocada acontecer. Eu vi em um sonho que sou predestinado.
Jack: Não confie nos sonhos, já lhe
disse que a vida acontece no real.
Gerald: Meus sonhos são diferentes,
eles me dizem o que sou, e este me disse muito.
Jack: Apesar de não crer em sonhos,
estou curioso, conte-me.
Gerald: Lá estava eu, um guerreiro
em uma época passada, vestindo uma armadura dourada, que reluzia como nenhuma
outra naquele campo de batalha. Eu caminhei até o centro do campo de batalha, e
ouvi os arqueiros lançando suas flechas. Mestre, as flechas tamparam o céu, não
havia mais o brilho do sol, formando-se uma escuridão sobre mim. Eu escutava o
zunido estridente e agudo do ar sendo cortado pelas flechas. Depois o sol começou
a brilhar em flashs, e ao meu lado o solo era penetrado pelas flechas, e eu
escutava o som do aço cortando a terra. Todas elas desabavam como uma torrente
em cima de mim..., mas quando o som silenciou, o céu se abriu e o sol voltou a
brilhar intenso, foi que me vi com a armadura toda intacta, com a armadura sem
nem mesmo um risco ter em seu dourado brilhante. Entendi o recado, o poder que
tenho não dará chance a quem tentar o meu corpo tocar.
Jack: Espero começar a acreditar em
sonhos depois desta noite...
IX
- Entrevista no Campeonato Mundial de Grappling
Jum: Tá bom, eu tenho que admitir, eu te critiquei
muito desde que você apareceu, disse não haver jovem mais desrespeitoso e
arrogante, mas hoje... sou obrigado a calar minhas críticas, sepultando o juízo
que tinha de você. A história do jiu-jitsu, do grappling, das artes marciais em
geral, foi mudada para sempre! Isso é fato consumado, nunca, ninguém, em nenhum
esporte de combate, pelo que eu me lembre, fez o que você fez hoje. Cara, o que
você tem a dizer deste momento?
Gerald: Eu sabia da capacidade dos
meus adversários, mas conhecia muito bem a minha própria. Hoje foi só uma
confirmação do que estou falando há meses, lembra?
Jum: Tá legal, já me desculpei,
também, depois de finalizar todas as lutas antes dos seis minutos, meu irmão,
parece que você estava possuído neste tatame!
Gerald: Te digo que estava mesmo, eu
estava possuído pela alma do rei. Eu vim hoje para destruir castelos, conquistar
e construir meu império. Quem viveu para ver, assiste hoje o início do meu
reinado. E você prometeu se tornar meu súdito, Jum, lembra?
Jum: Promessa é dívida, né?! E de
joelhos, eu reconheço: O REI GERAAALD ROSS!!!
Jum: Algum agradecimento, rei?
Gerald: Os de sempre, de quem vem em
meu séquito, acreditando na construção do meu reinado. Vamos lá, aos meus
treinadores, meus parceiros de treino, minhas mulheres...
Jum: Mulheres?
Gerald: Um rei se dá ao luxo de ter
várias mulheres.
Jum: Hahahaha! Certo... mais alguém?
Gerald: E sem nunca esquecer, àquele
que me concedeu este reinado, mantendo nosso acordo. Toda honra e glória a ele.
Jum: Algum recado final?
Gerald (olhando diretamente para a
câmera): Escrevam nos livros de história, Gerald Ross nesta noite se tornou o rei
do tatame, e a partir deste dia, o resplandecer de sua glória brilhou sem
fim!
X
- Documentário Finalgrappling- Em nome do rei, a vida de Gerald Ross
Na
mansão Ross, take na garagem.
Gerald
Ross: Estes daqui são os carros do GR. O rei usa a camionete para ir à
academia, à noite, gosta de sair com esta BMW, sempre quis ter uma vermelha e outra
branca. Sabe, os carros representam a opulência do reinado de GR.
Take
na piscina.
Gerald Ross: Aqui estão Amber, Samantha e
Briene, as três rainhas do reinado de GR. Sabe, as pessoas comentam, mas
somente um rei pode ter uma infinidade de esposas e concubinas. Desejo espalhar
minha semente, criar um exército de príncipes e princesas que levem o meu
legado.
Take na
sala de troféus.
Gerald Ross: O GR estava predestinado a ter
todo este reino, eu vi isso escrito em uma passagem bem antiga da vida deste
lutador. A vida de rei tem sido incrível, em menos de cinco anos, GR conquistou
o mundo! Cara, é a história de quem veio no nada, de quem não tem pedigree no
mundo da luta, simplesmente moldado pelo talento e determinação de um homem
sabedor de seu destino. É doido pensar que este homem há cinco anos estava
trabalhando em obras, ganhando dinheiro apenas para o básico, às vezes nem
isso. Ele treinava de favor, morava de favor, e lutava de favor também. Agora
quando olho para trás, eu só vejo o quanto, o quanto este homem estava predestinado,
o quanto havia dentro dele um desejo de grandeza, que em uma noite se
libertou... Pera aí, corta essa parte.
Diretor: Todo o take?
Gerald: Todo não, só esse final aí
sobre a noite e tal...
Diretor: Achei que ficou
interessante, estava entendendo mais ou menos o que estava tentando dizer,
deveríamos deixar, o público vai gostar.
Gerald: É uma fantasia minha, apenas
um sonho que eu tive... Não quero deixar nada de misticismo no filme, já é hora
de deixar essa parada para lá. Dizerem que meu poder vem de algo externo, não
fica legal, pois eu sou apenas a história de um homem americano que se fez por
si só.
Diretor: O filme é seu rei, se assim
deseja, assim será.
XI
- Desafio do Greatest Of All Time - Conferência Pré-Luta: Gerald Ross VS Ângelo
Galdino
Jum (mediador):
Que momento para o jiu-jitsu, não só para o jiu-jitsu, mas para qualquer um que
goste de artes marciais. Gerald Ross o cara que revolucionou a luta, e que vai
ter pela frente o maior desafio de sua carreira, Ângelo Galdino, o campeão
invicto, que estava aposentado, e voltou somente para este desafio do G.O.A.T
(Greatest of All Time). Como vocês veem essa chance?
Gerald: Quer começar, coroa?
Ângelo Galdino: Olhe para este
rapaz, ele é um péssimo exemplo para o esporte. Ele é desrespeitoso com os
grandes mestres, ele desrespeita seus adversários, humilha pessoas, além de ser
um devasso, indecente, imoral, drogado... e se intitula rei? O único rei que
reconheço é Jesus Cristo.
Gerald: É disso que eu falo, é
sempre o mesmo papinho! Jesus, açaí e suco natural... Saia de trás desta
faixada, Ângelo, eu e você estamos aqui pela mesma coisa, por um reinado, é
tudo por ser reconhecido como o único.
Ângelo: Para mim, único é somente
Jesus Cristo.
Gerald: Cuidado, pode ser que eu
promova um encontro pessoal seu com ele amanhã...
Jum (mediador): OOOOOHOOOOU!!!
SEGURA O HOMEM AÍ.... Maaan... achei que ia sobrar para mim agora. Que loucura!
Estou até tremendo aqui, olha... É muita adrenalina! Se vocês sentissem aqui o
poder e vontade que estes caras e têm... precisou de um batalhão para conter
eles para luta não acontecer aqui, ao vivo. Não percam a luta que vai definir
em definitivo quem é o rei deste esporte!
X
- Luta Gaudino vs Ross
Narrador: O que
estamos presenciando aqui, meu povo? É simplesmente uma cena jamais vista neste
esporte. Um campeão, quer dizer, o maior campeão da história desta modalidade
de combate, vencido de maneira avassaladora, e por um jovem que recém completou
vinte e sete anos... é isso mesmo, ele só tem vinte e sete anos e pode ser
considerado o maior de todos os tempos desta arte marcial.
Comentarista: A trajetória dele é
incrível, ele ascendeu de maneira meteórica. Há pouco mais de quatro anos, eu
nem se quer sabia que ele existia, e neste curto espaço de tempo, ele dominou
os melhores lutadores, enfileirou os brasileiros, donos do esporte até então, e
agora faz isso aí que vocês acabaram de ver, finaliza Ângelo Gaudino, o maior
campeão que este esporte já havia visto. E em quanto tempo?
Narrador: Cinco minutos.
Comentarista: Isso, em cinco
minutos, ele precisou apenas de cinco minutos para liquidar o maior campeão da
história.
Narrador: O Jum está com ele lá. Vamos
às palavras do agora reconhecido o único rei do tatame:
Jum: UWAL! UWAL! Eu não consigo
parar de repetir isto, que performance! Cara, eu assisto este esporte desde
garoto, fiz a cobertura de todos os campeonatos mundiais que o Ângelo venceu, e
nunca ninguém o havia finalizado, quem dirá em cinco minutos. Me diz, rei, como
isto aconteceu?
Gerald: Jum, dá uma olhada no seu
bolso.
Jum: No meu bolso?
Gerald: É, deixei um envelope para
você quando te cumprimentei antes do combate começar.
Jum: Deixe-me ver... ah, está aqui
mesmo. Olha meu povo, isso não é armação tá?! Eu nem percebi ele deixando isso.
Gerald: Está gravado, dá pra ver eu
deixando lá.
Jum: Deixe-me ver... Esta é a
caligrafia do rei, eu reconheço fácil. E, vejamos... Está escrito... Foca aqui:
CRUCIFIXO - CINCO MINUTOS DE COMBATE!
Gerald: Eu falei que cumpro com
aquilo que prometo... Até hoje quem desconfiou de mim, quem apostou contra, e
quem quis jogar do outro lado, perdeu... Hoje, só resta a estes poucos
descrentes reconhecerem a grandeza deste Rei. Não dá mais para negar, nem
fingir ou ignorar, este esporte está de joelhos glorificando seu rei.
Jum: Concordo contigo, Gerald, hoje
você chegou ao auge, seja físico ou técnico, o que estamos assistindo é a
apoteose de um craque dos esportes de combate!
Gerald: NÃO, NÃO, não...
Jum: Hum?
Gerald: Quer dizer... Sim, é um
grande momento, mas estou longe do meu auge.
Jum: Olha, Gerald, quando olho no
horizonte do esporte, não vejo mais postulantes a tirarem sua coroa.
Atualmente, não há lutador neste planeta que seja capaz de rivalizar contigo
nas regras do grappling.
Gerald: SIM, HÁ!
(...)
Gerald: Bom, por hoje, deixemos essa
discussão de lado, eu quero curtir a vitória e meu reinado. Então, me despeço
de meus súditos agradecendo a todos que tornaram isso possível, principalmente
a quem fez e faz tudo isto acontecer, eu mesmo.
Jum: Senhoras e senhores, o rei
incontestável, mr. GERAAALD ROOOSS!
XI - Academia GR SQUAD - NY
Gerald:
Mestre, aquele sonho aconteceu novamente.
Jack: Qual sonho?
Gerald: O mesmo que detalhei antes
do primeiro mundial que ganhei.
Jack: Aquele das flechas?
Gerald: Isso, exatamente, aquele das
flechas.
Jack: Desta vez o senhor não me
parece tão animado quanto da vez que me contou no vestiário antes das lutas no
mundial.
Gerald: Desta vez foi muito
diferente... Quer dizer, totalmente igual no início. Eu estava lá, naquele
campo de batalha novamente, vestindo minha armadura reluzente. Caminhei até o
meio do campo de batalha, mais uma vez o sol brilhava em céu aberto, refletindo
seus raios em minha armadura, que agora brilhava ainda mais que na primeira
vez. Ao longe eu via uma legião de arqueiros, todos com seus arcos em riste,
apontando para o céu, como se fossem alvejar o próprio sol que iluminava o dia.
O comandante deu o sinal, e em um uníssono movimento, as cordas lançaram as
flechas no ar, entrecortando o vento, ouvia o zumbido delas se aproximando. Da
primeira vez, temi a chuva de flechas se aproximando, quando a sombra caiu
sobre mim, fechei meus olhos, mas desta vez, eu simplesmente sorri e abri meus
braços, sentindo o sabor do vento em meu rosto, chamando-as todas para virem
sem dó. Quando foram se aproximando, meus olhos, agora bem abertos, enxergavam
a chuva delas se aproximando de minha visão, mesmo assim, eu continuava a
sorrir. Até que elas chegaram todas ao mesmo tempo, penetrando meu globo
ocular, sendo cada centímetro da penetração do aço cortante sentido pela minha
pele, carne e ossos. Todo o meu corpo estava fincado no solo, transformando-me
em um jardim de flechas no chão, com o dourado de minha armadura se extinguindo
na cena...
Jack: Senhor Gerald... Naquela noite
posso até ter acreditado um pouco no seu sonho, mas ainda creio que eles são
apenas imagens criadas por nosso subconsciente durante o processo de descanso
do órgão cerebral. Não leve isso muito a sério.
Gerald: Não sei se era um sonho...
Eu ainda consigo ver tudo acontecendo, lembrar a dor de cada uma daquelas
flechas penetrando o meu corpo, como se tivessem realmente me alvejado.
Jack: Vai por mim, foi apenas um
sonho, senhor Gerald...
XII
- Finalgrappling Television
Apresentador: O
que vocês acham desta volta do rei Gerald Ross?
Comentarista 1: Olha, não sei muito
o que pensar. Pense no que aconteceu nos últimos três anos. Foram apenas dois
combates... E lutas contra lutadores, que, vamos combinar... Não tinham nível para
desafiar a técnica do rei.
Comentarista 2: Bom, eu concordo
contigo que o retorno está ruim. Também, foram três anos bem difíceis para ele,
problemas de saúde, o que esse cara tem no estômago? Nenhum médico descobre.
Perdeu o treinador, por mais que ele diga que não precisa de mais ninguém, a
conexão dele com Jack era essencial. Fora os problemas com a justiça, ele tem gastado
uma fortuna com advogados para livrá-lo das tantas confusões em que se mete.
Comentarista 1: Você se esqueceu de
mencionar o abuso de drogas.
Comentarista 2: Tem mais essa...
Comentarista 1: Ele negou até onde pôde,
mas é visível o impacto que o abuso de drogas tem causado no rei, cara, ele só
tem trinta anos! Não deveria estar se apresentando fisicamente da maneira que
temos visto nos últimos tempos.
Apresentador: Parece que os anos de
glória do Rei estão ficando no passado.
Comentarista 1: Vamos ver, ele vai
encarar a jovem promessa Yoel Márquez. Não acho o Márquez tão bom quanto o rei
em seu auge, mas... Nas condições em que se encontra o rei Gerald Ross
atualmente, vejo ele fazendo frente.
Apresentador: Quem sabe é hora de o
rei passar a sua coroa?
Comentarista 2: Pode ser que seja
mesmo.
XII - Ross vs Márquez
Narrador
Finalgrapling: O que estamos assistindo hoje é, como poderia dizer? Para mim,
pelo menos, triste de se assistir...
Comentarista:
Olha, é triste mesmo... Não consigo imaginar que o lutador que está se
apresentando esta noite é o mesmo que chocou o mundo cerca de quatro anos
atrás.
Narrador:
Assistimos um Gerald Ross lento, totalmente fora de forma, sem ritmo, com a
técnica desajustada... Ele está sendo totalmente dominado, é um monólogo de
Yoel Márquez.
Comentarista:
Parece que o fim está próximo, não está parecendo que o Rei vai aguentar chegar
ao final do combate.
Narrador:
Olha lá! Márquez chegando nas costas!
Comentarista:
Ele travou a posição e já está passando o braço.
Narrador:
Tantos oponentes sucumbiram desta maneira contra o rei, agora assistimos ele
experimentar do seu próprio veneno.
Comentarista:
O rei parece totalmente dominado...seu reinado parece próximo do fim.
Narrador:
VAI PEGAR, HEIN! O REI SE CONTORCE EM DESESPERO!
Comentarista:
Passou o braço no pescoço, ih, vai pegar!
Narrador:
VAI BATER OU DORMIR? VAI BATER OU DORMIR?
Comentarista:
DORMIU!!!
Narrador:
O REI GERRALD ROSS APAGOU! SUFOCADO COM O MESMO MATA LEÃO QUE TANTOS ELE FEZ SUCUMBIR.
Comentarista:
É o fim de uma era, assistimos aqui ao final do reinado de Gerald Ross!
Narrador:
Triste final... Eu me tornei fã dele por conta das tantas apresentações
impecáveis. É lógico que o legado dele não se encerra com esta derrota, que
temos que pontuar que foi acachapante, ele foi completamente dominado, sem que
tenha havido qualquer disputa.
Comentarista:
Com certeza tudo que o Gerald passou nos últimos anos interferiram para chegar
a esse resultado, a questão é, será que ele consegue voltar ao alto nível?
Narrador:
Olha, sendo realista, pois não consigo enxergar que Yoel Márquez é tão
dominante como Gerald foi durante seu reinado, mesmo assim, a performance desta
noite não dá esperança de vermos Gerald Ross conseguindo se reerguer, ele
parece muito, mas muito distante disto.
Comentarista:
Uma pena, ele tem só trinta anos de idade, e está parecendo ter muito mais
idade que isto. A forma parece que ficou no passado, a saúde visivelmente está
mal, fora a falta de organização de seu staff e treinamento, hoje ele provou
que sozinho nem mesmo o rei desta arte consegue ficar no topo.
Narrador:
O reinado de Gerald Ross se encerra esta noite, uma noite, digamos, amarga para
o amante do grappling, pois todo fã esperava ver nem que fosse uma fagulha da
genialidade de Gerald, mas hoje não enxergamos nada do que o fez ser aclamado
como rei...
XIV
- Consultório Doutor Palermo
Gerald: Muito bem,
doutor, em quanto tempo consigo retornar à luta?
Dr. Palermo: Gerald, eu venho te
acompanhando há muito tempo, e com meus quase trinta anos de experiência, nunca
vi uma doença avançar tão rápido. Conseguimos controlar sua síndrome por alguns
anos, mas de dois anos pra cá, parece que o quadro clínico da sua doença evoluiu
décadas.
Gerald: Doutor, por favor, eu só
quero saber quando poderei voltar, eu não estou nem aí se a síndrome evoluiu ou
não, só me diga o tempo que terei que esperar!
Dr. Palermo: Sinto lhe informar, com
a condição clínica que está apresentando, você não tem mais condições de lutar.
Se não controlarmos a evolução da doença, temo que em breve nem mesmo as suas
atividades cotidianas você será capaz de realizar.
Gerald: Você só pode estar brincando,
doutor... Como assim? EU NÃO POSSO RETORNAR?
Dr. Palermo: Gerald, eu não sou
treinador e nem lutador, mas basta dar uma boa olhada no espelho. Veja como seu
corpo tem gritado por ajuda, é nítido que há algo errado nele.
Gerald: O que pode estar causando
isso?
Dr. Palermo: Gerald, somos sempre
sinceros aqui, eu venho lhe avisando faz algum tempo que o uso abusivo de anabolizantes,
aliado à sua vida desregrada na maior parte do tempo, formaram uma combinação
que uma hora iria cobrar seu preço.
Gerald: Como se eu fosse o único
lutador a usar isto! Todos eles fazem uso tanto ou mais do que eu. O Ronaldo “Robocop”,
por exemplo, ele tem quarenta e cinco anos e está lutando em alto nível.
Dr. Palermo: Cada corpo é um
universo em si, Gerald, a forma que este universo reage aos diferentes
estímulos externos é muito variada. Você, infelizmente, nasceu com esta
condição congênita, e os anabolizantes aceleraram o avanço desta doença. Desculpe-me,
sinto-me mal por ter de dar esta notícia.
Gerald: Isso não vai ficar assim, doutor,
eu vou voltar, eu tenho que pegar a minha coroa de volta, eu sou o único rei,
eu preciso reconquistar o meu reinado!
XV
- Escritório de Advocacia Master
Jesse O’ Brian: Gerald, a sua situação
jurídica e financeira encontra-se colapsada.
Gerald: Como assim? Eu ganhei mais
dinheiro do que qualquer outro lutador deste esporte ganhou na história!
Jesse: Mas seus gastos foram, de
acordo com a contabilidade, três vezes maiores que todas as riquezas que você
acumulou.
Gerald: Investi em bens valiosos, eu
construí um patrimônio sólido.
Jesse: Veja, Gerald, foram muitos
processos, inúmeros acordos que eu e os outros advogados desta firma tivemos
que costurar. Você simplesmente não teve escrúpulos em suas ações, e mesmo nós,
os melhores advogados do ramo, não conseguimos te salvar da falência.
Gerald: Falência?!
Jesse: Sim, Gerald, você faliu. Os seus
bens mal pagam o que deve em impostos, indenizações, enfim, dívidas diversas, e,
nem mesmo suas contas básicas. Nossa sugestão é que peça falência e tente
recomeçar a sua vida do zero.
Gerald: SEUS ABUTRES FILHOS DA PUTA!
ONDE VOCÊS ENFIARAM A PORRA DO MEU DINHEIRO?
Jesse: Acalme-se, senhor Gerald, ou vou
ser obrigado a chamar a segurança!
Gerald: VOCÊS ME FUDERAM, AQUELAS
PIRANHAS ME FUDERAM, AQUELES PATROCINADORES FILHOS DA PUTA! TODOS VOCÊS ME
FUDERAM!!!
XVI
- Posto de Gasolina à Beira da Estrada
Gerald:
Amigo, me diz uma coisa, você alguma vez viu aqui um senhor mais velho? Ele usava
um terno azul marinho bem alinhado na vez que o encontrei, isso foi há cerca de
cinco anos. Quando o vi ele estava sentado ali naquela mesa.
Atendente:
Irmão, vem um monte de gente aqui todos os dias, e eu estou nesse trabalho faz
só três meses...
Gerald:
Talvez alguém que trabalhe aqui há mais tempo possa ter visto ele no passado.
Atendente:
O posto foi comprado há cerca de dois anos, mudou todo mundo praticamente, acho
difícil o senhor encontrar alguém desta época.
Gerald:
Escuta, meu amigo, eu tenho que encontrar esse cara, ele me sacaneou, saca? Me
prometeu algo e não cumpriu.
Atendente:
Não sei do que você está falando. Desculpe, não posso ajudá-lo.
Gerald:
Eu tenho que encontrá-lo! EU PRECISO ENCONTRÁ-LO!
Atendente:
Olha, melhor você dar o fora daqui! Eu estou armado e, se precisar, vou atirar.
Gerald:
Garoto, você não tem ideia do inferno que eu estou passando! O INFERNO QUE EU
ESTOU PASSANDO!
Atendente:
Gerald:
VAMOS! ME MANDA MESMO, QUERO ENCONTRAR AQUELE FILHO DA PUTA LÁ NA CASA DELE E
DIZER NA CARA DELE QUE ELE É MENTIROSO! SAFADO! COMO ASSIM, QUATRO ANOS?! QUE
PORRA DE REINADO QUE DURA QUATRO ANOS?!
Atendente:
VOU CONTAR ATÉ TRÊS: UM...
Gerald:
EU VOU PEGAR AQUELE SAFADO!
Atendente:
DOIS...
Gerald:
Tudo bem, estou vazando, você não tem nada a ver com isto mesmo. MAS SE ESSE
FILHO DA PUTA CONSEGUE ME OUVIR, SAIBA QUE VOU ATRÁS DE VOCÊ NO INFERNO, VOCÊ
ME SACANEOU, E EU VOU TE PEGAR UM DIA!
XVII
- Hospital Geral de Nova York
Enfermeiro: Senhor Gerald, como está
se sentindo hoje?
Gerald: Um pouco pior do que ontem,
e com certeza melhor do que estarei amanhã...
Enfermeiro: Seu quadro é bem
complicado, Senhor Gerald, tenhamos fé que sua condição comece a apresentar
melhora.
Gerald: Tive fé uma vez na vida, e
foi isso que me levou até aqui...
Enfermeiro: Fico triste em ouvir
isso, senhor Gerald, sabe, acompanhei sua carreira quando era mais novo, fiz brazilian
jiu-jitsu por um tempo na adolescência, e sei o quão brilhante foi seu reinado.
Gerald: Sabe, rapaz, Tyron, né?
Enfermeiro: Isso, como está no meu
crachá.
Gerald: Pois bem, Tyron, isso não
vale de porra nenhuma, depois que passa seu momento, você acaba que nem eu,
sozinho, quando se perde tudo, não fica ninguém... Eu vim do nada, tive tudo, e
hoje tenho menos do que eu tinha quando não tinha nada.
Tyron: Mas me diz aí, eu fui um
lutador medíocre, se quer ganhei o campeonato regional, qual é o gosto da glória
máxima?
Gerald: Ah, senhor Tyron, tal como
lhe chamaria meu falecido mentor, para mim, a glória é o melhor gosto do mundo,
não há nada igual a ela...
Tyron: Temos vidas totalmente opostas,
mas lhe invejo por ter tido esse privilégio... Bom, tenho que ir, tenho muitos
mais pacientes para cuidar. Ah, antes que eu me esqueça, parece que tem uma
visita agendada para o senhor.
Gerald: Visita para mim?
Tyron: Isso mesmo, foi o que me
passaram.
Gerald: Quem iria me visitar? Faz
anos que ninguém se quer me manda uma mensagem, enfim, espero que não seja
alguém cobrando algo do passado.
Enfermeira: Senhor Gerald, temos
visita.
Gerald: Seja quem for, mande entrar,
não tenho nada melhor pra fazer mesmo.
(...)
Visitante: Rei?
Gerald: Ângelo?
Ângelo: O próprio, meu querido!
Gerald: Nossa, jamais imaginaria te
rever, não te vejo faz mais de uma década, desde a nossa luta...
Ângelo: Aquilo ficou no passado, não
guardei mágoa nenhuma do que aconteceu.
Gerald: Desculpe, naquele tempo eu
estava cego pela ambição de ser rei.
Ângelo: E você foi o rei, me destronando
no caminho, e, na verdade, hoje eu vim te agradecer por isso.
Gerald: Agradecer?
Ângelo: Sim, agradecer-lhe, depois
que perdi a coroa minha vida tomou outro rumo, um caminho que me fez muito mais
feliz. Eu estava embriagado com o sucesso, você foi uma peça que Deus colocou
em minha vida para me salvar...
Gerald: Hahahaha! Deus?
Ângelo: Sim, neste tempo eu me
sentia senhor de mim mesmo, tudo que via era aquela coroa na minha cabeça, tudo
e todos estavam aos meus pés, mas sabe onde me vi? Em um castelo vazio, tendo
milhões de “súditos” aos meus pés, mas sem ter ninguém para me abraçar quando a
aflição tomava conta do meu coração. Perdi minhas amizades, perdi minha
família, perdi minha fé... e hoje vejo que aquela coroa era uma maldição para
mim.
Gerald: Sei bem como é... Não sei se
é uma maldição, mas deixe-lhe perguntar, não sente falta do gosto de ser o rei?
Ângelo: Nenhuma saudade, se pudesse
voltar atrás, acho que desejaria não ter tido este título. Depois que você
tirou minha coroa, desabei... Lá do poço que me joguei, encontrei a verdadeira
dádiva de viver, o amor verdadeiro, que para mim foi a maior riqueza que
acumulei desde então.
Gerald: Entendo bem o que me diz,
fico feliz por ter conseguido se encontrar, mas vou ser sincero, até porque
tenho tão pouco tempo de vida que, foda-se, vou dizer o que realmente sinto. Eu
sinto todos os dias saudade de cada segundo do tempo que ostentei aquela coroa.
Ângelo: Não vim aqui para tentar
mudar sua maneira de pensar. Apenas tenho a dizer que, se o reinado que lhe
concedido foi o melhor de sua vida, o que me foi tirado foi o melhor da minha.
Como agradecimento, estou aqui para o que precisar, deixei pago todas as contas
deste hospital, você terá o melhor tratamento possível.
Gerald: Depois do que fiz com você
naquela noite, jamais poderia imaginar que você seria minha salvação neste
momento.
Ângelo: Que Jesus lhe acompanhe nessa
caminhada, meu amigo.
Gerald: Não sei nem como agradecer,
acho que quem vem me acompanhando não tem dado espaço para que ninguém possa
realmente me ajudar....
XVIII-Noticiário
FinalGrappling
Repórter: Morreu
nesta manhã Gerald Ross, aos quarenta e três anos de idade, vítima de falência múltipla
dos órgãos. Gerald, o rei do tatame, foi o maior expoente do grappling em seu
tempo, revolucionando o esporte, fazendo com que a popularidade do brazilian
jiu-jitsu explodisse em sua era. Sua ascensão foi meteórica, e em três anos ele
já havia destronado todos os campeões de seu tempo. O seu reinado foi curto, durou
cerca de quatro anos, tendo sua carreira abreviada por uma grave doença
congênita que, segundo especialistas, foi agravada pelo uso excessivo de esteroides
anabolizantes. Com vários problemas em sua vida pessoal, Gerald dilapidou seus
ganhos, e teve uma vida envolta em polêmicas e decisões questionáveis. Seus
últimos anos foram solitários, terminando sua vida de forma anônima como
residente permanente do Hospital Geral de Nova York, que fica a poucos
quilômetros do Madison Square Garden, palco em que Gerald brilhou no passado.
Gerald Ross revolucionou o esporte, deixando um legado de vitórias e glórias
dentro do tatame, que lhe conferiram o eterno título de rei...
Final
- De Volta ao Início
Alexsander: De
volta ao mundo, meu garoto?
Gerald: OOOW! CARALHO! O QUE FOI
ISSO?
Alexsander: Fale baixo, garoto, não
grite assim, pode assustar alguém.
Gerald: Como que eu não grito? Eu vi
e senti toda uma vida!
Alexsander: Hahaha! Uma vida em um
piscar de olhos, adoro ver a reação de vocês quando retornam.
Gerald: Eu estou aqui mesmo?
Alexsander: Sim, na mesma lanchonete
a beira da estrada, vivendo o mesmo conflito de lá de quando começou a projeção
da vida que lhe mostrei.
Gerald: Aquilo foi tão real....
Alexsander: Meu poder é grande, meu
rapaz, agora você consegue entender do que estou falando?
Gerald: Será daquele jeito?
Alexsander: Se fizer aquelas
escolhas, sim, será.
Gerald: Mas posso mudar algo?
Alexsander: Tudo, desde que seu
coração o consiga guiar para a segurança de mares não turbulentos, mas me
parece que o jovem gosta mesmo é da turbulência.
Gerald: Caramba, foi tudo tão real,
todos aqueles momentos, sentimentos, gostos, prazeres, dores...
Alexsander: Sim, meu garoto, tudo o que
eu proporciono é real, mas apenas para quem sabe aproveitar o gosto desta
realidade.
Gerald: Foi justo o que você me fez
nesta realidade que me mostrou?
Alexsander: Ora, se não! Tínhamos um
acordo, e neste, digamos, “test drive’, você quebrou nosso acordo.
Gerald: Não consegui nem perceber o
momento em que quebrei o acordo...
Alexsander: Eu vejo tudo e todos, e
sei exatamente o momento em que um contrato meu é quebrado.
Gerald: Mas e como fica agora? Então
tudo o que passei não passou de uma mentira?
Alexsander: Olha, fico envergonhado
de escutar vocês aqui me chamando de “pai da mentira”, que título esdrúxulo,
sem cabimento, e que não faz jus ao meu histórico com vocês. Tudo o que eu
proporciono é verdade, e assim como lhe mostrei, cada um tem o livre arbítrio para
escolher qual caminho seguir. Vou te contar mais uma verdade, uma que quase
ninguém sabe, pois fique sabendo que eu não venho buscar a alma de ninguém.
Gerald: Como não? Eu vi e senti o
que me fez!
Alexsander: Eu não fiz nada. Lembre-se,
era somente uma projeção, e, apenas lhe dei o que me pediu, naquela projeção eu
nem interferi na sua vida, quem fez tudo aquilo foi você mesmo!
Gerald: Como assim eu mesmo fiz
aquilo?
Alexsander: Vocês humanos se veem
como o centro do universo, seres cheios de bondade no coração e blá blá blá...
Eu não preciso mexer em nada para que vocês se percam, basta dar-lhes o poder
na mão e vocês mesmo se destroem.
Gerald: Então você me enganou quando
disse que minha alma era o preço do acordo.
Alexsander: E eu tomei sua alma como
pagamento, mas isto foi feito no momento em que lhe concedi o que poder que
desejava. Ah, como vocês são inocentes da própria maldade, da própria ganância
sem limites, se fazem de desentendidos, para não admitirem que cada um de vocês
é o seu próprio diabo.
Gerald: Como assim? Não estou
entendendo, você pegou ou não pegou minha alma?
Alexsander: Vou explicar de forma
mais didática. O preço da alma é só uma, digamos, formalidade. Isso na verdade
nem existe, eu criei este acordo apenas para dar-lhes uma chance, manter vocês
mais tempo sem sucumbir. Pense, enquanto me agradecem e glorificam, entendem
que são meros humanos, joguetes nas mãos de seres divinos. Quando se esquecem
disto, se tornam vocês próprios seu próprio Deus, libertando em si seu próprio
demônio.
Gerald: Olha, não estou conseguindo
acompanhar a ideia, a única coisa que eu consigo pensar é: a minha alma ainda
está em jogo?
Alexsander: Olha bem aqui no fundo
dos meus olhos, veja neles todo o poder que tenho para conceder... Não vou
repetir tudo novamente, já fiz todas as apresentações possíveis e impossíveis. Saiba,
meu garoto, eu sou toda a realidade! Nada mais de visões, é aqui e agora,
então, temos um acordo ou não?
Gerald: (...)
........
......
.....
.....
?????
????
???
??
?
?
?
Alexsander: Ah, vocês nunca me
decepcionam, conheço este sorriso e este olhar... Posso rodar milênios, e tenho
certeza de que onde eu for, encontrarei sempre alguém como você.
Gerald: Então você já sabe minha
resposta... Sim, eu aceito, não vou passar uma vida sem sentir aquele gosto,
para mim é isso é tudo o que vale, minha alma não tem valor sem aquele poder. Pode
contar que eu fecho o acordo com você, façamos, então, este pacto de campeão!
Revisado
e editado por Luana Gurther,
Finalizado
em 17/04/2024
Diego
Souto Maior Colino

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